La tempête, 2021. © Gonçalo Ivo. Foto: Gabi Carrera

DASARTES 120 /

GONÇALO IVO

VINDO DE UMA TRADIÇÃO SÓLIDA DA PINTURA E CONSIDERADO UM DOS MAIORES COLORISTAS CONTEMPORÂNEOS, GONÇALO IVO TRADUZIU EM ÓLEOS, TÊMPERAS E AQUARELAS, PAPEL E MADEIRA, UMA REFLEXÃO QUE ALTERA NÃO SOMENTE O CARÁTER ATEMPORAL DE SUAS OBRAS, MAS TAMBÉM A NOÇÃO DE MOVIMENTO E ORDEM

Melancolia, 2021. © Gonçalo Ivo. Foto: Gabi Carrera.

“Eu escrevo o que eu vejo, eu pinto o que eu sou”

                                                                                                                 Etel Adnan (1925-2021)

A exposição Zeitgeist, de Gonçalo Ivo, no Paço Imperial, reúne não apenas sua produção dos últimos quatro anos, como também nos brinda com uma nova poética. Ali um conjunto de 80 obras são exibidas em três salas, entre telas e aquarelas, em grandes e pequenos formatos, objetos de madeira, preciosos livros de artista em papéis artesanais do Punjab e seus detalhados cadernos de estudos. Além do texto da curadoria, são apresentadas as contribuições de Nicholas Fox Weber, Presidente da Fundação Annie e Josef Albers; do linguista, filósofo e professor emérito do Massachussetts Institute of Technology (MIT), Noam Chomsky, e do poeta e acadêmico Lêdo Ivo.

Após quase 14 anos sem expor na cidade do Rio de Janeiro, Gonçalo mais uma vez surpreende. Alternando suas estadas nos ateliês de Vargem Grande, em Teresópolis, Madri e Paris, onde vive desde 2000, entremeadas por residências artísticas em Nova York (Residency Unlimited) e em Bethany (Connecticut, Fundação Annie e Josef Albers-Clark Studio), nos anos de 2019 e 2020, ele introduz pela primeira vez a dimensão do tempo e do movimento em sua obra.

Zeitgeist nos remete à fragilidade humana, ao desafio existencial, ao imponderável e à esperança, na melhor tradução espiritual que Kandinsky e Hilma af Klint nos legaram em escritos e na composição de suas pinturas. A exposição perpassa uma tríade de elementos que se interconectam, e só podem ser plenamente apreendidos quando o todo se completa. Arte e vida nunca estiveram tão impregnadas em sua longa e exitosa trajetória como artista.

Nas Cosmogonias, o artista abre o caminho para o mistério da criação, do universo e do simbólico, seja na exatidão de uma geometria cósmico-cinética das esferas, estruturadas por superposições e confrontos de cores, seja pela infinitude de nebulosas que exalam sensações e diluem as certezas. Seus círculos cromáticos são na verdade elementos sensoriais, de movimento, que se revelam a cada interação com o espectador, expandindo a percepção de que vivemos em um mundo mutável, muitas vezes distópico.

L’oiseau du paradis, 2021.
© Gonçalo Ivo. Foto: Gabi Carrera

Le jeu des
perles e verre, 2022.

Le jeu des perles e verre, 2021. © Gonçalo Ivo. Fotos: Gabi Carrera.

Nas transparências de seus Jogos de Contas de Vidro, ele introduz o lúdico, o melódico, o táctil e o cálculo do jogo da vida. Seus ábacos de cor em aquarelas e têmperas são mutáveis, parecem ali dispostos para serem manuseados, revelando uma contabilidade do tempo, um jeito de rearrumar aquilo que se perdeu ou o porvir. A alusão à obra de Hermann Hesse não é fortuita. Mas é no seu Inventário das Pedras Solitárias, obra de complexa execução, que seu léxico se completa. Pintadas a partir da vivência de um exílio involuntário, onde a natureza bruta se mesclou a sensações de contemplação, erosão, perda e renascimento. Como um ciclo que se fecha, as pedras podem significar, em seus múltiplos, cinzas ou tonalidades leves de cor, tanto algo que flutua no espaço como algo que está entranhado na terra, querendo se revelar, isoladas, ou em busca de um encontro, um recomeço. Podem nos remeter a ancestralidades, mas também nos indicar a abertura para o novo. São as partes de um tempo partido.

L’inventaire des pierres solitaires, 2020.
© Gonçalo Ivo. Foto: Gabi Carrera.

“A pintura de Gonçalo Ivo é mais do que um estudo da cor, é uma escola para a cor. Ali, ela aprende. Amadurece, como animal efetivamente caçado, que não pode mais deixar de assumir sua evidência no mundo. Cada tela é uma classe, feita de superior maestria, onde a luz incide para se adorar já não enquanto acaso, mas enquanto inteligência. É essa a diferença entre a cor por consciência e a casual. […] A luz sabe o que faz. Nas telas de Gonçalo Ivo, a luz aprende a fazer.”

