DASARTES 159 /

FÉLICIEN ROPS

A ICONOGRAFIA DEMONÍACO-ERÓTICA DE FÉLICIEN ROPS FIGURA ENTRE AS POSIÇÕES MAIS RADICAIS DO FIN DE SIÈCLE. SUAS OBRAS SE OPUNHAM DELIBERADAMENTE À MORAL BURGUESA E EXPUNHAM SUA HIPOCRISIA POR MEIO DA IRONIA, DA PROVOCAÇÃO E DA PRECISÃO GRÁFICA. EMBORA CELEBRADO COMO ILUSTRADOR DE LIVROS, ROPS DESENVOLVIA SIMULTANEAMENTE UM CONJUNTO DE OBRAS PRIVADAS, MANTIDAS DELIBERADAMENTE LONGE DOS HOLOFOTES

Tenho apenas uma qualidade: um ideal desprezado pelo público, e algumas das minhas imagens não passam de uma tentativa de elevar meu traseiro ao nível do rosto do público.”
Félicien Rops

Le Cirque: rehearsal, 1833. Pág. Anteriores: Le Sphinx, 1882. © Musée Félicien Rops.

O tema da sexualidade e do erotismo é onipresente na história da arte. Assim, a questão não é tanto se esse tema pertence a um museu, mas de que maneira ele é abordado. Hoje, a busca por respostas a essa pergunta parece mais importante do que nunca. O Kunsthaus Zürich escolheu explorar o assunto por meio de um exemplo especialmente marcante: a arte de Félicien Rops (1833-1898). O museu apresenta um dos artistas mais radicais — e, ao mesmo tempo, mais enigmáticos — do fin de siècle, o clima decadentista do final do século 19. O universo visual demoníaco e erótico de Rops desafiou as convenções de sua época e levanta questões sobre papéis sociais, concepções morais e liberdade artística que continuam relevantes até hoje.

Le Bouge à matelots, 1875. © Musée Félicien Rops.

L’Heure du Sabbat, 1874. © Musée Félicien Rops.

A mais tóxica flor do Simbolismo, o flagelo da burguesia, o enfant terrible — a lista de epítetos usados para descrever Félicien Rops e sua arte demoníaca e erótica é longa. Rops foi um transgressor de limites. Amplamente elogiado por importantes intelectuais da época, o artista belga investigou incansavelmente as fronteiras da arte. Em suas obras, atacou os padrões duplos da burguesia e sua moralidade estreita e hipócrita.

Valendo-se dos clichês e estereótipos de gênero de sua época, Rops expôs a hipocrisia do cidadão respeitável. O fenômeno Rops revela, assim, não apenas algumas das realizações mais refinadas da gravura e do desenho por volta de 1900, mas também lança luz sobre as relações de gênero na virada do século 20.

TRAJETÓRIA E VIDA

La Tentation de saint Antoine, 1878. © Musée Félicien Rops.

Nascido em Namur, na Bélgica, Félicien Rops iniciou sua formação em um ambiente burguês que mais tarde se tornaria alvo recorrente de sua crítica mordaz. Ainda jovem, aproximou-se dos círculos intelectuais e literários, colaborando com periódicos satíricos e desenvolvendo uma linguagem gráfica afiada, marcada pelo humor ácido e pela observação social.

La Dame au pantin II, 1877. © Musée Félicien Rops.

A partir da década de 1860, estabeleceu-se em Paris, onde passou a conviver com escritores como Charles Baudelaire e Joris-Karl Huysmans, consolidando uma produção que transitava entre ilustração, gravura e desenho. Experimentador incansável, explorou técnicas como água-forte, água-tinta e verniz mole, refinando uma escrita visual que combinava virtuosismo técnico e provocação temática. Entre encomendas editoriais e trabalhos reservados a colecionadores privados, Rops construiu uma obra singular, na qual erotismo, sátira social e simbolismo se entrelaçam, revelando um artista que fez da tensão entre escândalo e sofisticação o eixo de toda a sua produção.

NICHOS CRIATIVOS

“um artista deve se importar pouco se algo é compreendido…”

“A crueldade nada mais é do que a energia humana que ainda não foi corrompida pela civilização”, escreveu o Marquês de Sade, em A Filosofia na Alcova. Apesar das implicações questionáveis dessa afirmação, é fácil compreender por que a arte de Rops tantas vezes exerceu um impacto poderoso sobre intelectuais: sua representação de um erotismo desenfreado, frequentemente beirando a crueldade, abriu nichos nos quais espaços criativos puderam se desenvolver – lugares aparentemente ainda intocados pela influência da civilização.

O próprio Rops incentivava a ideia de que suas obras gráficas resistiam a elogios fáceis, observando que “um artista deve se importar pouco se algo é compreendido, exceto talvez por muito poucos! E que prazer é praticar esse ‘druidismo’. Ser o próprio sumo sacerdote hermético […]!”

OS DOIS LADOS DE UMA OBRA

La Révolution sociale, 1878. © Musée Félicien Rops.

L’Entracte de Minerve, 1878. © Musée Félicien Rops.

