Série amazônica nº13, 1968. Foto: Jaime Acioli

DASARTES 95 /

IVAN SERPA

AMPLA RETROSPECTIVA DE UM DOS MESTRES DA HISTÓRIA DA ARTE BRASILEIRA. IVAN SERPA: A EXPRESSÃO DO CONCRETO APRESENTA MAIS DE 200 TRABALHOS, DE DIVERSAS FASES DO ARTISTA QUE MORREU PRECOCEMENTE (RIO DE JANEIRO, 1923/1973), MAS DEIXOU OBRAS QUE ABRANGEM UMA GRANDE DIVERSIDADE DE TENDÊNCIAS, TORNANDO-SE UMA REFERÊNCIA PARA NOVOS CAMINHOS NA ARTE VISUAL NACIONAL

Sem título, 1957. Foto: Jaime Acioli

IVAN SERPA E O MUNDO: VÁRIAS PAISAGENS, MÚLTIPLAS RESPOSTAS

A arte de Ivan Serpa é, desde sempre, um grito de liberdade, uma busca de síntese, ímpar, arrojada e original, de construir uma estética comprometida com a vida e com o sentimento brasileiro. Por isso, ele jamais se preocupou com a construção de um estilo, determinado por forças externas, em coerência com o professor exemplar que era e exigia de seus alunos um constante exercício de pesquisa e reflexão.
Alguns fatos, de origens diversas, foram essenciais para a formação artística de Ivan Serpa e moldaram a personalidade do artista. Sua sólida formação cultural, adquirida com uma tia francesa, que o integrou, desde cedo, ao mundo estético, e a sua saúde frágil, provocada por uma cardiopatia congênita, desenvolveram no artista um sentimento vital de urgência e a permanente percepção de que sua sofisticação intelectual sempre haveria de conviver com a simplicidade de seu cotidiano e com sua autêntica personalidade humanista. Homem de olhar e de pensamento universais, ele jamais abdicou de suas raízes brasileiras: carioca, morador do Méier, na padaria, no ônibus, rubro-negro e mangueirense, entre seus livros, seus alunos, sua gente, Ivan Serpa, de maneira contundente, sintetiza, em sua própria personalidade, a essência poética de uma nova estética modernista e tropical, sensível, veloz, construindo paisagens nas quais a geometria é a ferramenta essencial, gesto primeiro, o espaço artístico entendido como elemento organizador do caos da percepção, a ordem, o método, o kósmos.

Série amazônica nº13, 1968. Foto: Jaime Acioli

A década de 1950 marcou um processo de reconstrução do mundo após a hecatombe da Segunda Guerra Mundial. Mas a humanidade tinha em mãos, então, uma nova tecnologia bélica, capaz de destruir todo o planeta, o que exigia um engajamento maior da arte em defesa de um movimento modernista que fosse capaz de dar ética e sentido às tecnologias, resultantes dos processos de pesquisa científica e industrial do período.
No Brasil, o jovem Ivan Serpa, desde suas aulas iniciais com o professor austríaco Axel Leskoschek, demonstrou interesse nos processos artesanais da criação artística e fez despertar nele a primazia da linha, do elemento gráfico, como estruturador da composição artística.
Essa busca por simplicidade e clareza encontrou seu rumo a partir do contato com Mário Pedrosa, que fez surgir no artista um interesse acentuado pelo concretismo, traduzido, aqui, por um vocabulário menos rígido, sem as imposições cromáticas de matriz europeia, e buscando paisagens horizontalizadas, linhas

de cor de delicada poética cromática, muitas vezes, tangenciando novos ritmos e musicalidades. É dessa época, mais precisamente, de 1953, a formação do Grupo Frente, do qual participavam o próprio Ivan Serpa, Aluísio Carvão, Eric Baruch, Abraham Palatnik, Lygia Pape, Décio Vieira, Lygia Clark, Vincent Iberson, João José da Silva Costa, Carlos Val, Rubem Ludolf, César Oiticica, Hélio Oiticica, Elisa Martins da Silveira e Franz Weissman.

Sem título, cerca de 1959. Foto: Jaime Acioli.

