Autorretrato, 1900

DASARTES 84 /

Henri Matisse

Em comemoração aos 150 anos de aniversário de nascimento de HENRI MATISSE, o Centre Pompidou Málaga apresenta um conjunto de obras icônicas do artista que revolucionou a sociedade.

A carreira de Henri Matisse poder ser traçada graças a uma seleção de obras mestres que fazem dialogar a pintura, a escultura e o desenho. São seis sequências cronológicas que seguem a rota desse importante artista da modernidade, desde a sua criação, em 1900, até seus últimos trabalhos do início dos anos 1950, em uma evocação dos interiores de Vence e sua última obra para a Capilla del Rosario.

Lorette com xícara de café, 1917.

Em Um novo país. Henri Matisse (1869-1954), cerca de cinquenta obras são exibidas, com obras-primas como Violinista na janela (1918), durante sua primeira estadia em Nice, o Nu assentado Rosa (1935-1936), que mostra a simplificação radical dirigida pelo artista desde o início, ou um de seus primeiros papéis cortados, Dançarino (1937).

Este é primeiro evento que marca o 150º aniversário do nascimento do artista e nos apresenta Matisse como o “clássico” da arte moderna, cuja radicalidade surpreende até hoje.

Violinista na janela, 1918

A FAVOR E CONTRA OS PROFESSORES. INÍCIOS E RUPTURAS (1900-1903)

Após uma formação acadêmica que considerou excessivamente rígida, Matisse entrou na oficina de Gustave Moreau, onde ele forjou sua própria identidade. Durante seus anos de formação, ele continuava copiando os mestres do Louvre, mas a liberdade inculcada por Moreau reforçou seu temperamento teimoso e rebelde. Aprendeu o tratamento da cor e da luz acentuada de Turner e Van Gogh e, desde 1899, o trabalho de Cézanne o libertou de seus últimos gestos acadêmicos. Da mesma forma, desde 1899, a escultura também acompanhou sua evolução artística e alimentou sua pesquisa pictórica ao longo de sua vida.

Madeleine II, 1903.

O Autorretrato, pintado durante o inverno de 1899-1900, segue a marca de Cézanne, decisiva para o jovem Matisse. Com o tema, o uso de pinceladas grossas e uma paleta ainda escura, mas com tons cromáticos arrojados, presta um tímido tributo ao mestre de Aix-en-Provence. Esse trabalho, que sugere contenção e paixão, assina a liberação visual do artista.

Desde seus inícios e, paralelamente à pintura, Matisse trabalhava o volume e foi formado por Antoine Bourdelle, na época assistente de Auguste Rodin. Com sua pose expressiva, Madeleine II mostra à perfeição que deteve o movimento no qual Matisse buscava o dinamismo da silhueta e a animação da superfície. Essa escultura, de tamanho modesto, exemplifica a recomendação que Matisse fez alguns anos mais tarde a seus alunos de que “quanto menor a escultura, mas prevalecerá a forma essencial”.

“MEIOS MAIS SIMPLES”. O PERÍODO FAUVE E “PRIMITIVO” (1905-1909)

Em 1904, Matisse abordou o divisionismo de Paul Signac, mas logo viu os limites desse método pictórico que impedia a comunicação entre desenho e cor. O verão que passou, em 1905, em Collioure, foi decisivo em sua conquista de cor. Nesse mesmo ano, expôs seus trabalhos no Salão de Outono com Derain, Marquet e Manguin. Esse grupo de jovens pintores, conhecidos como “fauves” (do francês fauve, feroz, selvagem), escandalizou com sua “orgia de cores puras”.

Nua no atelier, 1904-1905.

Apesar das críticas severas da imprensa, Matisse foi ainda mais longe em seus experimentos pictóricos radicais. Durante o ponto de inflexão que os anos 1904-1906 supunham, ele se afastou da imitação da natureza para se concentrar na expressão de um sentimento. A descoberta da estatuária africana influenciou essa mudança e o levou a simplificar as linhas. A partir de 1907, Matisse explorou a noção do decorativo – primordial para a sua jornada artística –, enriquecido com o seu conhecimento do Oriente, suas viagens para a Argélia e Marrocos, e o artesanato desses lugares.

Por meio dessa pesquisa, apagou a dualidade entre figura e fundo, demonstrando que todos os elementos da pintura devem participar de sua expressividade.

