DASARTES 95 /

GEORGIA O’KEEFFE

A ACLAMADA TRAJETÓRIA DA PINTORA AMERICANA GEORGIA O’KEEFFE NOS MOSTRA AS CONEXÕES INDELÉVEIS QUE ELA CRIOU COM TODO CUIDADO ENTRE SUA ARTE, SEU ESTILO DE VESTIR E SUA PERSONALIDADE PÚBLICA

From the Faraway, Nearby, 1937.
© 2016 Georgia O’Keeffe Museum/ DACS, London. Foto: Malcom Varon

Music, Pink and Blue No. 1, 1918. Foto: Paul Macapia.

“Georgia O’Keeffe nunca permitiu que sua vida fosse uma coisa e ela pintasse outra.”
Frances O’Brien, amigo de longa data (1927)

Georgia O’Keeffe (1887-1986), uma artista americana de enorme criatividade, acreditava que tudo o que uma pessoa criasse ou escolhesse viver com – arte, roupas, decoração – devia refletir uma estética moderna, unificada e agradável. Até os menores atos da vida cotidiana, ela gostava de dizer, deveriam ser feitos lindamente.
O caminho de O’Keeffe começou com os primeiros anos de sua florescente carreira em Nova York nas décadas de 1920 e 1930, e depois se consolidou quando ela se mudou para sua longa vida no Novo México. Desde a juventude, fica claro que ela se vestia de maneira simples e sem adornos. Costurada com suas próprias mãos, sob medida ou comprada, a escolha de roupas de O’Keeffe enfatizava as formas compactas, linhas fluidas e formas orgânicas que distinguem suas pinturas. Seu estilo marcante tanto em roupas quanto em arte foi profundamente influenciado por seu estudo ao longo da vida das culturas japonesa e chinesa.
A presença da câmera no universo estético de O’Keeffe é notável. Ao longo de sua vida, a artista se vestiu e modelou para cerca de cinquenta fotógrafos, ajudando a gerar e promover uma identidade pública como uma mulher independente e inconformista que, no final de sua vida, havia se tornado um ícone do feminismo e o rosto da modernidade. Uma mostra dessas fotografias, objetos e obras de arte no Norton Museus dos Estados Unidos nos incentiva a considerar o quão desafiador e inspirador pode ser criar e sustentar um estilo pessoal que se reflete em todos os aspectos da vida.

nº 8-Special (Drawing nº 8), 1916.

INÍCIO

Nascida em uma fazenda de gado leiteiro em Wisconsin, em 1887, O’Keeffe passou seus anos de formação na Virgínia. Ela se destacou nas aulas de arte do ensino médio e, posteriormente, fez dois anos de treinamento formal em arte em Chicago e Nova York. Quando as finanças da família pioraram, ela procurou emprego como professora de arte, uma das poucas profissões abertas a mulheres com suas habilidades. Em 1916, ela era chefe do departamento de arte de uma nova faculdade de professores em Canyon, Texas, localizada ao sul de Amarillo, onde se apaixonou pela fronteira ocidental e pelas vastas planícies do Panhandle. Seus métodos de ensino progressivo e seus vestidos folgados “reformados” – principalmente branco ou preto – usados com meias grossas e sapatos baixos, eram radicalmente fora de caráter dos trajes femininos tradicionais, gerando curiosidade e fofocas locais.
Durante seus anos de ensino, O’Keeffe entrou em contato com os tratados e a pedagogia de Arthur Wesley Dow, pintor e gravador que descartava a ideia de arte como um meio imitativo e defendia a abstração moderna. Seus ensinamentos levaram O’Keeffe a se concentrar na beleza do padrão e do design, não apenas na arte, mas em todos os aspectos da vida moderna. Ela gostava de resumir a filosofia de Dow como “preencher o espaço de uma maneira bonita”, e isso pode ser tão mundano quanto colocar um carimbo em um envelope ou como alguém que se veste de formas claramente definidas em preto e branco. Tornou-se o princípio impulsionador de sua vida estética.

Abstraction White Rose 1927. Fotos: © 2016 Georgia O’Keeffe Museum/ DACS, London.

Music, Pink and Blue
No. 2, 1918. © Whitney Museum
of American Art /Licensed by
Scala / Art Resource, NY

