Le duo, 1937 © VG Bild-Kunst, Bonn 2020 ALTO relevo © Foto: Centre Pompidou, MNAM-CCI / Philippe Migeat / Dist. RMN-GPt, Bonn 2020.

DASARTES 103 /

GEORGES BRAQUE

O MUSEU BUCERIUS KUNST FORUM ESTÁ DEDICANDO UMA RETROSPECTIVA A GEORGES BRAQUE, A PRIMEIRA PESQUISA ABRANGENTE DE SUAS PINTURAS NA ALEMANHA EM MAIS DE 30 ANOS. BRAQUE É CONSIDERADO O INICIADOR DO CUBISMO E UM DOS PRINCIPAIS ARTISTAS DO SÉCULO 20. A EXPOSIÇÃO CRONOLOGICAMENTE ORGANIZADA TRAÇA A SURPREENDENTE DIVERSIDADE CRIATIVA DELE: DESDE SEUS PRIMEIROS TRABALHOS […]

O MUSEU BUCERIUS KUNST FORUM ESTÁ DEDICANDO UMA RETROSPECTIVA A GEORGES BRAQUE, A PRIMEIRA PESQUISA ABRANGENTE DE SUAS PINTURAS NA ALEMANHA EM MAIS DE 30 ANOS. BRAQUE É CONSIDERADO O INICIADOR DO CUBISMO E UM DOS PRINCIPAIS ARTISTAS DO SÉCULO 20. A EXPOSIÇÃO CRONOLOGICAMENTE ORGANIZADA TRAÇA A SURPREENDENTE DIVERSIDADE CRIATIVA DELE: DESDE SEUS PRIMEIROS TRABALHOS FAUVISTAS, PASSANDO PELO DESENVOLVIMENTO DO CUBISMO, ATÉ SUA ÚLTIMA SÉRIE QUASE ABSTRATA NO PERÍODO DO PÓS-GUERRA

 

“Monsieur Braque é um homem muito jovem e corajoso. […] [Ele] reduz tudo – paisagens, figuras, casas – a padrões geométricos, a cubos”, comentou o crítico de arte Louis Vauxcelles ao ver a primeira exposição individual de Braque em 1908, considerada a estreia pública do cubismo.

O trabalho de Georges Braque (1882-1963) foi exposto extensivamente na Alemanha, particularmente nos anos 1930 a 1960, com a última grande exposição ocorrendo em 1988. No entanto, enquanto vários museus da Europa homenagearam o artista com grandes mostras, pouco de seu trabalho foi visto no circuito alemão desde o final dos anos 1980. Agora, após um hiato de mais de 30 anos, uma ampla seleção de suas pinturas estará finalmente em exibição na Alemanha, em uma exposição com 80 obras importantes emprestadas, a maioria delas do Centre Pompidou, em Paris. A exposição Dance of Shapes foi organizada cronologicamente em sete capítulos e demonstra como Braque, com toda a sua diversidade, e, apesar das mudanças estilísticas e formais, sempre se manteve fiel à sua linha característica – bem ao contrário de seu colega artista Pablo Picasso, por exemplo.

Le Viaduc de L’Estaque, 1908. © VG Bild-Kunst, Bonn 2020. © Foto: Centre Pompidou, MNAM-CCI / Georges Meguerditchian / Dist. RMN-GP

O primeiro capítulo da exposição aborda os primeiros trabalhos do artista nos anos 1906-1907. As poucas pinturas conhecidas desse período atestam seu entusiasmo pelo fauvismo e relações estreitas com seus protagonistas, principalmente Henri Matisse, André Derain e Maurice de Vlaminck. Braque comentaria mais tarde que era o aspecto físico do fauvismo que mais o atraía na época. Tons claros, pinceladas expressivas e formas criadas por cores puras dominam suas obras desses anos.

Les instruments de Musique, 1908. © VG Bild-Kunst, Bonn 2020.
© Foto: Centre Pompidou, MNAM-CCI / Georges Meguerditchian / Dist. RMN-GP

No segundo capítulo da mostra, traça-se o progresso do cubismo de 1908 a 1914. “Trate a natureza por meio do cilindro, da esfera e do cone”, escreveu Paul Cézanne já em 1904. Nas paisagens, naturezas mortas e nus que Braque pintou a partir de 1908, ele adotou a abordagem geométrica de Cézanne para a forma, bem como sua restrição aos tons de ocre. Braque e Picasso começaram então a colaborar estreitamente em 1909, formando uma “equipe” cubista que duraria até o início da guerra, em 1914. Nas obras que os dois produziram entre 1909 e 1912, eles dividiram seus temas em formas esquemáticas e, em seguida, colocaram várias vistas do objeto representado frontalmente, lado a lado. As características desse cubismo analítico são uma paleta cinza-marrom reduzida e a abertura de formas fechadas. Esse primeiro modo cubista foi seguido pelo cubismo sintético de 1912 a 1914. Em contraste com a aparência quase abstrata das obras da fase anterior, as formas nessas novas pinturas eram mais legíveis, as cores mais vibrantes e a abordagem quase lúdica, desafiando os preceitos da pintura tradicional.

