VIU

Viu, 1968. Foto: Henrique Luz. © Gilberto Salvador.
É um trabalho da década de 1960, momento em que o país vivia uma forte censura em todas as áreas culturais. Naquele momento, eu utilizava a linguagem dos cartazes de cinema e das histórias em quadrinhos para poder fazer o meu trabalho, então havia um significado gráfico, quase ilustrativo de uma ideia plástica. Havia uma apropriação da linguagem publicitária nas minhas obras, mas eu utilizava isso como uma mensagem dirigida especificamente à questão da militância política. No caso da obra Viu, havia algo mandatório, uma seta que indicava certa sugestão de direção. Era também praticamente era um xingamento. Essa obra participou do Salão Paulista de Arte Moderna, em 1967, e acabou sendo destruída pelo Exército. Anos depois, quando eu ainda dava aula na Faculdade de Arquitetura de Santos, consegui recuperá-la. Tanto essa obra quanto a 123, que falarei a seguir, foram trabalhos bastante paramentais de um determinado período.
123

Um, Dois, Três, 1968. Foto: Henrique Luz. © Gilberto Salvador.
A obra 123 é do mesmo período de Viu (1967), momento em que o país estava sob o regime militar e havia uma grande censura, principalmente na área cultural. Assim como Viu, essa obra também foi calcada em uma linguagem típica de cartazes de propaganda. Na imagem, aparecem três mãos, que, aos poucos, vão se avermelhando, desligando-se da questão do verde e amarelo. Era um arredio contra a própria ditadura de direita que estávamos vivendo na época. A mão ia se tornando vermelha, como se eu acreditasse que o país, em algum momento, fosse enveredar por uma situação um pouco mais à esquerda. A obra acabou sendo destruída pelo Exército, que invadiu o Salão de Arte Moderna de Santos e destruiu diversos trabalhos, entre eles, a 123 e o Hahaha, que também fez parte desse conjunto. Anos depois, consegui recuperar alguns pedaços que sobraram e deram a possibilidade de restauro. Assim como Viu, essa obra também traz a questão da Pop Arte na linguagem do meu trabalho, gerando uma obra um pouco mais panfletária, revolucionária e engajada politicamente.
ROBÓTICA

Robótica, 1969. © Gilberto Salvador.
Em 1969, fui convidado a participar da Bienal de São Paulo. Em uma pequena sala, coloquei três esculturas em aço inoxidável, luzes florescentes e manchas vermelhas feitas de plástico, que brotavam das obras. Essa peça foi feita, pensada e elaborada a partir do questionamento de que a máquina e o robô, por mais elaborados que fossem, não conseguiriam independer da vida humana. As formas vermelhas que brotavam dessas máquinas, como se fossem sangue, traziam a ideia de que o homem tinha uma participação direta, como se o que estava acontecendo fosse resultado do impacto humano. Hoje muito se discute sobre a inteligência artificial, mas, desde àquela época, em 1969, eu levantava essas questões junto ao Waldemar Cordeiro, que insistia que, em algum momento, a arte seria feita pelo computador e eu insistia que não, que o computador, no máximo, ia ser um instrumento, como o lápis, mas que os resultados estéticos sempre dependeriam do homem. A ideia da série de esculturas Robótica foi exatamente essa, discutir essa questão do homem e da máquina. Por meio dessas obras, é possível perceber uma sequência que vem até o final da minha obra, na qual há uma conversa do gesto e do eventual com o geométrico. Além da Bienal, essa peça também participou de uma grande mostra que foi feita em São Paulo sobre o meu trabalho na década de1990. Hoje, ela faz parte do acervo da Pinacoteca do Estado de São Paulo.
VOO DE XANGÔ

Voo de Xangô, 2022. © Gilberto Salvador.
Em 2002, eu retorno à escultura de forma extremamente impactante para a minha vida e acabo realizando uma grande exposição no Museu da Casa Brasileira, em São Paulo, sendo convidado a instalar uma escultura na praça do metrô no bairro Jardim São Paulo, perto de Santana. Essa escultura acontece exatamente quando eu estou me voltando um pouco mais para algumas questões do candomblé e para suas simbologias. Em algumas esculturas desse período, eu trabalhei tangenciando essa questão de cultura afro e seu significado místico. Nesse momento, criei a obra Voo de Xangô, feita em aço comum, porém, com uma estrutura metálica interna muito forte, trabalhada com uma tecnologia de ponta de caldeiraria em aço e, de certa forma, foi sendo desenvolvida a partir dos conceitos que eu já vinha impondo ao meu trabalho com relação à geometria e seus significados. Essa escultura foi brotando praticamente de uma forma meio autônoma e, somente quando ela ficou pronta, eu entendi por que eu estava falando muito de Xangô. Engraçado que teve um pai de santo amigo meu que disse: “Enquanto você tá fazendo a escultura, ela é de Exu e não de Xangô”. E quando a exposição foi inaugurada, eu lembro que ele estava na abertura e disse: “Agora essa peça se tornou de Xangô”. Há uma identidade pessoal com a peça, mesmo sendo uma escultura de grandes dimensões, que mede cerca de 24 metros, e foi instalada em uma praça, um grande espaço público. A obra é composta por uma grande esfera, com dois prismas que se alternam, lançam-se oposicionalmente, e foi necessário uma grande estrutura logística para montá-la e colocá-la no local. Esse trabalho continua agregando os elementos que eu considero orgânicos, como uma esfera vermelha, que representa o sangue, e as asas, como se fossem prismas, formando um conjunto voador em homenagem a Xangô, que é meu orixá.
GELO + AZUL

Gelo + Azul. © Gilberto Salvador.
A obra Gelo + Azul compõe esse conjunto mais contemporâneo da minha obra, que está sendo exposto no Paço Imperial e a curadora Denise Mattar chamou de “Geometria visceral”. Na verdade, essa peça azul sintetiza a ideia que eu tenho sobre a questão da organicidade em contraste com as formas programadas geometricamente. É uma proposta que eu tenho de trabalhar com a geometria, mas não no caráter concretista, que tem certo purismo geométrico e matemático, mas a geometria sendo utilizada como uma expressão tão orgânica quanto uma pincelada, um gesto. Essa peça é composta por prismas geométricos – que trazem a ideia de exatidão, precisão, fazem com que o espectador entenda a volumetria como algo exato e programado –, que se contrapõe com um grande esparramar de tinta ocasional, é relativamente controlado por mim, mas eu quero que seja o mais ocasional possível dentro de um determinado contexto estético que estou trabalhando. O resto da exposição segue mais ou menos o mesmo conceito, peça por peça trabalhando essa questão do esparramado definindo o que é gestual, o que é natural, o que é uma coisa não programada, conversando e contrapondo com o programado e com o geométrico. Acho que essa peça, de certa forma, tem a essência do que é a exposição. No fundo, eu estou falando que, com todos os percalços que possam existir, e, no meu caso, mais do que nunca, uma vez que tenho problema de locomoção muito marcante, a vida continua. Talvez essa seja a mensagem mais estimulante que eu pudesse falar do meu trabalho, que é centrado na questão da vida e dos compromissos sociais e políticos. Acho que todo artista faz sua obra com essa questão existencialista porque ele está vivendo. E eu não sou diferente.
GILBERTO SALVADOR: GEOMETRIA VISCERAL •
PAÇO IMPERIAL • RIO DE JANEIRO •
9/12/2025 A 1/3/2026

