Dentro de um museu, um homem para e contempla uma obra de arte. Uma cena corriqueira em qualquer museu pelo mundo, a não ser por um detalhe: esta ação se estende por um longo período de tempo, causando curiosidade e perplexidade por parte daqueles que reparam que há algo inusitado acontecendo ali. A performance “Legitimação por apropriação de espaço”, realizada por Felipe Diniz, é sutil, faz o artista se inserir com seu trabalho dentro de grandes instituições, ainda que não esteja necessariamente na programação delas ou até mesmo autorizado para isso. Nessa proposta aparentemente simples, o artista já lança duas das principais características de seu trabalho e de sua persona artística: um olhar atento ao mundo que o cerca e o interesse em esgarçar as fronteiras entre público e privado.

Teto Preto, 2021
Quando analisamos a trajetória artística de cerca de dez anos de Diniz, percebemos a forma como sua arte surge de uma relação íntima com o mundo à sua volta e, também, de uma percepção de si mesmo enquanto figura ativa deste e neste mundo. O próprio Felipe revela ter demorado a se entender como artista. Tendo iniciado seu contato com o universo artístico a partir da produção musical e audiovisual, só começou a se enxergar como fazedor de arte ao se matricular no curso de Artes Visuais.

Chega mais, 2022.
Todas imagens: cortesia do artista
A relação com as artes das ruas e o confronto com a produção de Keith Haring foram cruciais em sua trajetória, que começou exatamente observando seu entorno e reverberando questões da malha urbana. Aliando seus interesses artísticos a suas preocupações como cidadão, sua obra Parangolé, ao mesmo tempo em que reverencia Hélio Oiticica, também denuncia a cegueira do Estado em relação às pessoas em situação de rua. No vídeo criado por Diniz, pessoas sem moradia que habitam as ruas de São Paulo dançam vestindo seus próprios cobertores enquanto Adoniran Barbosa entoa versos como “quero ficar ausente, o que os olhos não veem o coração não sente”. O trabalho coloca como protagonistas aqueles que tantas vezes são invisibilizados no cotidiano, tanto pelos transeuntes quanto pelas autoridades públicas. Enquanto participava de ações junto à Craco Resiste, organização que atua na redução de danos do uso crônico de drogas, o artista viu sua pesquisa junto a pessoas em situação de rua ganhar ainda mais densidade e relevância quando o prefeito de São Paulo, João Doria, empreendeu ações truculentas contra essa camada da população, retirando de forma arbitrária seus poucos pertences. Felipe retomou alguns dos cobertores tomados pelo governo e, após lavá-los, os expôs como peça de museu, com forte cheiro de sabão em pó, ao lado de um grande aquário de vidro com a água suja resultante do processo. O título da obra, Cidade Linda, era o mesmo do projeto do governo que pretendia “higienizar” a cidade – e deixá-la mais cinza, diga-se de passagem –, varrendo para debaixo do tapete não só suas mazelas sociais como a produção dos artistas de rua em uma vã tentativa de emoldurar, com toda a pompa, a imagem de uma metrópole “limpa”. Limpa de que(m) e para que(m)?

Parangolé, 2015.

Sobre a dependência
tecnológica, 2014.
Afetado por uma sensação de impotência diante de questão de tal gravidade e ao mesmo tempo repensando seu verdadeiro lugar de fala diante de tema tão delicado, as pesquisas do artista seguiram para outros universos e plataformas. Com olhar sempre atento para o que o circunda e sem perder seu viés crítico, Diniz têm criado colagens e pinturas nas quais insere uma gama de referências ao seu próprio estar no mundo. Com uma estética que ainda se relaciona com a arte urbana em algum grau, seu consumo, seus privilégios, seus paradoxos, suas referências, tudo é material para uma produção pictórica e de colagens que ironizam o mundo capitalista, as redes sociais e o próprio sistema de arte.

Made in heaven III, 2014.

Made in heaven IV, 2014.
Vencedor do Prêmio Dasartes 2022 pelo voto popular, o trabalho de Felipe é daqueles que insere muitas camadas de percepção, desde o nosso mundo cotidiano aos conflitos de uma sociedade dividida por classes cada vez mais antagônicas, passando por nossas formas de consumo, tanto material quanto intelectual. Assim como ele próprio fazia em sua performance de 2016, quanto mais tempo nos detemos diante de suas obras, mais elas se revelam para nós, permitindo ampliar sensações e percepções sobre um jovem artista em um circuito cheio de complexidades e espaços que certamente serão cada vez mais ocupados pela potência de seu trabalho.
Leandro Fazolla é ator, historiador e crítico de arte. Doutorando em Artes Cênicas.
Mestre em Arte e Cultura Contemporânea, na linha de pesquisa de História,
Teoria e Crítica de Arte. Diretor Geral do Instituto Cultural Cerne.

