
Leão do AngloLatino, 1976. Foto: Gustavo Scatena.
Artista de inegável importância, Geraldo de Barros atuou no circuito artístico brasileiro trazendo aspectos heterogêneos, que passavam do pensamento concreto ao experimentalismo fotográfico, para firmar seu apreço pela visualidade moderna. A profusão de meios artísticos que utilizava derivava mais do pleno exercício de racionalidade do que propriamente um pendor pela entropia. Com rigor moderno, o artista permitiu envolver-se em todas as dimensões de projeto. De uma etapa deduzia, via processos inventivos, o próximo passo, estabelecendo sequências poéticas que modulavam, com inteligência, infinitas variações da Forma. No caso desse artista, não era a Forma – em sua razão e determinações finais – seu objetivo, mas os processos de mutações. Curiosamente, não parece se tratar da validação de um objeto em si, talvez seja a qualidade mesma da transmutação da Forma, esta, sim, pura e simplesmente.

Fotoforma, 1950-2001. Foto: Geraldo De Barros. (IMS Reproducão João L. Musa. Itaú Cultural)

Foto: Geraldo De Barros.
O trabalho de Geraldo de Barros, decorrente de cinco décadas produtivas, firmou-se com a comunhão entre desígnio e práxis na qual se evidenciava certa adesão ao mundo. Da conformação positiva entre ética e poética, Geraldo de Barros percorreu os principais movimentos artísticos do nosso século 20. De saída, pode-se perceber seu engajamento ao circuito artístico por sua participação nos importantes coletivos: XV, Ruptura, Rex e Foto Cine Clube Bandeirantes. O artista reuniu certos traços expressivos, da sua prática inicial com a pintura, ao fotográfico que, por sua vez, já assimilava o procedimento da técnica da gravura. Sua passagem pelo design, seguido da fabricação de móveis, permitia uma percepção aguda da produção colaborativa – cadeia inclusiva: do consumidor ao trabalhador não mais alienado da sua produção. Os cartazes e os folhetos de propagandas e marcas – Unilabor e Hobjeto – funcionavam a partir de dois registros: por um lado, aproximaram-no da imagética pop, de outro, reforçaram a poética combativa do projeto de funcionalidade dos objetos, ambos os registros enlaçados à produção em massa; a verve concreta na combinação aritmética nos múltiplos dados recobrindo o mundo de linha, plano e volume; já as fotoformas lidavam com o ambiente literário das poesias visuais e, por fim, os traços sensíveis e afetivos da memória visíveis na série Sobras, último conjunto produzido pelo artista.
Perceber os modos de vida se tornou tarefa para o artista, que manteve uma sintonia fina com a racionalidade visual. Nas superfícies dos objetos, havia formas que eram enfatizadas por um dos métodos de Barros: a Gestalt. Mas, para além da psicologia da forma, o artista nos legou um modo de ver, por assim dizer: o visível como traço constitutivo. O panorama de atuação do artista coincidiu com nossos principais movimentos artísticos. Todas as suas incursões poéticas se tornaram vias expressivas a partir das quais reflete-se sobre nosso sistema de arte. Considerando o ponto de partida, nosso projeto construtivo, pode-se redimensionar o papel desse artista em nossa história recorrendo, desse modo, à multiplicidade do fenômeno da Forma. Não sem motivo, celebra-se sua produção na retrospectiva Geraldo de Barros – Imaginário, Construção e Memória, em São Paulo.

Três metades e um círculo,1950.
G-14, 1990. Foto: Arquivo Geraldo De Barros

Sem título, da série Jogos de Dados (48), 1986-2016.
O conjunto de 55 peças de Jogos de Dados, série produzida em 1980, são formas que flutuam bem ao gosto do manejo casual das mãos no lance de dados. Geraldo de Barros havia pensado essa série para homenagear o poeta francês Stéphane Mallarmé, que solicitava da linguagem o jogo entre sentido e acaso. Assim, o poeta favorecia o acaso como vórtice da linguagem porque, a partir dele, o encontro casual de sílabas, sons, frases formavam sensos e dissensos.
Nos dados de Geraldo de Barros, as cores das superfícies parecem em permanente proposição visual e a combinatória provoca certa indecisão. Não se sabe se se percebe o plano ou o volume. Não se sabe se se optou por um ou outro. Ao certo, pode-se intuir que nosso raciocínio visual é provocado. Uma vez assegurada, nossa intuição visual busca seguir a lógica da linguagem: a geometria bem poderia ser tomada como sintaxe.

Sabonete Francis,1977.

: Negativo da Série Sobras, 1996-1998. Reproducão Michel Favre.

: Negativo da Série Sobras, 1996-1998. Reproducão Michel Favre.
Um conjunto de fotografias que faz parte da exposição é Sobras, produzida entre os anos de 1996 e 1998, que reúne momentos afetivos. As imagens fotográficas, em princípio, destoariam da produção de Geraldo de Barros porque, como resultado final, diferem dos trabalhos que se apresentam em módulos – Jogos de Dados, por exemplo. No entanto, o procedimento incluía rigorosa montagem que, na acepção artística dele, resultava de radical experimentação. São imagens sem uma categorização fixa, pois delas sobram, quer dizer, um pedaço de visão, um lance de objeto, um tempo. Nomeada assim, a série parece afirmar o rastro: tempo e espaço não definidos, porém conhecidos por nós.
Tatiana Martins é formada em
museologia e pós-graduada em
História da Arte pela PUC-RIO.
GERALDO DE BARROS: IMAGINÁRIO,
CONSTRUÇÃO E MEMÓRIA •
ITAÚ CULTURAL • SÃO PAULO •
11/8 A 7/11/2021