VARIAÇÕES ABSTRATAS

Em 1915, depois de anos como estudante obediente e artista comercial ambiciosa, O’Keeffe tomou a decisão radical de renunciar a seu treinamento e, como ela dizia, “pensar nas coisas” por si mesma. Purgando seu portfólio de tudo, menos o que ela considerava seus trabalhos melhores e mais originais, iniciou uma extraordinária série de desenhos a carvão, objeto de exposição no Seattle Museum. Como o título sugere, em nº 20 – Da Música – Especial (1915), a inspiração do desenho é a música, uma forma de arte fundamentalmente separada da natureza e da narrativa.
“Quero coisas reais – pessoas vivas para tomar – para ver – e para conversar – Músicas que faça buracos no céu”, escreveu O’Keeffe em 1916. Dois anos depois, ela realizou sua alegre visão nas pinturas Música, Rosa e Azul, Nº 1 e Nº 2 (1918), cujas formas em redemoinho ressoam quase audivelmente enquanto envolvem um vazio azul profundo. O’Keeffe havia se mudado recentemente para Nova York por sugestão do fotógrafo e empresário Alfred Stieglitz. Imersa na energia criativa da cidade, ela foi além dos íntimos desenhos de carvão que estava fazendo e redirecionou seus esforços para o formato mais popular e ambicioso, o óleo sobre tela. Estas foram suas primeiras pinturas a óleo e funcionaram como um ponto de apoio na obra de O’Keeffe, anunciando sua independência como artista, posicionando a abstração no centro de seu trabalho e formando a base visual para as pinturas subsequentes.

Grey Lines with Black, Blue and Yellow, ca. 1923. © 2019. Georgia O’Keeffe Museum / Artists Rights Society (ARS), New York

Black, White and Blue, 1930. © 2019 Georgia O’Keeffe Museum / Artists Rights Society (ARS), New York

Na década de 1920, a abstração de O’Keeffe progrediu para o biomorfismo, a evocação de organismos vivos e forças naturais. Apesar do título neutro de Linhas cinzas com preto, azul e amarelo (1923) e de outras pinturas, os críticos, liderados por Stieglitz, leem qualidades essencialmente femininas nas abstrações de O’Keeffe. Resistente a essas interpretações de gênero, ela respondeu se afastando da abstração nas pinturas que exibia, escrevendo: “Suponho que o motivo pelo qual me esforcei para ser objetiva é que não gostei das interpretações de minhas outras coisas.”
As formas orgânicas e geométricas que frequentemente oscilam nas abstrações de O’Keeffe sugerem o fluxo e refluxo entre o natural e o urbanizado, a paisagem e a cidade – lago George e Manhattan – em torno da qual sua vida foi organizada nas décadas de 1920 e 1930. Com sua sólida vertical azul, a fatia branca que a divide e as curvas negras que a envolvem, Preto, branco e azul (1930) evoca o horizonte de Nova York, a complexidade emocional da cidade e a energia e alienação simultâneas da experiência urbana.

ROMANCE EM NOVA YORK

Em 1918, O’Keeffe deixou o ensino no Texas para se tornar uma artista profissional em Nova York. Alfred Stieglitz, fotógrafo de belas artes e defensor da arte moderna, fez uma oferta irresistível: ele encontraria um lugar para ela morar e a apoiaria se ela fosse a Nova York e pintasse em tempo integral. Na época, O’Keeffe, com 30 anos e solteira, estava desenvolvendo radicalmente sua nova arte abstrata. Stieglitz, 53 anos e infeliz no casamento, reconheceu seu talento excepcional e exibiu suas primeiras abstrações. Ela sabia que contaria com sua experiência considerável no lançamento de artistas em sua galeria de Nova York, a 291, e através de sua revista CameraWork.
Pouco depois de O’Keeffe chegar a Nova York, eles se apaixonaram e Stieglitz se mudou para o modesto apartamento dela. Ele já havia começado o que chamou de “retrato contínuo” dela. Por vinte anos, fez retratos fotográficos formais de sua parceira, um projeto único e ambicioso que, eventualmente, contou com 330 imagens. A partir de 1923, ele organizou exposições e apresentou seu trabalho

quase anualmente, construindo a carreira artística e dando reconhecimento a O’Keeffe, exibindo e publicando suas fotografias. Seus retratos e suas pinturas abstratas lançaram a persona pública de O’Keeffe como uma mulher moderna e audaciosa.
Costureira talentosa, O’Keeffe fez muitas de suas roupas à mão durante esses primeiros anos. Tinha bons olhos para sedas, algodões e lãs de qualidade, e permaneceu fiel à sua paleta de vestidos em tons de branco e preto. Caracteristicamente, suas roupas se voltaram para silhuetas fortes, naturalidade e simplicidade. Orgulhava-se de seu trabalho manual e preservou algumas de suas roupas mais antigas por mais de sessenta anos.
Enquanto O’Keeffe e Stieglitz moravam no apartamento de Manhattan durante o inverno, eles passavam o verão e o outono no lago George, Nova York, onde a família dele tinha propriedades. Lá, ela pintou e modelou para a câmera de Stieglitz usando seu guarda-roupa de verão com vestidos e blusas cor de marfim, saias e blusas pretas.

” Seus retratos e suas pinturas abstratas lançaram a persona pública de O’Keeffe como uma mulher moderna e audaciosa. ”

Alfred Stieglitz, Georgia O’Keeffe, ca.1920–22. Georgia O’Keeffe Museum, Gift of The Georgia O’Keeffe Foundation, 2003.01.006.

© 2016 Georgia O’Keeffe Museum/ DACS, London.
New York Street with Moon,1925

Morning Glory with Black, 1926. © The Georgia O’Keeffe Foundation / Artists Rights Society
(ARS), New York. Foto: © The Cleveland Museum of Art).