Sem título, 1952. Foto: Jaime Acioli

Depois de um período de grande repercussão de suas obras, Serpa viajou para a Europa e travou contato direto com os grandes mestres da pintura. E percebeu que lhe faltavam conhecimentos técnicos na arte de pintar. Mais uma vez, a técnica e as práticas artesanais constituíam o ponto-chave de suas inquietações, atitude compreensível por sua função de restaurador de obras raras da Biblioteca Nacional.
Em seu retorno ao Brasil, Serpa se desiludiu dos movimentos relacionados com a abstração geométrica. Na Europa, percebeu que o caminho inexorável desses movimentos levaria a uma ortodoxia formal, à elaboração de conceitos e à ausência

total da praxis artística, que a ele tanto agradava. Por isso buscou, inicialmente, uma síntese entre elementos reais e criatividade poética, produzindo obras que, em certa medida, estabeleciam contato com os movimentos da abstração informal, deles, porém, distanciando-se, porque partiam de elementos formais, que ele identificava nos livros antigos com os quais trabalhava na Biblioteca Nacional, como restaurador.
No início dos anos 1960, as grandes redes de comunicação transformavam o mundo “em uma grande aldeia global”. Surgiam imagens da fome e da miséria pelo mundo. O ideário modernista ruía diante de olhares incrédulos e diante das imagens de crianças esquálidas. No campo das artes visuais, no Brasil, nenhuma produção sintetizou esse momento, de maneira tão contundente, como a série de pinturas de Ivan Serpa, chamadas Negras, mas que o artista preferia denominar, poeticamente, Crepusculares. Essas obras, de forte apelo expressionista, reafirmavam a liberdade criativa, que Serpa sempre defendeu, e revelavam um artista com amplo domínio de seus meios de expressão. Em qualquer dimensão, essa série de pinturas e desenhos refletem o drama e o pavor de um mundo moderno, falido em suas promessas não realizadas, e acabam por se identificar com a questão conjuntural brasileira.

Biombo Concretista, 1952. Foto: Jaime Acioli.

Série Negras. Foto: Jaime Acioli

Os movimentos da pop art reverberaram intensamente por todo o mundo, valorizando as chamadas vanguardas negativas, como o surrealismo e o dadaísmo. No Brasil, eles adquiriram um caráter político mais intenso e uma nova geração de artistas surgiu no cenário da arte com imagens contundentes, repletas de violência e sensualidade. Serpa, homem de seu tempo, captou esse novo cenário e dele se apropriou à sua maneira.
Artista com pleno domínio de sua linguagem, na sua obra, o drama existencial da fase Negras cedeu lugar a uma sensualidade tensa, na qual o corpo feminino é o abrigo de uma alma barroca, repleta de curvas, dobras, movimentos circulares, que encontram origem em trabalhos realizados anos antes, quando o artista, restaurador de obras raras em papel, observava atentamente a ação dos anóbios (térmitas, cupins) e suas trajetórias microscópicas, delicadas filigranas, pequenos labirintos, recriados pelo artista.

Série Op-erótica,1969.

Sem título, 1960. Fotos: Jaime Acioli.

As estratégias da pop art atuaram no artista como afirmação da liberdade e instrumento essencial da criação artística, mas foi por meio de certos processos, oriundos da op art, que Serpa reencontrou, ainda na década de 1960, a imposição da ordem, do ritmo, da modulação e da gráfica que marcam a estética da arte geométrica. Assim, as Arcas construídas pelo artista adquiriram um caráter simbólico, como se o artista estivesse, com elas, abrindo seus arquivos mentais, seus processos construtivos, sua essência, na busca de refazer o mundo através da ordem e da simetria.
Depois de tantas imagens, tantos trabalhos, tantas paisagens e tantos mundos que o artista criou em apenas duas décadas, Serpa retornou parabolicamente ao seu princípio, à sua essência. Mas não se tratava, em momento algum, de reencontro com princípios racionais rígidos que acabaram por transformar a arte em uma cidadela elitista e distanciada no mundo e dos homens, representações amarguradas de um tempo que não volta mais, de uma modernidade já devidamente direcionada para a história.

Série geomântica,
1972. Fotos: Jaime Acioli.

Série geomântica, 1972. Fotos: Jaime Acioli.

Trajetórias corajosas como as de Ivan Serpa acentuam a importância da ação artística como instrumento que define identidades culturais comuns, mas, também, como agente de pesquisa, questionamento e subversão. O fenômeno artístico interfere nos mecanismos da tecnologia, levando-o aos limites e direcionando-o para novas vertentes. Ivan Serpa respondia com ousadia e liberdade. Nas várias paisagens que percorreu: geométricas, informais, figurativas, em várias técnicas e vários suportes, há uma inteligência natural do artista que entende a arte como instância, agente essencial em qualquer processo humano, em qualquer campo da atividade criativa que necessita de pesquisa e poesia para permitir que o homem seja sempre o sujeito de suas próprias construções.

Marcus de Lontra Costa
São Paulo, janeiro de 2020

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