DASARTES 98 /

FRANK WALTER

A OBRA DO ARTISTA CARIBENHO FRANK WALTER PARECE ESTAR EM OPOSIÇÃO ÀS ATRIBUIÇÕES RACIAIS E NACIONAIS PERMANENTES ÀS QUAIS ELE FOI EXPOSTO AO LONGO DE SUA VIDA. SUAS PINTURAS SÃO RADIANTES, SEUS TRABALHOS ABSTRATOS SÃO SISTEMÁTICOS, SUA PINTURA FIGURATIVA CATIVA SUA INDIVIDUALIDADE E SUAS PAISAGENS SE TORNAM ABSTRAÇÕES CLARAS. TÍMIDO E RESERVADO, FRANK SE TORNOU UM RECLUSO NA VIDA ADULTA, PARA SE DEDICAR À BUSCA DA ARTE

“Nossa coroa já foi comprada e paga. Tudo o que precisamos fazer é usá-la.”
James Baldwin, em uma conversa na televisão, 28 de agosto de 1963, Washington, DC

“Nós fizemos vocês bastardos ricos.”
Jamaica Kincaid, Um lugar pequeno, 1988

Não existe um Frank Walter típico. Seu espectro pictórico é livre e amplo. O olhar dele é somente dele. Todo o trabalho é de excepcional clareza e franqueza. A concentração, que também pode ser atribuída ao tamanho das obras, abre uma abordagem desobstruída. Por mais variados que sejam os tópicos de Frank Walter, seus materiais são ainda mais diferentes. Criou obras sobre madeira, masonita, papelão, papel, linóleo ou no verso das fotografias, pintou e desenhou com tintas a óleo, têmpera, aquarelas, giz de cera e lápis, goma-laca e glitter. Se ele não pintou, então ele escreveu, se ele não escreveu, ele gravou sons. Walter criou com uma intensidade incrível, que também é visível e palpável em seu trabalho. Ele era livre apenas na arte. Livre da brutalidade que estava nas atribuições do normativo e permanentemente presente fora de sua arte. O ato subversivo associado foi a única maneira de Frank Walter reivindicar viver sua própria vida, autodeterminada e autodefinida.

Sem título, sem data. Fotos: Axel Schneider

Nascido em Antígua, em 1926, como descendente de escravos e proprietários de plantações, ele recebeu uma educação escolar influenciada pela ocupação colonial britânica e se tornou o primeiro negro administrador de plantações em Antígua, em 1948. Constantemente se esforçando para melhorar as condições de trabalho, viajou para a Inglaterra, em 1953, para expandir seu conhecimento em agricultura. Quando chegou a Londres, não foi aceito pelo ramo de sua família lá. Diante do racismo onipresente, não conseguiu se inserir na sociedade. Sobreviveu como diarista; fome e frio, assim como ataques racistas e as alucinações que causaram, moldaram sua vida cotidiana. De 1957 a 1959, viajou para a Alemanha Ocidental várias vezes para explorar sua história familiar. Entre outras coisas, trabalhou para Mannesmann, em Gelsenkirchen, e aprendeu alemão. Em 1961, retornou ao Caribe, primeiro a Dominica, onde a maioria de suas esculturas foram criadas, e depois a Antígua, em 1967. De 1975 a 1984, trabalhou como fotógrafo, depois se mudou para uma montanha remota fora da cidade de Liberta e construiu uma casa com um estúdio, onde viveu e trabalhou até sua morte, em 2009.

Sem título.

Sem título.

Buscando se ver como um tema para sua arte, Frank Walter sabia muito bem que sua própria identidade era composta de pessoas diferentes. Seus numerosos autorretratos e fotografias de costas atestam isso e sua distância do Eu retratado é evidente nos autorretratos como branco.
Em uma sociedade baseada na definição do homem branco europeu, parecia quase impossível para ele ter sua própria identidade negra. Frantz Fanon escreveu na época: “Há apenas um destino para o homem negro. E é branco.”
Como mostram os autorretratos de costas, o artista preferia passar seu tempo longe das pessoas e da natureza. Suas pinturas de paisagens testemunham observações muito precisas, mas também a capacidade de condensar a respectiva atmosfera através da abstração. Eles não têm nada em comum com a pitoresca pintura de paisagem comum no Caribe, evocada pelo turismo. Em contraste com o kitsch idealizado de palmeiras e praia, Walter estudou a paisagem em detalhes, uma paisagem em que a história colonial estava profundamente inscrita e que, como Édouard Glissant coloca, é seu próprio monumento.

