“Esses trabalhos compreendem a música brasileira e, mais especificamente, o samba, como um saber ancestral disseminado pelo mundo. Recorro a essas canções como dados culturais compartilhados por nós. É uma maneira de evocar sentimentos profundos com frases curtas, uma latência para cantarmos mentalmente e despertarmos as narrativas transformadoras dessas canções.”
Felippe Moraes, 2021
Felippe Moraes é um polímata: artista, pesquisador, curador, cenógrafo, autor… Ele também pertence a essa família carioca apaixonada por um Rio de Janeiro de mil sons. Um estandarte em seu ateliê em São Paulo, exposto em sua janela e claramente legível da rua, é um letreiro vermelho de neon que diz “Quero viver no Carnaval”, em uma série que ele chama de Samba exaltação, inventada durante a pandemia (presente nessa exposiçao). É o espírito de um artista muito focado no público, que ele quer ver participar e gosta de imergir em suas obras. Não é surpresa, portanto, que ele retorne a Solfejo, na Caixa Cultural de Curitiba, a quarta versão de uma exposição que ele criou pela primeira vez em 2019, na FIESP.
Em termos filosóficos, a teoria musical, que vem da palavra italiana Solfeggio, Solfejo é um derivado do nome de duas notas musicais, Sol e Fá. Foi inventada por um monge beneditino italiano do século 11, Guido d’Arezzo. Pode ser vista como um sistema simbólico que estrutura e organiza a percepção e a compreensão do mundo sonoro. Representa uma linguagem universal para a música, permitindo a leitura, a escrita e a interpretação de partituras. Além de sua função técnica, a teoria musical pode ser vista como um método para desenvolver a “consciência sonora” e uma apreciação mais profunda da música. É essa experiência da consciência sonora que Felippe propõe na sua exposição.

NÃO DEIXE O SAMBA MORRER, 2021. Vista da exposição Solfejo, Caixa Cultural Curitiba, 2025. Foto: Rodolfo Viana. © Felippe Moraes.
Essa nova exposição polifônica parece se pensar e se organizar com uma ordem muito precisa e determinada. Trata-se de uma introdução para fazer entrar o público em um mundo complexo, por vezes interativo, no qual o pensar será muito solicitado, e onde o público estará sujeito a devaneios profundos.
Nessa exposição, todas as obras respondem umas às outras em um contexto de arte total, de relação com o corpo, de aleatoriedade, de referências diversas dialogando físicamente e mentalmente. O artista nos convida a cantar junto com as imagens, com seus gestos e pensamentos. Letreiros de neon, fotografias de desenhos sonoros (cada uma com título da sua frequência de 97 até 1228 hertz), instalações…
Felippe interpela seu público sem parar com suas exclamações textuais, “Atenção para o refrão” logo na entrada da exposição, “Não deixa o Samba morrer”, “Canta Forte/ Alto” (esse último, tinha, entre 2021 e 2024, uma versão na fachada da biblioteca Mario de Andrade, de São Paulo. cantando a música do Martinho da Vila) … Esse tipo de textos-luz, meio imprescindível da arte contemporânea, criado pelo químico francês Georges Claude (1870-1960), que transformou a imagem de nossas cidades, imiscuiu-se na arte, para enriquecê-la e questioná-la. Os artistas jogaram com as especificidades desse meio para abrir o campo do visual, para criar emoções e provocar a reflexão dos espectadores. Os artistas escolheram a figuração ou a linguagem, um pouco como na história humana da cultura: das cavernas de Lascaux aos hieróglifos. Felippe, por sua vez, utiliza suas neons-mensagens para dialogar com seu público no caminho de cada pedaço da sua exposição, como um eco que o convida a avançar para descobrir mais de suas propostas e entender, com essa série, como o samba – um gênero musical brasileiro que se originou entre as comunidades afro-brasileiras urbanas do Rio de Janeiro no início do século 20 – é um modo de viver. Também, Felippe escolheu neons para criar as constelações de Solaris Discotecum (2023).