A APOSTA PELA RADICALIDADE. RETRATOS E FIGURAS (1909-1917)

Nos retratos pintados, esboçados ou esculpidos desse período, Matisse continuou sua busca por uma linha expressiva e confirmou a dimensão analítica de sua obra. O tema principal de Matisse, que é a espinha dorsal de toda a sua produção artística, continuava a ser a figura, seja ela individualizada ou simplificada para um “sinal plástico’. No final de 1916, Matisse reintroduziu o modelo em sua pintura e viu na colaboração com seus modelos “o foco de sua energia’. A partir de 1914, ele constantemente recorreu ao preto, que considerava uma cor absoluta. Essa cor intensa – a famosa “luz negra” – prevaleceu em alguns de seus retratos mais radicais. No inverno de 1917, o artista descobriu Nice e a luz do Mediterrâneo, uma autêntica revelação para esse norte. Desde então, ele vivia a cavalo entre Nice e Issy-les-Moulineaux, perto de Paris. Um novo ciclo começava no final da Primeira Guerra Mundial, em 1918, uma espécie de trégua após mais de uma década de experimentação radical.

Sua obra Mulher argelina, pintada em 1909, é um marco importante no processo de purificação de mídia.

Mulher argelina, 1909.

Os retratos esculpidos Jeannette I e IV (1910/1930 e 1911) representam a radicalização de seu processo artístico e a evolução em sua busca pela expressividade da forma.

NICE, INTERIORES, FIGURAS (1917-1929)

As viagens que fez, em 1909 à Argélia, e, em 1911 a Sevilha, Moscou e Tânger, permitiram a Matisse a profunda integração do problema do ornamental, resultante também de seu conhecimento da arte islâmica e dos ícones russos.

Desde a sua estada em Nice, durante a primeira metade de 1918, a pintura de Matisse sofreu uma mudança profunda que envolvia a modelagem aproveitando a luz suave da oficina de Nice. O tema da janela e do corpo feminino aparece incansavelmente em seu trabalho durante a década de 1920. Matisse transformava suas modelos em odaliscas orientais adornadas com as roupas coloridas que ele colecionava.

MODERNIDADE. OS ANOS 1930

Encomendado no início dos anos 1930, no grande painel intitulado A Dança para o colecionador americano Alfred C. Barnes em Merion, Pensilvânia, Matisse ofereceu a oportunidade de trabalhar pela primeira vez a técnica de recortes de papel.

Odalisca com calças vermelhas, 1921.

Sua pesquisa para essa “pintura arquitetônica” se concentrou no equilíbrio da composição, na linha arabesca, na estilização extrema dos corpos e na relação entre as cores rosa e azul.

Ele continuou com a pintura de cavalete, que retomou depois de 1935, em particular com sua modelo Lydia Delectorskaya. Matisse então fotografava os estados sucessivos de suas pinturas para analisá-las melhor e enriquecer sua reflexão plástica. Essa documentação também permitiu descobrir o longo e complexo processo de realização de suas telas e as batalhas que o levaram a simplificar os traços e a composição.

Matisse conseguiu unir desenho e cor em um gesto rico em repercussões plásticas

Com Dançarino, concebido como um estudo para O balé vermelho e preto, Matisse conseguiu unir desenho e cor em um gesto rico em repercussões plásticas.

O PRÓPRIO QUARTO. VENCE, OS ÚLTIMOS INTERIORES

Com o tema do workshop, “próprio quarto”, Matisse conheceu seu momento de glória a partir da instalação do artista na Villa Le Rêve, em Vence, em 1943, onde viveu até 1948. Em 1941, sobreviveu a uma cirurgia de grande porte. Já com nova energia, trabalhou incansavelmente e experimentou várias técnicas, incluindo papéis recortados que lhe permitiram “desenhar diretamente na cor”. Entre 1946 e 1948, começou sua última série de pinturas chamada Interiores de Vence, onde misturou naturezas-mortas, paisagens e interiores. As pinturas desse período são marcadas pela relação entre linha e cor, que criam um espaço totalmente unificado. Retornando a Nice, em 1949, ele mergulhou na realização de um grande projeto encomendado, a Capela do Rosário de Vence, que para ele seria “o fruto de uma vida inteira de trabalho”. Projetou então a decoração completa da capela seguindo sua invenção singular de papéis pintados de guache e recortados. Assim, com os reflexos de vitrais coloridos sobre os desenhos em preto e branco da cerâmica de parede, Matisse  encontrou no final de sua vida o equilíbrio desejado entre o desenho e a cor.

Bailarino, 1937

Com Grande interior vermelho, Matisse renovou a ideia de saturação da cor como uma tradução plástica do espaço e mostrou seu trabalho dentro da obra. O fundo vermelho vibrante, recorrente no trabalho de Matisse, unificava uma composição complexa de simetria (todos os objetos são duplicados), contrastes (arabescos e linhas em oposição) e ecos de cores. Exibida no Museu Nacional de Arte Moderna no ano seguinte à sua execução, essa obra-prima permanece no museu de acordo com o desejo do próprio artista.

Grande interior vermelho, 1948

Um novo país. Henri Matisse (1869-1954)

Centre Pompidou Málaga

6/3 a 9/6/2019

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