Paul Signac, Opus 217. Sur l'émail d'un fond rythmique des mesures et d'angles, de tons et des teintes, portrait de M. Félix. © Digital image, MoMA, New York/Scala, Florence

DASARTES 99 /

Félix Fénéon

ANARQUISTA, CRÍTICO DE ARTE, EDITOR, DIRETOR DE GALERIA, COLECIONADOR, FÉLIX FÉNÉON FOI UMA FIGURA IMPORTANTE NO MUNDO ARTÍSTICO DO FINAL DO SÉCULO 19 E INÍCIO DO SÉCULO 20. COMO UMA PERSONALIDADE MULTIFACETADA, DESDOBRA UMA ENERGIA CONSIDERÁVEL EM MUITAS ÁREAS ENQUANTO CULTIVA UM CERTO MISTÉRIO SOBRE SI MESMO

Félix Vallotton, Félix Fénéon à La Revue Blanche, 1896. © akg-images / Erich Lessing

Nunca é demais reforçar: no mundo da arte, nem tudo é sobre o artista. De fato, a arte moderna parece tê-lo alçado a um lugar sagrado. Vieram estereótipos de solitários, perturbados, egocêntricos e estrelas, semideuses. Mas você já se perguntou quem estava nos bastidores? Quem era o galerista predileto de Matisse, por exemplo? As duas perguntas conduzem a Félix Fénéon. Provavelmente, você ainda não o conhece, mas, não fosse por ele, não haveria tantas obras de Paul Signac, Pierre Bonnard, Matisse e Modigliani expostas nas paredes dos museus. Você também não teria lido da mesma forma Rimbaud, Proust, Apollinaire, Jane Austen, Dostoiévski e James Joyce.

Félix Fénéon foi um agitador da arte e da literatura no burburinho da vanguarda da belle époque em Paris. É possível se perder na extensão de sua biografia, com grande chance de pecar pelo esquecimento: anarquista convicto, foi editor, crítico de arte, jornalista, galerista e colecionador. Simplifico: Fénéon era, sobretudo, um apaixonado por arte. É Signac o responsável pelo retrato do amigo, de 1980, que agora é a peça central da exposição “O Anarquista e a Vanguarda – de Signac a Matisse e Além”, no MOMA, em Nova Iorque.

Paul Signac, Opus 217. Sur l’émail d’un fond rythmique des mesures et d’angles, de tons et des teintes, portrait de M. Félix. © Digital image, MoMA, New York/Scala, Florence

Na imagem, o homem de cavanhaque inusitado, magro, alto e vestido cuidadosamente surge diante de um turbilhão de cores que se movimentam. Com uma atitude misteriosa e um quê de mágico, ele segura o chapéu com uma das mãos, enquanto, na outra, generoso, estende uma flor. A estética é tão enigmática quanto a trajetória daquele que segue fazendo o capitalismo se render a um espirituoso francês anarquista: uma história curiosa que envolve bombas, twitter e arte moderna.

Fénéon nasceu em Turim, na Itália, mas, aos 20 anos, se mudou para Paris, para trabalhar no Ministério de Guerra. Complexo, levava uma vida dupla: um funcionário burocrata exemplar que contribuía em segredo para revistas e periódicos anarquistas. Desconfiados das instituições estatais, Fénéon e seus pares intelectuais ferviam os círculos anticapitalistas franceses do final do século 19. Em 1894, uma bomba explodiu na janela do restaurante do Hotel Foyot, frequentado por figurões diplomatas e políticos, logo em frente ao Senado francês.

Após a polícia encontrar detonadores de mercúrio no armário do seu escritório, Fénéon foi preso. O que se segue é um grande espetáculo processual. Ele e outros 29 anarquistas suspeitos acabaram envolvidos em um julgamento sensacionalista conhecido como “Julgamento dos Trinta”. A postura audaciosa e irreverente logo fez de Fénéon a estrela do tribunal. Arrancou risos do júri e da plateia e irritou promotores e juízes. Sobre a acusação de ter sido visto conversando com outro réu atrás de uma lâmpada a gás, retrucou: “mas qual lado de uma lâmpada é o lado de trás?”.

Fénéon acabou absolvido, mas o episódio, obviamente, custou-lhe o emprego no Ministério. Passou a se dedicar exclusivamente aos mais importantes veículos da vida cultural francesa da época: dirigiu a Reuve Banche, onde publicou, traduziu e editou textos de inúmeros nomes da literatura mundial, foi repórter do Le Figaro e, por fim, em 1906, redator do jornal Le Matin. Estava certo o poeta Stéphane Mallarmé quando disse, sobre o atentado: “Para Fénéon, não há detonadores melhores do que seus artigos”. E foi no Le Matin que ele explodiu suas implacáveis bombas literárias. Caneta afiada em punho, publicava diariamente minicríticas cortantes da sociedade parisiense pretensamente democrática. Eram curtas histórias de acontecimentos cotidianos que escondiam o imenso mal-estar da Paris da época.

