Solaris Discotecum, 2025. Foto: Rodolfo Viana. © Felippe Moraes.

DASARTES 154 /

FELIPPE MORAES

DE UMA PISTA DE DANÇA CÓSMICA AO TRIBUTO AO SAMBA, FELIPPE MORAES NOS FAZ REFLETIR, DANÇAR E ESCUTAR O UNIVERSO EM NOVAS FREQUÊNCIAS. O ARTISTA CONVIDA O PÚBLICO A MERGULHAR EM UMA EXPERIÊNCIA SENSORIAL QUE CRUZA ESPIRITUALIDADE, FÍSICA, MÚSICA E ARTE CONTEMPORÂNEA. INSTALAÇÕES INTERATIVAS, LUZES DE NÉON E FOTOGRAFIAS DE ONDAS SONORAS EXPLORAM O SOM COMO LINGUAGEM UNIVERSAL E POÉTICA

CANTA FORTE, 2025. Foto: Rodolfo Viana. © Felippe Moraes.

“Esses trabalhos compreendem a música brasileira e, mais especificamente, o samba, como um saber ancestral disseminado pelo mundo. Recorro a essas canções como dados culturais compartilhados por nós. É uma maneira de evocar sentimentos profundos com frases curtas, uma latência para cantarmos mentalmente e despertarmos as narrativas transformadoras dessas canções.”
Felippe Moraes, 2021

Quero viver no carnaval, 2021. © Felippe Moraes.

Felippe Moraes é um polímata: artista, pesquisador, curador, cenógrafo, autor… Ele também pertence a essa família carioca apaixonada por um Rio de Janeiro de mil sons. Um estandarte em seu ateliê em São Paulo, exposto em sua janela e claramente legível da rua, é um letreiro vermelho de neon que diz “Quero viver no Carnaval”, em uma série que ele chama de Samba exaltação, inventada durante a pandemia (presente nessa exposiçao). É o espírito de um artista muito focado no público, que ele quer ver participar e gosta de imergir em suas obras. Não é surpresa, portanto, que ele retorne a Solfejo, na Caixa Cultural de Curitiba, a quarta versão de uma exposição que ele criou pela primeira vez em 2019, na FIESP.

CANTA FORTE – Samba da Luz, 2021. © Felippe Moraes.

CANTA ALTO – Samba da Luz, 2021. © Felippe Moraes.

Em termos filosóficos, a teoria musical, que vem da palavra italiana Solfeggio, Solfejo é um derivado do nome de duas notas musicais, Sol e Fá. Foi inventada por um monge beneditino italiano do século 11, Guido d’Arezzo. Pode ser vista como um sistema simbólico que estrutura e organiza a percepção e a compreensão do mundo sonoro. Representa uma linguagem universal para a música, permitindo a leitura, a escrita e a interpretação de partituras. Além de sua função técnica, a teoria musical pode ser vista como um método para desenvolver a “consciência sonora” e uma apreciação mais profunda da música. É essa experiência da consciência sonora que Felippe propõe na sua exposição.

NÃO DEIXE O SAMBA MORRER, 2021. Vista da exposição Solfejo, Caixa Cultural Curitiba, 2025. Foto: Rodolfo Viana. © Felippe Moraes.

Essa nova exposição polifônica parece se pensar e se organizar com uma ordem muito precisa e determinada. Trata-se de uma introdução para fazer entrar o público em um mundo complexo, por vezes interativo, no qual o pensar será muito solicitado, e onde o público estará sujeito a devaneios profundos. 

Divino Maravilhoso, 2025. Foto: Rodolfo Viana. © Felippe Moraes.

Nessa exposição, todas as obras respondem umas às outras em um contexto de arte total, de relação com o corpo, de aleatoriedade, de referências diversas dialogando físicamente e mentalmente. O artista nos convida a cantar junto com as imagens, com seus gestos e pensamentos. Letreiros de neon, fotografias de desenhos sonoros (cada uma com título da sua frequência de 97 até 1228 hertz), instalações…

Vista da exposição Solfejo, Caixa Cultural Curitiba, 2025. Foto: Rodolfo Viana. © Felippe Moraes.

Felippe interpela seu público sem parar com suas exclamações textuais, “Atenção para o refrão” logo na entrada da exposição, “Não deixa o Samba morrer”, “Canta Forte/ Alto” (esse último, tinha, entre 2021 e 2024, uma versão na fachada da biblioteca Mario de Andrade, de São Paulo. cantando a música do Martinho da Vila) … Esse tipo de textos-luz, meio imprescindível da arte contemporânea, criado pelo químico francês Georges Claude (1870-1960), que transformou a imagem de nossas cidades, imiscuiu-se na arte, para enriquecê-la e questioná-la. Os artistas jogaram com as especificidades desse meio para abrir o campo do visual, para criar emoções e provocar a reflexão dos espectadores. Os artistas escolheram a figuração ou a linguagem, um pouco como na história humana da cultura: das cavernas de Lascaux aos hieróglifos. Felippe, por sua vez, utiliza suas neons-mensagens para dialogar com seu público no caminho de cada pedaço da sua exposição, como um eco que o convida a avançar para descobrir mais de suas propostas e entender, com essa série, como o samba – um gênero musical brasileiro que se originou entre as comunidades afro-brasileiras urbanas do Rio de Janeiro no início do século 20 – é um modo de viver. Também, Felippe escolheu neons para criar as constelações de Solaris Discotecum (2023).

