Francisco Nuk. Foto: Gustavo Andrade

DASARTES 127 /

FRANCISCO NUK

CONVIDAMOS O ARTISTA FRANCISCO NUK PARA NOS CONTAR OS SEGREDOS E CURIOSIDADES POR TRÁS DE SUAS FANTÁSTICAS ESCULTURAS COM TOQUE DE SURREALISMO. A FORMA NÃO CUMPRE A FUNÇÃO É A NOVA EXPOSIÇÃO ITINERANTE PELO CCBB EM QUE O ESCULTOR MINEIRO APRESENTA OBRAS QUE DESAFIAM AS FORMAS CONVENCIONAIS DE MÓVEIS FEITOS DE MADEIRA COM CURVAS INUSITADAS

© Francisco Nuk. Foto: Ana Pigosso

Meu trabalho surge de um rompimento com o ofício tradicional da marcenaria. Cresci dentro de uma oficina, no ateliê de meu pai, Sérgio Machado, e, durante toda minha infância e adolescência, fui estimulado pelas diversas áreas das artes visuais. Na fase adulta, procurando meus próprios caminhos, cruzei com a marcenaria e me apaixonei profundamente por ela. Comecei a estudar o ofício por conta própria e eventualmente arrumei um emprego em uma oficina, possibilitando uma maior experiência e tutela. O trabalho formal possibilitava um enorme convívio com o material, mas era no ateliê que conseguia fazer todos os experimentos com a madeira. A marcenaria é um ofício muito amplo com inúmeras técnicas e formas distintas de chegar a um resultado e a minha sina era aprender todas elas.

Por cerca de quatro anos, trabalhei e estudei esse ofício ao ponto que me tocou um limite. Embora já estivesse produzindo algumas esculturas, toda essa pesquisa voltava predominantemente a uma marcenaria tradicional, na realização de mesas, cadeiras, bancadas… e isso já não me satisfazia mais. Parecia que chegava ao máximo que poderia fazer e experimentar, e, se eu continuasse nesse ofício, estaria fadado a construir coisas que sempre deveriam ter medidas padronizadas, ergonomicamente confortáveis com finalidades definidas. Esse pensamento produzia um forte incômodo interno e foi assim que surgiu a ideia dessa série que trabalha o mobiliário tradicional, mais especificamente os que exercem a função de guardar, conservar, como armários, gaveteiros e cristaleiras.

 

SEM TÍTULO

Sem título. © Francisco Nuk. Foto: Gustavo Andrade.

Essa foi a primeira obra dessa série. A ideia no papel consistia em entortar um gaveteiro que tem uma memória afetiva próxima de minha infância. Transformar um móvel em uma escultura era o objetivo principal. O primeiro projeto de execução não tinha a possibilidade de abrir e fechar as gavetas, já era um desafio enorme construir um gaveteiro torto por si só, fazer cada gaveta abrir e fechar seria algo quase impossível. Uma gaveta precisa de esquadro, de uma engenharia interna que permite um abrir e fechar fluido. Também não era do meu agrado ter esse elemento na obra. Havia paz até então, mas a solução para essa engenharia das gavetas surgiu um dia, e, mesmo se não quisesse que abrissem, não existia mais essa opção.

© Francisco Nuk. Foto: Ana Pigosso

Isso causou uma grande confusão no que seria a ideia inicial do trabalho, afinal, o que era aquilo, um móvel ou uma escultura? Foi a partir desse incômodo que a pesquisa tomou um rumo inesperado.

 

TRONCO

Tronco. Foto: © Francisco Nuk

Essa obra é uma ode ao principal material de meu trabalho, a madeira.

Quando eu tinha cinco anos, meus pais se mudaram para uma casa na região central de Belo Horizonte, o Bonfim. Esse bairro surgiu antes mesmo que a cidade, pois era lá o reduto dos operários que construíram a cidade. Um lugar que, embora muito rico em conhecimento dos seus mestres de ofícios, era também muita cinza de suas edificações.

Antes mesmo d’eu nascer, meus pais já tinham se instalado por lá e construído um ateliê junto com outros colegas artistas da Escola Guignard. Em seguida, compraram uma casa na mesma rua, reformaram, e se mudaram. Para trazer mais vida e cor para aquele lugar, decidiram plantar diversas árvores, todas da mesma espécie: acácia rosa. Fiz parte desse ritual de plantio que tenho recordações até hoje.

