“ Tenho apenas uma qualidade: um ideal desprezado pelo público, e algumas das minhas imagens não passam de uma tentativa de elevar meu traseiro ao nível do rosto do público.”
Félicien Rops

Le Cirque: rehearsal, 1833. Pág. Anteriores: Le Sphinx, 1882. © Musée Félicien Rops.
O tema da sexualidade e do erotismo é onipresente na história da arte. Assim, a questão não é tanto se esse tema pertence a um museu, mas de que maneira ele é abordado. Hoje, a busca por respostas a essa pergunta parece mais importante do que nunca. O Kunsthaus Zürich escolheu explorar o assunto por meio de um exemplo especialmente marcante: a arte de Félicien Rops (1833-1898). O museu apresenta um dos artistas mais radicais — e, ao mesmo tempo, mais enigmáticos — do fin de siècle, o clima decadentista do final do século 19. O universo visual demoníaco e erótico de Rops desafiou as convenções de sua época e levanta questões sobre papéis sociais, concepções morais e liberdade artística que continuam relevantes até hoje.

Le Bouge à matelots, 1875. © Musée Félicien Rops.

L’Heure du Sabbat, 1874. © Musée Félicien Rops.
A mais tóxica flor do Simbolismo, o flagelo da burguesia, o enfant terrible — a lista de epítetos usados para descrever Félicien Rops e sua arte demoníaca e erótica é longa. Rops foi um transgressor de limites. Amplamente elogiado por importantes intelectuais da época, o artista belga investigou incansavelmente as fronteiras da arte. Em suas obras, atacou os padrões duplos da burguesia e sua moralidade estreita e hipócrita.
Valendo-se dos clichês e estereótipos de gênero de sua época, Rops expôs a hipocrisia do cidadão respeitável. O fenômeno Rops revela, assim, não apenas algumas das realizações mais refinadas da gravura e do desenho por volta de 1900, mas também lança luz sobre as relações de gênero na virada do século 20.
TRAJETÓRIA E VIDA

La Tentation de saint Antoine, 1878. © Musée Félicien Rops.
Nascido em Namur, na Bélgica, Félicien Rops iniciou sua formação em um ambiente burguês que mais tarde se tornaria alvo recorrente de sua crítica mordaz. Ainda jovem, aproximou-se dos círculos intelectuais e literários, colaborando com periódicos satíricos e desenvolvendo uma linguagem gráfica afiada, marcada pelo humor ácido e pela observação social.

La Dame au pantin II, 1877. © Musée Félicien Rops.
A partir da década de 1860, estabeleceu-se em Paris, onde passou a conviver com escritores como Charles Baudelaire e Joris-Karl Huysmans, consolidando uma produção que transitava entre ilustração, gravura e desenho. Experimentador incansável, explorou técnicas como água-forte, água-tinta e verniz mole, refinando uma escrita visual que combinava virtuosismo técnico e provocação temática. Entre encomendas editoriais e trabalhos reservados a colecionadores privados, Rops construiu uma obra singular, na qual erotismo, sátira social e simbolismo se entrelaçam, revelando um artista que fez da tensão entre escândalo e sofisticação o eixo de toda a sua produção.
NICHOS CRIATIVOS
“um artista deve se importar pouco se algo é compreendido…”
“A crueldade nada mais é do que a energia humana que ainda não foi corrompida pela civilização”, escreveu o Marquês de Sade, em A Filosofia na Alcova. Apesar das implicações questionáveis dessa afirmação, é fácil compreender por que a arte de Rops tantas vezes exerceu um impacto poderoso sobre intelectuais: sua representação de um erotismo desenfreado, frequentemente beirando a crueldade, abriu nichos nos quais espaços criativos puderam se desenvolver – lugares aparentemente ainda intocados pela influência da civilização.
O próprio Rops incentivava a ideia de que suas obras gráficas resistiam a elogios fáceis, observando que “um artista deve se importar pouco se algo é compreendido, exceto talvez por muito poucos! E que prazer é praticar esse ‘druidismo’. Ser o próprio sumo sacerdote hermético […]!”
OS DOIS LADOS DE UMA OBRA

La Révolution sociale, 1878. © Musée Félicien Rops.

L’Entracte de Minerve, 1878. © Musée Félicien Rops.
A obra de Rops prospera em contradições: ao mesmo tempo amplamente difundida e conscientemente privada. Enquanto conquistou reputação como um dos ilustradores de livros mais talentosos e produtivos de sua época, paralelamente, desenvolveu um conjunto de trabalhos deliberadamente mantidos longe do olhar público.
Durante muitos anos, Paris — então capital da arte — foi o lugar ideal para que Rops frequentasse círculos literários e criasse frontispícios para novas obras de ficção. Graças à intervenção de Auguste Poulet-Malassis, pôde colaborar com Charles Baudelaire, enquanto as obras de Jules Barbey d’Aurevilly, Stéphane Mallarmé e Paul Verlaine também receberam suas ilustrações.
Ao mesmo tempo, havia um segundo lado, menos conhecido, do artista, que trabalhava dedicadamente para colecionadores privados, em aberta oposição às convenções públicas. Utilizando um repertório de temas que buscava romper todos os limites do erotismo, ele questionava normas sociais e explorava o potencial da arte. Até hoje, suas obras mais provocativas em coleções públicas permanecem guardadas longe dos olhares curiosos.
UM DOCUMENTO DE SEU TEMPO

Pornocratès (La Dame au cochon), 1896. © Musée Félicien Rops.
Típica da época é a estilização que Rops faz das mulheres como femmes fatales, representando-as de maneira que combina atração e horror. A exposição retoma esse aspecto e pergunta se, ao se opor à moral burguesa, Rops não teria perpetuado os mesmos estereótipos que pretendia criticar.
Independentemente disso, Rops é hoje considerado um dos artistas mais importantes da Bélgica e, ao lado de Fernand Khnopff, uma figura central do fin de siècle belga. Uma de suas obras principais, A tentação de Santo Antão, tornou-se particularmente famosa graças a uma interpretação detalhada feita por Sigmund Freud. A obra também foi celebrada no primeiro salão do grupo Les XX — sinal de que a importância histórico-artística de Rops já era evidente para uma nova geração de artistas em ascensão, como James Ensor.
A exposição abre uma perspectiva dupla: apresenta desenhos notáveis do período simbolista e, ao mesmo tempo, reflete sobre ideias sociais em torno de 1900 que precisam ser reexaminadas hoje.
FÉLICIEN ROPS: LABORATORY OF LUST •
KUNSTHAUS ZÜRICH • ZURIQUE • SUÍÇA •
6/3 A 31/5/2026