A obra é um modelo imersivo do universo, com um grandioso globo espelhado ao centro, girando lentamente em meio às 12 constelações do zodíaco. Uma maneira para o artista nos lembrar de como somos pequenos em relação ao universo. Mas, além de tudo, Felippe quer convidar sutilmente, na dança de sua exposição, o pensamento do famoso astrônomo alemão Johannes Kepler (1571-1630) e sua hipótese heliocêntrica. Ele afirmou que a Terra gira em torno do Sol, sobretudo para mostrar que os planetas não giram em torno do Sol seguindo trajetórias circulares perfeitas, mas trajetórias elípticas. Em sua exposição, Felippe utiliza o pensamento da elipse, ou seja, a complexidade de suas proposições artísticas força o público a responder nas omissões (impossível colocar textos nas paredes para explicar toda a complexidade do pensamento do artista) para chegar ao essencial e ao choque estético da sua obra. Sobretudo, o artista quer então deixar o observador adivinhar as complexidades dos universos que ele descreve em seu Solfejo.
Essa obra dialoga com o filme Harmonices mundi (2017), outra referência a Kepler e seu livro epônimo. Nessa obra, publicada em 1619, o astrônomo expressa, em termos musicais, suas convicções a respeito das conexões entre o físico e o espiritual. Para ele, o universo é uma imagem de Deus; a harmonia da música reflete a do universo e de seu criador.
Toda a exposição Solfejo, de Felippe Moraes, é platônica. A música permeia toda a obra de Platão. Ela está em toda parte e contribui para a construção do projeto de uma nova cidade. A República desempenha esse papel em particular: a história de Atenas perpassa constantemente os diálogos, nos quais o projeto de uma cidade perfeita é apresentado em resposta à turbulência política. A cidade ideal é a personificação da harmonia, como aquela encontrada na natureza. Platão acredita que a música tem influência sobre a alma. Mas essa influência é estritamente dicotômica: boa ou má. Seu grande poder sobre a alma humana advém da conexão que os estudiosos gregos estabeleceram entre música e astronomia. Com base na teoria dos números de Pitágoras, a música era governada pela matemática, assim como as esferas celestes. É disso que Felippe fala em sua exposição. Assim, as mesmas proporções aritméticas são encontradas na música e na natureza, conferindo à música certo poder sobre a alma, a ponto de os movimentos das estrelas serem considerados perfeitos. Para Felippe, assim como para Platão, a música deve, necessariamente, estar associada à fala (lógos), e, nesse caso, à fala poética. Quando a música serve à fala poética, ela desperta interesse. Ela então se aproxima do lógos, que é a arma da filosofia. Os filósofos iniciam os homens nas Ideias.
Canto e encanto: para Felippe, a vida e a morte são muitas próximas. A música pode reencantar o mundo, é um convite a transformar a vida. O artista se interessa no canto que acontece mentalmente e ativa nossas memórias de músicas que nos ligam ao melhor das nossas vidas. Ele oferece o seu Solfejo para nos encorajarmos a reinventar as nossas próprias harmonias. Um convite à sobrevivência!
FELIPPE MORAES: SOLFEJO • CAIXA CULTURAL •
CURITIBA • 15/7 A 21/7/2025
Marc Pottier é francês, radicado entre o Brasil e a França, é curador internacional de arte contemporânea, especializado em arte em espaços públicos. Ele também está envolvido com plataformas digitais culturais, televisão e webtv. Hoje é curador da Usina de Arte, um parque de esculturas perto de Recife, pertence ao Núcleo Curatorial do MON (Museu Oscar Niemeyer) em Curitiba e é o coordenador internacional para a elaboração do projeto de futuro Museu de Arte Contemporânea de Foz do Iguaçu, com o coaching do Centre Pompidou.