L’homme à la guitare, 1914. © VG Bild-Kunst, Bonn 2020
© Foto: Centre Pompidou, MNAM-CCI /

A Primeira Guerra Mundial trouxe então uma ruptura abrupta no desenvolvimento do cubismo. Muitos artistas modernos pareciam renunciar a abordagens de vanguarda e, em vez disso, passaram a cultivar um estilo neoclássico. Braque teve um papel fundamental nessa tendência, como pode ser visto no terceiro capítulo da mostra. No Paris Salon d’Automne, em 1922, toda uma galeria de exposição foi dedicada ao trabalho dele. Muitos críticos de arte presumiram, ao ver as pinturas em exposição, que refletiam o legado de Camille Corot e do escultor renascentista Jean Goujon, que Braque havia dado as costas de uma vez por todas ao cubismo. O historiador de arte alemão Carl Einstein foi um dos poucos que interpretou o pseudoclassicismo de Braque como uma continuação e um passo adiante em sua trajetória cubista. Em contraste com o cubismo de sua fase anterior, entretanto, as naturezas-mortas de Braque do início dos anos 1920 parecem mais suaves e orgânicas.

Le Guéridon, 1911. © VG Bild-Kunst, Bonn 2020
© Foto: Centre Pompidou, MNAM-CCI /

Outro capítulo da mostra oferece um vislumbre do figurino de Braque e dos designs de palco de meados da década de 1920. Os principais exemplos são os trabalhos dele para o Ballet Salade, de Léonide Massine e Darius Milhaud, que a companhia Les Soirées de Paris apresentou em Paris, em 1924, em eventos de caridade que ela organizou. Os cenários e figurinos de Braque têm uma aparência simples e discreta, exibindo os mesmos tons de cinza e marrom de muitas de suas pinturas.

Les Poissons noirs, (Detail), 1942, © VG Bild-Kunst, Bonn 2020.
© Foto: Centre Pompidou, MNAM-CCI /

Entre 1931 e 1942, Braque criou uma série de naturezas-mortas que remetem ao legado do cubismo sintético. Esses são o foco do quinto capítulo da exposição. As naturezas-mortas desse período têm um desenho ornamental plano. Braque trata os objetos inanimados em suas composições como seres vivos, emprestando-lhes formas decorativas redondas e curvilíneas. Esse biomorfismo pode ser comparado às naturezas mortas contemporâneas de Picasso, mas Braque também traz elementos surrealistas. Ele explora aqui a fusão de objeto e corpo e suas infinitas transformações – a silhueta curva de um violão, por exemplo, ecoa a figura humana: “um copo acaba sendo um bandolim, um violão completa uma garrafa” (Carl Einstein).

À tire d’aile, 1956-1961, Donation Madame Georges Braque, 1965 © VG Bild-Kunst, Bonn 2020 ©
Foto: Centre Pompidou, MNAM-CCI / Bertrand Prévost / Dist. RMN-GP

Quando a Segunda Guerra Mundial estourou, Braque inicialmente ficou na casa e estúdio que ele tinha na Normandia, e depois voltou para Paris com a família em 1940. Passou os anos de ocupação vivendo e trabalhando em condições precárias, retirando-se para uma espécie de “passividade ativa”. As composições sombrias e reduzidas desse período são apresentadas no sexto capítulo da exposição. Braque certa vez observou que os temas recorrentes do crânio, rosário e crucifixo eram apenas um pretexto para a pesquisa formal e não tinham a intenção de evocar as angústias dos tempos de guerra. Mesmo assim, a atmosfera sombria de guerra e ocupação parece permear as pinturas de Braque.

L’Estaque, October/November 1906 © VG Bild-Kunst, Bonn 2020. © Foto: Centre Pompidou,
MNAM-CCI / Georges Meguerditchian / Dist. RMN-GP

O período do pós-guerra trouxe um amplo reconhecimento a Braque. Em 1946, foi agraciado com a Ordem de Mérito da Légion d’honneur da França e, em 1948, com o Grande Prêmio de Pintura da Bienal de Veneza. Uma série de exposições de seu trabalho foi realizada, especialmente na Alemanha, onde a arte dele já foi considerada degenerada durante a era nazista. Em 1961, o Louvre, em Paris, montou uma grande retrospectiva para Braque – a primeira exposição que o museu já dedicou a um artista vivo. No início dos anos 1950, o Louvre já o havia contratado para fazer uma pintura de teto. A imagem mostra silhuetas negras de pássaros flutuando sobre um fundo azul e foi o ponto de partida para uma série de trabalhos com temas de pássaros, que podem ser vistos no último capítulo da exposição. Nessas obras, essas aves são representadas pictograficamente e a concepção de espaço é nova para Braque. Desde a fase cubista, ele pintou quase apenas interiores. Mas agora o tema dos pássaros o estimulou a abrir suas obras ao ar livre: o céu se tornou visível novamente. Braque se dedicou assim nos últimos anos de vida a uma série de paisagens, adotando um formato horizontal raro em sua obra e aplicando tinta em camadas de empastamento. A paisagem crepuscular de The Weeding Machine – muitas vezes comparada ao Wheat Field with Ravens, de Vincent van Gogh – é considerada a última pintura que Braque fez antes de morrer, em 31 de agosto de 1963.

The Weeding Machine, 1961-63. © Foto: Centre Pompidou, MNAM-CCI /Bertrand Prévost / Dist. RMN-GP

GEORGES BRAQUE: DANCE OF SHAPES • BUCERIUS KUNST FORUM
• ALEMANHA • 10/10/20 A 30/4/21

Kathrin Baumstark é curadora e diretora artística
de cinema e audiovisual do Bucerius Kunst Forum.

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