Pelvis with the Moon © 2016 Georgia O'Keeffe Museum/ DACS, London.

NOVO MÉXICO

Em 1929, fugindo das movimentadas rotinas de verão no lago George, O’Keeffe viajou de trem para a zona rural do Novo México em busca da solidão e da liberdade que precisava para fazer seu melhor trabalho. Morando em uma casa de argila em Taos, Novo México, ela se sentiu tão emocionada e produtiva que apelidou a região de “meu país”, escrevendo para Stieglitz: “Prefiro vir aqui a qualquer outro lugar que eu conheça”. Nos vinte anos seguintes, quando o clima esquentava, Stieglitz continuou seu padrão de verão com os membros da família no lago George e ela costumava deixar Nova York para pintar no norte do Novo México. Ele nunca se aventurou por lá. Quando ele morreu em 1946, O’Keeffe se mudou permanentemente para o Novo México, onde viveu até a própria morte, quarenta anos depois.
A artista construiu duas casas em uma área remota, a 80 quilômetros de Santa Fé: uma pequena casa de verão em uma fazenda chamada Ghost Ranch, e uma casa maior, com árvores e jardins, na vila vizinha de Abiquiu, onde passava o restante do ano. Ambas eram estruturas de argila que ela modificou, adicionando janelas panorâmicas de meados do século e móveis de design. Usou ossos de animais descoloridos, rochas lisas do rio e tapetes navajo como decoração regional. Influenciada pelas impressionantes terras cromáticas e pela cultura de vaqueiros e fazendeiros, impulsionou a paleta e “relaxou” o guarda-roupa. Em sua arte, inspirou-se nos novos motivos e nas cores arrojadas de sua paisagem adotada – céu azul brilhante, ossos de animais brancos, argila marrom e falésias de pedra rosa e vermelhas.

Black Mesa Landscape, New Mexico / Out Back of Marie’s II, 1930. © 2016 Georgia O’Keeffe
Museum/ DACS, London.

Summer Days, 1936. © 2019 Georgia O’Keeffe Museum / Artists Rights Society (ARS), New York.

ÁSIA

O professor favorito de O’Keeffe, Arthur Wesley Dow, apresentou-a à arte e à cultura do Japão e da China, e ela se tornou uma aluna das tradições orientais por toda a vida. Visitava museus americanos com grandes coleções asiáticas e construiu uma impressionante biblioteca privada que incluía livros sobre arte asiática, caligrafia, jardins, chá e poesia. Após a morte de Stieglitz, viajou para muitos lugares novos, incluindo Japão, China e Índia, visitando jardins, templos e museus nos quais encontrou reforço para a ideia central pela qual viveu: tudo no ambiente de alguém deve ser bonito e unificado em um estilo harmonioso de simplicidade e moderação.
Desde seus primeiros anos, O’Keeffe teve uma queda por quimonos japoneses e montou uma coleção pessoal deles para usar em casa. Nos últimos anos, adotou um vestido tipo quimono como sua roupa mais icônica. Em viagem para Hong Kong, nos anos 1970, comprou roupas e acessórios e encomendou casacos e ternos sob medida em sedas locais, incorporando detalhes como golas verticais e fechos de botões.

Todd Webb, Georgia O’Keeffe on Ghost Ranch Portal, New Mexico, circa 1960s. © Estate of Todd Webb, Portland, ME

Oriental Poppies, 1927 © 2016 Georgia O’Keeffe Museum/ DACS, London.

CELEBRIDADE

A partir da década de 1920, O’Keeffe manteve um número crescente de seguidores entre os amantes da arte, e seu status como uma das primeiras e mais importantes pintoras modernas do país se firmou. A partir da década de 1960, no entanto, ela se tornou uma celebridade nacional, famosa por viver em seu ambiente remoto e por sua pintura. Sua persona intrigante gerava cada vez mais publicidade para suas exposições e a mídia cobria suas casas e seu estilo de vida no Novo México com frequência. Em 1968, a revista Life publicou uma matéria de capa sobre O’Keefe e, uma década depois, a PBS transmitiria amplamente um documentário sobre ela. Nos últimos vinte anos de vida dela, feministas a abraçaram como modelo para as mulheres que queriam carreiras satisfatórias. Os artistas a procuravam em busca de inspiração e conselhos. Uma contracultura jovem admirava seu estilo de vida independente. E fotógrafos profissionais cada vez mais perguntavam se ela posaria para eles.
Para ajudar a lidar com a frequência de visitantes, O’Keeffe criou dois uniformes para usar na câmera: um vestido simples e um terno sob medida. Ela encomendou várias versões desses conceitos básicos, alguns em diferentes materiais e cores, mas principalmente em preto. Como modelo para retratos, ela incorporou dureza, austeridade e individualismo condizentes com alguém que vivia a vida em seus próprios termos. Quando O’Keeffe morreu em 1986, aos 98 anos, ganhou sua reputação de uma original americana, temperada pela idade, em um estado de graça zen.

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