Foto: Eduardo Ortega.

DASARTES 115 /

GERTRUDES ALTSCHUL

GERTRUDES ALTSCHUL, ALEMÃ RADICADA NO BRASIL, FOI UMA FIGURA PIONEIRA NO CONTEXTO DA FOTOGRAFIA MODERNISTA BRASILEIRA. EMBORA ELA SEJA BASTANTE ADMIRADA NO MEIO FOTOGRÁFICO NO PAÍS, SUA OBRA AINDA É CONHECIDA APENAS EM CÍRCULOS ESPECIALIZADOS, TENDO SIDO ESCASSAMENTE PUBLICADA E EXIBIDA — ALGO QUE A MOSTRA NO MASP, A PRIMEIRA EM UM MUSEU, PRETENDEM MODIFICAR

Quando do seu surgimento e desenvolvimento, a fotografia logo procurou ganhar o status de arte, gerando diversos embates na história da arte. É possível que ainda hoje haja quem tente atiçar o fogo dessa discussão, mas, para a maioria dos teóricos, estudiosos e apreciadores das artes visuais, isso já é assunto encerrado. Caso uma minoria ainda insista em questionar, então é provável que estes jamais tenham se deparado com as brilhantes obras fruto das lentes, câmeras e genialidade de, por exemplo, Sebastião Salgado ou Henri Cartier-Bresson. O fotógrafo-artista sempre tem algo de muito particular e peculiar em suas produções, sua marca registrada, sua forma de se comunicar com o mundo e o público. Este texto tratará de uma dessas geniais e singulares visões de mundo: a de Martha Gertrudes Altschul (Alemanha, 1904 – São Paulo, São Paulo, 1962), pioneira da fotografia modernista brasileira. Sabe-se que sua obra transcende o universo fotográfico, mas foi por meio da fotografia que ela se revelou ao mundo artístico. No Brasil, sua obra ainda não é amplamente conhecida, tendo sido ainda pouco exibida e menos ainda publicada, mas essa dívida com a carreira da artista por aqui já está sendo amenizada pelo MASP por meio da mostra Gertrudes Altschul: Filigrana, que iniciou em agosto de 2021 e está prevista para se encerrar em 30 de janeiro de 2022.

Arquitetura ou triângulo ou composição. Foto: Eduardo Ortega

Foi por fugir da violência e perigo causados pela perseguição aos judeus e pessoas de ascendência judaica, devido ao nefasto regime nazista, que a família Altschul teve seu destino cruzado com o de nosso país. Gertrudes e o marido, Leon Altschul, chegaram ao Brasil em 1939, vindos de Berlim. Fixaram-se em São Paulo, onde o casal administrou uma pequena fábrica de produção de chapéus, o que não impediu Gertrudes de se dedicar à fotografia, inicialmente como atividade recreativa, um hobby. Ela acaba assim mantendo relações com o histórico Foto Cine Clube Bandeirante (FCCB), ao que se sabe, sendo uma das primeiras mulheres que passou a fazer parte do grupo e, por sua vez, estava associado ao movimento conhecido como Escola Paulista, precursores da fotografia moderna brasileira.  

Após algumas submissões de suas fotografias, que passaram por avaliações dos membros do grupo na década de 1940, ela foi aceita definitivamente no FCCB em 1952. 

Talentosa, de  olhar  apurado e esteticamente atento às belezas cotidianas da cidade, Gertrudes Altschul começou a enquadrar nas lentes das suas câmeras Roleiflex e Contax a paisagem urbana paulista, nos objetos em diferentes escalas e em temas botânicos, principalmente folhas, com as quais, utilizando uma técnica de sobreposições do negativo, Altschul gerou padronagens que se assemelham a estamparias e criam interessantes texturas visuais. O interesse artístico e a curiosidade criativa dela não se restringem a captar imagens. Ela focava também na pós-produção delas, produzindo inclusive fotomontagens em um laboratório que ela mesma montou em na casa onde morava.

Folha morta.
Foto: Eduardo Ortega.

Ritmo.
Foto: Eduardo Ortega.

 

A produção artística de Gertrudes Altschul se encontra sempre em sintonia com a fotografia moderna brasileira, que tinha por objetivo primordial a ruptura com os moldes e princípios clássicos da composição fotográfica por meio de construções geometrizadas, tanto abstratas quanto figurativas. Para tanto, os fotógrafos modernos do Brasil faziam experimentos com ritmos, linhas, planos e o belo e interessante contraste entre luz e sombra, que, apesar de clássico, pode ser sempre explorado e reinventado.  

As condecorações e o reconhecimento são quase imediatos, visto que, já durante a mesma década de adesão ao FCCB, e, precisamente no ano de 1954, ela recebeu a menção honrosa no 2º Salão de Arte Fotográfica, organizado pelo Foto Cine Clube de Jaboticabal e, em 1955, o diploma de honra no 1º Salão Nacional de Arte Fotográfica da cidade de Santos. Ainda em 1955, Altschul participou de uma exposição de Fotografia e Cinema na Alemanha e, dois anos depois, foi reconhecida com honras no 6º Salão de Arte organizado da Sociedade Fluminense de Fotografia.

Concreto abstrato.
Foto: Eduardo Ortega.

  

Recentemente o MoMa, Museu de Arte Moderna de Nova York havia exposto obras fotográficas de Gertrudes, contando com a curadoria de Sarah Meister. Filigrana, a exposição organizada pelo MASP, apresenta 62 fotografias vintage, com algumas das primeiras ampliações fotográficas feitas por Altschul. Os temas dessas fotografias são os que consagraram e marcaram boa parte do trabalho da artista, como a arquitetura urbana, a botânica (principalmente flores e folhas) e naturezas-mortas. O público também poderá presenciar experimentações produzidas pela autora que demonstram que ela esteve em sintonia com os experimentos fotográficos mais avançados de sua época, como o fotograma (técnica em que a imagem é fixada diretamente no papel fotográfico por meio da luz) e a chamada “solarização”, técnica que resulta na inversão dos tons de preto e branco na imagem final. Quem for ao MASP, verá que, no olhar de Altschul, uma folha morta ou o último andar de um prédio em contraste com o céu são bem mais do que demonstram ser. 

Jogo de linhas.

Foto: Eduardo Ortega.

Filigrana. Foto: Eduardo Ortega.

Filigrana, exposição homônima a uma de suas mais famosas obras, é a mostra da absurda liberdade criativa de uma mulher, uma artista e uma modernista que não tinha medo de experimentar e revelar ao mundo como seus olhos e seu intelecto viam a cidade a natureza e os objetos. Conforme a ideia abordada no começo deste texto, é impossível não reconhecer o valor artístico da fotografia após conhecer a obra daqueles que transformam um processo que deveria ser essencialmente mecânico ou automático em arte e poesia visual. Gertrudes Altschul e suas obras são a prova de que a fotografia moderna brasileira foi um marco na história da arte e ainda exerce influência e peso na contemporaneidade.  

 

Edvaldo Carvalho é professor de arte na rede estadual de
ensino do Estado do Amapá e MBA em História da Arte

GERTRUDES ALTSCHUL: FILIGRANA • MASP • 27/8/2021 A 30/1/2022

 

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