                                       valter hugo mãe, Porto, abril de 2015

Cosmogonia, Oriente, 2019.

Cosmogonia, Emblema para Santa Teresa de Ávila, 2021.

Le jeu des perles de verre, Byzance, 2020

 

“As pinturas e as diversas criações de Gonçalo Ivo são uma realização verdadeiramente impressionante, trazendo o espectador para um mundo de contemplação e imaginação vívidas. Uma alegria de estar e retornar avidamente.”

                   Noam Chomsky, março de 2022, escrito para a abertura da exposição Zeitgeist no Paço Imperial, Rio de Janeiro

Le jeu des perles de verre, La Joie, 2021.

 

“Assim como a falta de pontuação, o trabalho de Ivo possui um maravilhoso senso de continuidade; não há pontos finais, mas, sim, um ritmo contínuo. Há […] consistentemente, sempre algo dançando. O trabalho é convidativo; nos chama a participar.

[…] Acrescentar aos prazeres da vida é uma das maiores proezas e conquistas para uma obra de arte. Fazê-lo com total originalidade, integridade e habilidade técnica é uma dádiva para todos. Alcançar profundidade com destreza não é uma conquista pequena.”

                            Nicholas Fox Weber, Presidente da Fundação Annie e Josef Albers, março de 2022, escrito para a abertura da exposição Zeitgeist no Paço Imperial, Rio de Janeiro

 

“Penso que a obra de Gonçalo caminha por qualificar cor como corpo. Transmitir vida a uma condição imaterial. Não lhe interessa a cor pela cor, mas a cor como coisa, como algo vivo, pulsante, corpóreo. […] ele não quer ilustrar ou glorificar o corpo. E sim explorar a cor, avançá-la em direção ao espaço, transmitir […] certa autonomia dela em relação às regras já caducas de uma velha arte, porque é agora a cor, que, por sua intensidade e saturação, pesa sobre a superfície da tela ou da madeira, impondo-lhes a forma. É uma cor-matéria que vibra incessantemente e também se adequa como uma fina camada epidérmica sobre tela-corpo. A cor se confunde com a pele, podendo ser, na obra de Gonçalo, rugosa, desigual, seca, vibrante.”

                                          Felipe Scovino, em “A pele da pintura”, texto de abertura para a exposição Gonçalo Ivo: A pele da pintura, 2016, Museu Oscar Niemeyer

 

“Gonçalo Ivo interroga a relação entre forma e técnica, valendo-se de uma sensibilidade da atmosfera, criadora de unidade perfeita, aquela característica das pinturas do Trecento e do século 17, em sua aptidão para conferir naturalidade ao que representa. Ele lhe dá uma equivalência moderna, formulada com clareza e rigor, e igualmente espiritual. A riqueza de sua paleta, a grande variedade de suas cores, cria um jogo com o espaço, delimitando linhas e formas sempre diferentes”

                                Lydia Harambourg, em Arquiteto da Cor, Paris, 2012

Cosmogonia, Equação Poiar, 2018

Le jeu des perles de verre, Léveste, 2020.

 

“Ao observarmos os trabalhos de qualquer período-série ou período da produção de Gonçalo, vemos que a cor, assumida como uma substância essencial da visualidade, e, portanto, descolada de qualquer referente real, impõe-se como principal questão da poética de sua obra […].

Não é possível capturar o sentido poético da produção de Ivo sem considerar […] outra comunidade de sujeitos, formada pelo público. Gonçalo não os convoca, como no passado clássico e moderno, para a observação pura e simples de um sistema pictórico resolvido por ele dentro dos limites dos seus quadros, numa composição específica. Seja pela escala frequente grandiosa ou pela intensa reverberação cromática, suas pinturas terminam por criar ambientes favoráveis à experiência sensorial da cor”

                                    Fernando Cocchiarale, em Gonçalo Ivo, texto publicado em livro homônimo por ocasião da exposição do artista no Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro, 2008

 

“Le peintre Gonçalo Ivo invente des perspectives décentrés qui changent l’espace et le temps. Il imagine une palette tantôt voilée, tantôt éclatante. Ses couleurs chatoyantes et moirées, les rythmes de sa musique picturale, des modifications mélodiques multiplient des variations, des visions diferentes. L’art de la fugue le fascine. Dans son atelier, il peint em écoutantconstamment la musique […].

Ses tableaux donnent à voir les Eléments […]. Il invente des visions du cosmos, des éclairages imprévisibles, des illuminations soudaines […].

Gonçalo refuse simultaneamente la tentation du formalisme, des théories, du dogmatisme et celle de l ‘anecdotique et  des détails.