Na seção, intitulada “faits divers”, Fénéon fazia malabarismos para que as suas narrativas irônicas, ácidas e, por vezes, cruéis, coubessem nos restritos 135 caracteres do layout de uma parte pouco prestigiada do jornal. Em três linhas de 45 caracteres cada uma, dizia apenas o suficiente: “Se o meu candidato perder, eu me mato, havia declarado o Sr. Bellavoine, de Fresquienne (Sena-Inferior). Ele se matou”. Aqui uma pausa: isso não soa familiar?

Campeão indiscutível da comunicação veloz, direta e bem-humorada, não há como negar que Fénéon seria, hoje, um fenômeno de likes na internet. Isso explica a quantidade de críticas especializadas que lhe destinam a alcunha de precursor do Twitter, mais de cem anos antes da invenção da rede social. Ele publicou mais de 1.200 pílulas literárias desse tipo, que no Brasil foram reunidas no livro Notícias em 3 linhas, publicado pela editora Rocco.
Aos 45, Féneon se dedicou à galeria de arte Bernheim-Jeune como diretor artístico. Como colecionador e revendedor, voltou-se para o mundo comercial da arte e foiassim que, suportando os artistas em que acreditava, deixou uma marca duradoura no desenvolvimento da arte moderna, de impacto supreendentemente atual. Enquanto todos zombavam da geração de vanguarda que sucedeu os impressionistas, Fénéon os incentivou, promoveu suas ideias e exibiu seus trabalhos. Nunca se deixou intimidar ou constranger pela opinião do público, nem mesmo quando foi pessoalmente criticado pela aparente contradição entre o comercialismo e suas fortes convicções políticas. Estava seguro de suas apostas na arte como um poderoso veículo para uma sociedade mais justa e livre.

Não que de longe isso seja o ponto mais importante de sua biografia – e até incomoda a excessiva importância que se dá ao fato –, mas foi Fénéon, inclusive, quem cunhou o termo “neoimpressionistas” para descrever a técnica dos amigos pintores que estavam utilizando pontos de cor pura para criar o resultado na tela. Aficionado pelo processo criativo científico do pontilhismo, tinha pelo menos 50 pinturas e 180 desenhos de Georges Seurat. Com o olhar apurado, trabalhou para as tendências artísticas que ele acreditava que seriam importantes, muito antes de realmente serem. Foi ele que conseguiu o primeiro contrato de Matisse, até então um desconhecido pintando com uma vívida paleta de cores, e promoveu a primeira exposição que fez os futuristas italianos estourarem, em 1912.

Georges Seurat, Un dimanche après-midi sur l’île de la Grande Jatte, Etude, 1884
© The Metropolitan Museum of Art, Dist. RMN-Grand Palais / image of the MMA

Henri Matisse, Intérieur à la fillette (La Lecture), 1905-1906
New York, The Museum of Modern Art, don de Mr. and Mrs. David
Rockefeller, 1991. Foto © Paige Knight © Succession H. Matisse

Como se não bastasse, Fénéon foi um pioneiro colecionador de arte não ocidental e acumulou umas das maiores e mais importantes coleções europeias de arte africana e oceânica da primeira metade do século 20. Mais do que isso, desprezava os condicionamentos discriminatórios do sistema da arte, recusando-se a utilizar termos como arte “primitiva”, por exemplo. Um objeto que, para a sociedade da época, era apenas uma curiosidade selvagem e exótica, associada necessariamente ao desprovimento de saber, tinha, para ele, o mesmo valor artístico que o de qualquer outra obra de sua coleção. Certa feita, por ocasião da publicação de uma pesquisa em 1920, indagou: “A arte de lugares remotos será admitida no Louvre?”.

Por meio da seleção de mais de 130 trabalhos, entre desenhos, pinturas e esculturas que pertenceram à sua vasta coleção, o MOMA pretende levar Fénéon ao conhecimento do público e festejar a rica personalidade de um homem visionário, à frente do seu tempo. Destaque para Study for “A Sunday on La Grande Jatte”, de 1884, de Georges Seurat; “In the Time of Harmony: the Golden Age has not passed, it is still to come (reprise)”, 1896, de Paul Signac, a alegoria de uma sociedade utópica e harmônica; “Interior with a Young Girl (Girl Reading)”, 1905-06, de Henri Matisse; “Félix Fénéon at La Reuve Blanche”, 1896, de Félix Vallotton; e, ainda, além de um retrato de quando foi preso, em 1984, de Alphonse Bertillon, uma escultura do Congo utilizada em rituais de cura, cravada com inúmeros pedaços de metal. Enquanto as portas do museu permanecem fechadas, isso basta como garantia de que vale a visita online.

Último fato sobre Félix Fénéon: ele detestava holofotes. Nunca permitiu a publicação dos seus ensaios, usava pseudônimos e se esforçou seriamente para não deixar rastros de uma vida fascinante. “Aspiro apenas ao silêncio”, disse certa vez. Ele, se aqui estivesse, estaria incomodado com a quantidade de palavras dedicadas a jogar luz à sua história. E, nesse ponto, Fénéon, minhas gentis desculpas, mas o seu enorme legado não é passível de compressão em 135 caracteres.

Iasmine Souza Encarnação
Novais é Procuradora do
Município de São Paulo,
entusiasta da história da arte e
autora do perfil @minutodearte.

FÉLIX FÉNÉON: THE ANARQUIST
AND THE AVANT-GARDE • MOMA •
NOVA YORK • ONLINE

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