As mudas cresceram, transformaram-se em grandes árvores, começaram a florir e, assim, a incomodar os vizinhos. As raízes de uma estavam abalando a construção da rampa da garagem de um, as flores “sujavam” muito o pátio do outro, o vizinho da esquina dizia que era perigosa demais nas épocas de chuva… de pouco em pouco, foram cortando uma por uma.

Esse tronco foi “roubado” da última acácia cortada da rua. Da árvore que ajudei a plantar e que vi crescer.

A madeira é um material que carrego como sagrado. Principal fonte de meu trabalho e também uma grande paixão. Observar os desenhos de seus veios, sua cor, seu cheiro, é algo que me traz enorme prazer. Eu poderia ser ousado o bastante e dizer que cada pedaço de madeira seria uma obra de arte.

 

SEM TÍTULO

© Francisco Nuk.
Foto: Gustavo Andrade

© Francisco Nuk. Foto: Gustavo Andrade

Sem título. Fotos: © Francisco Nu

Seguindo a pesquisa dos armários, fui entortando, curvando, desafiando cada vez mais esses objetos.

Costumo dizer que o surrealismo surgiu por acidente em minha obra. No âmbito de tentar chegar à inutilidade, fui explorando essas formas de diversas maneiras. Do que serve uma gaveta se ela está na vertical ou de cabeça para baixo? Do que serve uma gaveta se não conseguimos alcançá-la?

Essa obra foi a primeira de grande escala que produzi. Seu feitio foi um baita desafio, pois precisava ser construído em módulos. Todas as conexões e a sustentação de cada módulo, assim como ela completa, foram temas de muito estudo.

Quando pensei nessa obra, não detinha recursos suficientes para realizá-la. Então levei toda a pesquisa para uma colecionadora, com quem tenho muito contato, apresentei todos os desenhos, maquetes e estudos de como seria a produção. Ao final, ela topou entrar nessa empreitada e participar do desafio, que, por fim, deu certo e a obra se fez exatamente como previsto nos estudos. Essa obra foi muito importante para a construção das próximas peças e a idealização de futuras exposições como a do CCBB, por exemplo. A partir dela, abriu-se uma janela de infinitas possibilidades de novas formas.

© Francisco Nuk. Foto: Gustavo Andrade

 

INSTALAÇÃO DE GAVETAS

Instalação de gavetas. Foto: © Francisco Nuk

Essa instalação consiste em 150 gavetas penduradas em fios de nylon em colunas variadas.

Durante a pesquisa deste trabalho, questionando a interdependência das utilidades, comecei a prestar maior atenção nesse elemento da gaveta, e como surge de uma forma intrigante. Um gaveteiro é criado para conservar o que encontramos de precioso no mundo, o que identificamos como importante e necessário. Ele também evidencia nossa constante necessidade de acúmulo, trazendo profundos questionamentos sobre o tema.

Uma gaveta só existe a partir da influência de um segundo ser. Alguém puxa, ela abre, e, por um momento, se mostra ao mundo, suas preciosidades, suas vulnerabilidades, mas em seguida alguém a empurra e ela se fecha, na escuridão, guardada, a salvo e protegendo o que carrega.

Nessa instalação, reflito sobre o papel desse elemento e as analogias que ele pode ter, ao mesmo tempo tentando buscar um lugar de transgressão, pois uma gaveta fora de um armário continua sendo uma gaveta? Eu, fora de certo ambiente, continuo sendo quem sou?

 

CRISTALEIRAS EM DOMINÓ

Cristaleiras em dominó. Foto: © Francisco Nuk.

© Francisco Nuk. Foto: Gustavo Andrade

Durante a realização desse trabalho, questionei muito o tema de como as utilidades são definidas pelo sistema de sociedade em que vivemos. Como as utilidades possuem status e como isso cresce em estruturas de poder, embora todas elas sejam dependentes entre si, tornando-se necessárias em todas as escalas.

Nessa obra, busquei representar essa conexão entre utilidades e suas fragilidades. Como o desmoronamento de um corpo influencia no próximo, como eles se estruturam, equilibram-se, e o sonho do que seria se tudo fosse ao chão, para que assim houvesse a criação de um novo ser.

FRANCISCO NUK: A FORMA NÃO CUMPRE A
FUNÇÃO • CCBB BELO HORIZONTE •
14/12/2022 A 13/2/2023

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