(…) il Cherche um accord de l’humain et de la nature.

                                         Gilbert Lascault, Paris, 2004

 

 

“De suas pinturas […] e de seus objetos se desprende uma nítida atmosfera espiritual, distinta de quase toda a arte de seus contemporâneos brasileiros, americanos e franceses.

Ao tentar entender o que me seduz e fascina no que vejo, não consigo evitar essa dimensão espiritual, musical e quase religiosa. Os quadros maiores se impõem com majestade de um monumento religioso ou, diria, de uma catedral. E os menores e as peças tridimensionais, como objetos de culto.

Sem que, todavia, se chegue a saber de que culto se trata.”

                                          Marcelin Pleynet, em En “écoutant” la peinture de Gonçalo Ivo, Oratório, 2012

Cosmogonia/Marte, 2021.
© Gonçalo Ivo. Foto: Gabi Carrera.

El cielo de Plinio El Viejo, 2014. © Gonçalo Ivo. Foto: Gabi Carrera

Tissu D’Afrique, 2005. © Gonçalo Ivo. Foto: Gabi Carrera

Gonçalo sempre nomeou seus principais momentos, dando forma à suas referências na música, na literatura ou na história da arte. E agora não é diferente.  No abrigo de seus ateliês, as séries anteriores de Rios, Árvores, Prières, Bandeiras, Panos da Costa, Tissus d’Afrique, Lamentos ou Oratórios não são epifanias da própria existência ou da natureza exposta que o cerca. São ouvidos e olhar atentos de um pródigo diálogo afetivo com a cultura universal, um debate permanente, entre outros, com Goya, Klee, Vieira da Silva, Volpi, Carvão, Saldanha, Zubaran, Ribera, Cage, Eno ou Bach. Nesse turbilhão de intensos sentimentos, suas Alvoradas, Auroras, Contemplações, Acordes, Fugas e Contrapontos nomeiam sonhos, mas também possibilidades.  Seu ato de criação e ânsia antropofágica nada mais são do que ressignificar sua própria linguagem, dando corpo e alma ao que ainda não foi dito. A facilidade com que navega e deglute manifestações do românico ao barroco espanhol, de culturas africanas ancestrais ao modernismo europeu, confunde-se com o domínio técnico com que manipula pigmentos, têmperas e óleos. Pontua definitivamente sua artesania na contemporaneidade e se posiciona como alguém alerta e sensível às mudanças do espaço e do tempo.

La naissance de la voie lactée, 2021.
© Gonçalo Ivo. Foto: Gabi Carrera

A cor é seu elemento de trabalho. Rigorosa e, ao mesmo tempo, espiritual. Como Fernando Cochiaralle ressaltou na exposição de 2008, no Museu Nacional de Belas Artes:

 

“Ao observarmos os trabalhos de qualquer período […], vemos a cor, assumida como uma substância essencial da visualidade, e, portanto, descolada de qualquer referente real; impõe-se como principal questão poética de sua obra […].”

 

Ou no que Felipe Scovino definiu, em 2016, para o catálogo da exposição do Museu Oscar Niemeyer, ao dizer que:

 

“[…] a obra de Gonçalo caminha por qualificar cor como corpo. Transmitir vida e uma condição imaterial. Não lhe interessa a cor pela cor, mas a cor como coisa, como algo vivo, pulsante, corpóreo […].

É uma cor-matéria que vibra incessantemente […]. A cor se confunde com a pele, podendo ser, […] rugosa, desigual, seca, vibrante”

Zócalo, 2018.
© Gonçalo Ivo. Foto: Gabi Carrera.

Cosmogonia/Solar (para Pablo Casals), 2020

Cosmogonia/Eclipse (para John Cage), 2021.
© Gonçalo Ivo. Fotos: Gabi Carrera.

 

Esse lastro precioso e definidor não é, entretanto, seu limitador. É criador de oportunidades e tomadas de risco.

O Zeitgeist, de Gonçalo, vai além de Hegel. Cosmogonia, Contas de Vidros e Pedras são como expressões de um mesmo ir e vir, tocados pelas surpresas da vida e a imprecisão de um desafio não cronológico. Ele não quer cercear o espaço, muito menos o acaso. Não por coincidência, as últimas obras da exposição flutuam e respiram, a uma certa distância das paredes. São pedras livres que se movem na Sala 13 de Maio, reconectando-nos com memórias e histórias ali presentes, ou, quem sabe, com recomeços incertos.

Luiz Chrysostomo de Oliveira Filho é curador da
exposição no Paço Imperial e Presidente do Conselho
do Museu de Arte do Rio de Janeiro (MAR).

GONÇALO IVO: ZEITGEIST • PAÇO IMPERIAL
• RIO DE JANEIRO • 5/4 A 26/6/2022

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