A obra de Rops prospera em contradições: ao mesmo tempo amplamente difundida e conscientemente privada. Enquanto conquistou reputação como um dos ilustradores de livros mais talentosos e produtivos de sua época, paralelamente, desenvolveu um conjunto de trabalhos deliberadamente mantidos longe do olhar público.

Durante muitos anos, Paris — então capital da arte — foi o lugar ideal para que Rops frequentasse círculos literários e criasse frontispícios para novas obras de ficção. Graças à intervenção de Auguste Poulet-Malassis, pôde colaborar com Charles Baudelaire, enquanto as obras de Jules Barbey d’Aurevilly, Stéphane Mallarmé e Paul Verlaine também receberam suas ilustrações.

Ao mesmo tempo, havia um segundo lado, menos conhecido, do artista, que trabalhava dedicadamente para colecionadores privados, em aberta oposição às convenções públicas. Utilizando um repertório de temas que buscava romper todos os limites do erotismo, ele questionava normas sociais e explorava o potencial da arte. Até hoje, suas obras mais provocativas em coleções públicas permanecem guardadas longe dos olhares curiosos.

UM DOCUMENTO DE SEU TEMPO

Pornocratès (La Dame au cochon), 1896. © Musée Félicien Rops.

Típica da época é a estilização que Rops faz das mulheres como femmes fatales, representando-as de maneira que combina atração e horror. A exposição retoma esse aspecto e pergunta se, ao se opor à moral burguesa, Rops não teria perpetuado os mesmos estereótipos que pretendia criticar.

Independentemente disso, Rops é hoje considerado um dos artistas mais importantes da Bélgica e, ao lado de Fernand Khnopff, uma figura central do fin de siècle belga. Uma de suas obras principais, A tentação de Santo Antão, tornou-se particularmente famosa graças a uma interpretação detalhada feita por Sigmund Freud. A obra também foi celebrada no primeiro salão do grupo Les XX — sinal de que a importância histórico-artística de Rops já era evidente para uma nova geração de artistas em ascensão, como James Ensor.

A exposição abre uma perspectiva dupla: apresenta desenhos notáveis do período simbolista e, ao mesmo tempo, reflete sobre ideias sociais em torno de 1900 que precisam ser reexaminadas hoje.

FÉLICIEN ROPS: LABORATORY OF LUST •
KUNSTHAUS ZÜRICH • ZURIQUE • SUÍÇA •
6/3 A 31/5/2026

Compartilhar:

Confira outras matérias

Destaque

MICKALENE THOMAS

O lugar central do meu trabalho e da minha arte é um espaço de amor.
Mickalene Thomas

A obra de Mickalene Thomas …

Do mundo

PAUL MCCARTHY

Há um filme italiano de 1975 cujo título poderia se situar como um ponto de partida para analisar a produção …

Reflexo

GILBERTO SALVADOR

VIU

É um trabalho da década de 1960, momento em que o país vivia uma forte censura em todas as áreas …

Resenha

SONIA GOMES

Ao inaugurar paradigma na historiografia da arte europeia que se consolidaria a partir do século 18, Johann Joachim Winckelmann estabeleceu …

Do mundo

WIFREDO LAM

A obra de Wifredo Lam ampliou os horizontes do modernismo, criando um espaço significativo para a complexidade e a beleza …

Destaque

RUTH ASAWA

Ao desafiar distinções entre abstração e representação, figura e fundo, espaço negativo e positivo, a obra de Ruth Asawa (1926–2013) …

Reflexo

Carlos Garaicoa

Toda utopía pasa por la barriga, 2024

“Toda utopía pasa por la barriga é uma instalação na qual trabalhei de 2008 …

Reflexo

MAHKU

Por Bane Huni Kuin
 

NA HENEWAKAMÊ

NA HENEWAKAMÊ representa a música da nixi pae (ayawasca). Para mim, ela é importante, pois representa …

Reflexo

MARILÁ DARDOT

O livro de areia

“Quando eu era estudante de artes na Escola Guignard, a Piti (Maria Angélica Melendi) nos deu como …

Panorama

BEATRIZ GONZALEZ

A artista colombiana Beatriz Gonzalez nasceu em Bucaramanga, Colômbia, em 1938. Iniciou seus estudos em arquitetura, mas os abandonou para …

Destaque

KERRY JAMES MARSHALL

A prática de Kerry James Marshall é fundamentada em um profundo envolvimento com as histórias da arte. Ele reimagina e …

Do mundo

KIRCHNER

KIRCHNER X KIRCHNER: COLORIDO, POTENTE, PIONEIRO

Quando Ernst Ludwig Kirchner (1880-1938) emigrou para a Suíça, em 1917, encontrava-se em má condição …

Capa

ÉDOUARD MANET

ÉDOUARD MANET: O REBELDE ELEGANTE QUE REINVENTOU A PINTURA MODERNA

Édouard Manet (1832-1883) foi, antes de tudo, um homem de Paris …

Reflexo

ANDRÉ GRIFFO

Sala dos provedores, 2018
“Nesta obra, tomo como ponto de partida o interior da Santa Casa de Misericórdia do Rio de …

Garimpo

FELIPPE MORAES

“Esses trabalhos compreendem a música brasileira e, mais especificamente, o samba, como um saber ancestral disseminado pelo mundo. Recorro a …