Vista da exposição Solfejo, Caixa Cultural Curitiba, 2025. Foto: Rodolfo Viana. © Felippe Moraes.

A obra é um modelo imersivo do universo, com um grandioso globo espelhado ao centro, girando lentamente em meio às 12 constelações do zodíaco. Uma maneira para o artista nos lembrar de como somos pequenos em relação ao universo. Mas, além de tudo, Felippe quer convidar sutilmente, na dança de sua exposição, o pensamento do famoso astrônomo alemão Johannes Kepler (1571-1630) e sua hipótese heliocêntrica. Ele afirmou que a Terra gira em torno do Sol, sobretudo para mostrar que os planetas não giram em torno do Sol seguindo trajetórias circulares perfeitas, mas trajetórias elípticas. Em sua exposição, Felippe utiliza o pensamento da elipse, ou seja, a complexidade de suas proposições artísticas força o público a responder nas omissões (impossível colocar textos nas paredes para explicar toda a complexidade do pensamento do artista) para chegar ao essencial e ao choque estético da sua obra. Sobretudo, o artista quer então deixar o observador adivinhar as complexidades dos universos que ele descreve em seu Solfejo.

Solaris Discotecum, 2025. Foto: Rodolfo Viana. © Felippe Moraes.

Essa obra dialoga com o filme Harmonices mundi (2017), outra referência a Kepler e seu livro epônimo. Nessa obra, publicada em 1619, o astrônomo expressa, em termos musicais, suas convicções a respeito das conexões entre o físico e o espiritual. Para ele, o universo é uma imagem de Deus; a harmonia da música reflete a do universo e de seu criador.

Agoniza mas não morre, MAC Nitéroi. © Felippe Moraes.

Toda a exposição Solfejo, de Felippe Moraes, é platônica. A música permeia toda a obra de Platão. Ela está em toda parte e contribui para a construção do projeto de uma nova cidade. A República desempenha esse papel em particular: a história de Atenas perpassa constantemente os diálogos, nos quais o projeto de uma cidade perfeita é apresentado em resposta à turbulência política. A cidade ideal é a personificação da harmonia, como aquela encontrada na natureza. Platão acredita  que a música tem influência sobre a alma. Mas essa influência é estritamente dicotômica: boa ou má. Seu grande poder sobre a alma humana advém da conexão que os estudiosos gregos estabeleceram entre música e astronomia. Com base na teoria dos números de Pitágoras, a música era governada pela matemática, assim como as esferas celestes. É disso que Felippe fala em sua exposição. Assim, as mesmas proporções aritméticas são encontradas na música e na natureza, conferindo à música certo poder sobre a alma, a ponto de os movimentos das estrelas serem considerados perfeitos. Para Felippe, assim como para Platão, a música deve, necessariamente, estar associada à fala (lógos), e, nesse caso, à fala poética. Quando a música serve à fala poética, ela desperta interesse. Ela então se aproxima do lógos, que é a arma da filosofia. Os filósofos iniciam os homens nas Ideias.

Anunciar o dia, amenizar a noite, 2021. © Felippe Moraes.

Canto e encanto: para Felippe, a vida e a morte são muitas próximas. A música pode reencantar o mundo, é um convite a transformar a vida. O artista se interessa no canto que acontece mentalmente e ativa nossas memórias de músicas que nos ligam ao melhor das nossas vidas. Ele oferece o seu Solfejo para nos encorajarmos a reinventar as nossas próprias harmonias. Um convite à sobrevivência!

Uma pausa de mil compassos, 2025. Foto: Rodolfo Viana. © Felippe Moraes.

FELIPPE MORAES: SOLFEJO • CAIXA CULTURAL •
CURITIBA • 15/7 A 21/7/2025

Marc Pottier é francês, radicado entre o Brasil e a França, é curador internacional de arte contemporânea, especializado em arte em espaços públicos. Ele também está envolvido com plataformas digitais culturais, televisão e webtv. Hoje é curador da Usina de Arte, um parque de esculturas perto de Recife, pertence ao Núcleo Curatorial do MON (Museu Oscar Niemeyer) em Curitiba e é o coordenador internacional para a elaboração do projeto de futuro Museu de Arte Contemporânea de Foz do Iguaçu, com o coaching do Centre Pompidou.

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