Psycho Geometrics, sem data. Foto: Axel Schneider

Enquanto muitos residentes e turistas em Antígua conheciam os pequenos desenhos fotocopiados e coloridos que Frank Walter vendia em sua loja de fotografias, seu extenso trabalho artístico era pouco visto. Fez várias tentativas para exibir seu trabalho na Grã-Bretanha ou na Alemanha, buscou por meio de cartas parceiros para fundar sua própria galeria e montar uma exposição completa, que ele guardou em caixas prontas para serem despachadas. Durante sua vida, no entanto, seu trabalho nunca foi exibido, ele próprio não pôde entender como as pessoas o veriam.

Sem título, sem data. Fotos: Axel Schneider

VIDA E OBRA

Frank Walter (Francis Archibald Wentworth Walter) nasceu em 11 de setembro de 1926, em Liberta, Antígua, uma ilha nas Pequenas Antilhas no Caribe. Antígua foi colonizada pela Marinha Britânica em 1632 e formalmente anexada como colônia britânica em 1667.
O açúcar sucedeu o tabaco como principal produto e as plantações, baseadas na exploração e escravidão, tornaram-se o ramo mais importante da economia. Em 1860, Antígua foi fundida com a ilha vizinha de Barbuda.
Aos 22 anos, tornou-se gerente do Sindicato do Açúcar da Antígua. Foi o primeiro negro a alcançar uma posição de liderança na indústria açucareira do país. Os métodos modernos de cultivo e processamento por ele defendidos, bem como seus esforços para reduzir a exploração social e a desigualdade racial, deram-lhe reconhecimento social. Apesar de ter sido selecionado para se tornar líder do Sindicato, Walter optou por fazer uma viagem de treinamento à Europa, onde pretendia passar dez anos. Além de aprofundar seus conhecimentos e buscar soluções que melhorassem as condições em seu país, também buscava explorar a história de sua família, que contava com raízes em Markgröningen, na Alemanha. Durante toda a sua vida, a história da família continuou sendo objeto de extensa pesquisa genealógica.

Sem título, sem data. Foto: Axel Schneider.

Em 1953, Frank Walter viajou com a prima Eileen Gallwey para a Inglaterra, via França e Itália. Na chegada, seu tio Carl Walter, que morava em Londres, desaprovou a conexão entre os dois. Em virtude do racismo, que era virulento na Europa, ele vê Frank Walter como um obstáculo à carreira de Eileen. Rejeitado pelo braço inglês da família, teve dificuldade em se inserir na sociedade e sobreviveu de pequenos trabalhos braçais. Viveu em constante mudança de cidade, emprego e acomodações. Apesar das duras condições, conseguiu realizar estudos científicos e tecnológicos em várias faculdades de Stoke-on-Trent, onde também frequentava as bibliotecas públicas. Durante esse período, criou textos filosóficos, obras literárias, uma história de Antígua, poemas e desenhos e pinturas.

Tambourine and harp, sem data. Foto: Axel Schneider

De 1957 a 1959, Walter viveu na Alemanha Ocidental e, em sua volta à Colônia e Düsseldorf, relatou alucinações, que o levaram a algumas estadias em clínicas psiquiátricas. Ao longo de toda sua vida na Europa, foi exposto a ataques racistas que, junto com sua situação econômica precária, o levaram a voltar a Antígua, em 1961.
Em 1961, retornou ao Caribe, primeiro a Dominica, onde a maioria de suas esculturas foram criadas, e depois a Antígua, em 1967. De 1975 a 1984, trabalhou como fotógrafo, mas a vida na cidade não combinava com sua natureza introspectiva. Finalmente, mudou-se para uma montanha, onde viveu e trabalhou até sua morte, em 2009.
Frank Walter deixou cerca de cinco mil pinturas e 600 esculturas em madeira, inúmeros brinquedos de madeira feitos à mão, molduras e fotos pintadas, além de mais de 50 mil páginas de prosa e poesia, peças de teatro, textos sobre história, filosofia, ciência política, genealogia e arte, além de mais de 450 horas de gravação em fitas.

Self-portrait, sem data. Foto: Axel Schneider.

FRANK WALTER: A RETROSPECTIVE • MUSEUM FÜR MODERN KUNST – MMK •
FRANKFURT • 16/5 A 15/11/2020

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