DASARTES 96 /

EXTEMPORÂNEOS

Antes de começar a escrever, precisei olhar no celular para me lembrar de que dia é hoje: 29 de abril de 2020. A última vez que saí de fato sem maiores preocupações foi no dia 12 de março de 2020. De fato, terminei saindo no dia seguinte, mas ali já não havia mais calma. Sabia […]

Antes de começar a escrever, precisei olhar no celular para me lembrar de que dia é hoje: 29 de abril de 2020. A última vez que saí de fato sem maiores preocupações foi no dia 12 de março de 2020. De fato, terminei saindo no dia seguinte, mas ali já não havia mais calma. Sabia que viriam dias árduos. E, desde então, pude concordar em ficar em casa, reconhecendo tal privilégio.
Os sentimentos são díspares, mas é impossível não experimentar uma angústia de abismo que se imprime em mim. Por outro lado, em que medida tal sensação de fato me é estranha? Para além das catástrofes, do horror e dos corpos, não haveria algo que nos acompanha como clausura, mesmo que metafórica, desde muito? Será que eu já vivi em algum momento para longe da clausura? É possível viver além da clausura do viver?
A emoção agora é, talvez, comum. Um misto de estranheza que em pequenas reviravoltas se revela extremamente familiar, como um vírus. Freud, no texto O estranho, discorre sobre as analogias semânticas entre as palavras unheimlich (estranho) e heimlich (familiar) e não se exime de indicar de forma extremamente rara a relação de aproximação e distanciamento que se coloca como vínculo entre as duas. Em uma recente edição de 2019, publicada pela editora Autêntica e traduzida por Ernani Chaves e Pedro Heliodoro Tavares, é possível ler:
“De todo modo, lembremos que essa palavra heimlich não é clara, pois diz respeito a dois círculos de representações, os quais, sem serem opostos, são, de fato, alheios um ao outro, ao do que é confiável, confortável e ao que é encoberto, o que permanece oculto.” (FREUD, p. 45)
Por mais que seja extremamente sabido, é importante destacar sempre que há um núcleo de dissenso no familiar que o gera como estranho, em um movimento curioso e talvez até natural, de parto e fagocitose. E isso se dá como uma eterna via de mão dupla. Mas como pensar nesses elementos quase-autônomos de forma mais precisa?
Esta tradução, opta, com absoluta pertinência, por indicar que se trata de dois círculos de representações, seguindo uma justa tradição de tradução freudiana. Em alemão, encontramos o termo: zwei Vorstellungskreinsen. Zwei = dois, Kreisen = círculos, Vorstellung = representação. Se optássemos por trair a tradução mais justa de Vorstellung como representação, poderíamos, poeticamente e de maneira expandida, encontrar outras definições como: ideia, concepção, performance e imaginação.
Seria possível pensar então em dois círculos de concepções díspares que, apesar de não se colocarem de maneira oposta, estabelecem entre si uma estruturação entrópica, em eterno movimento nem sempre tão óbvio, fundada por aquilo que é adventício, externo, estrangeiro, invasor, invadido, viral. O que alimenta o estranho-familiar e vice-versa é o intruso que dele e nele se origina. Como se fosse possível apostar na fundação de uma casa que se erige a partir do seu próprio desejo desmoronamento. Ou investir in//conscientemente parte do seu desejo em um abrigo que jamais ficaria totalmente em pé, considerando, inclusive, que o verbo vorstellen também pode ser traduzido como colocar-se de pé diante de algo, apresentar-se. Nesse caso, tratar-se-ia de uma apresentação de uma dupla ausência.
A produção contemporânea em alguns momentos fetichizou tal drama inevitável de absoluto desconhecimento de si a partir da perspectiva de outrem, considerando de maneira extremamente fidedigna a aderência não tão inteligente ao seu tempo. Há de haver alguma lembrança que todo o isso que se produz, produz em si e por si mesmo, um fantasma de presença que ri desconfiado de sua duração, permanência e temporalidade. E, nesse sentido, talvez, o tempo de agora, o do já, seja esse, sim, um mito.
Boaventura de Sousa Santos, em A cruel pedagogia do vírus, comenta a produção urgente, necessária e desassossegada de alguns filósofos diante da pandemia e seus inevitáveis desacertos. E aponta que, talvez, uma possibilidade futura seja a de optarmos pela posição da retaguarda. Como um avesso da vanguarda. Ou aqui, como interpretação minha não menos ingênua, a vã//guarda como retaguarda diante do presente e do tempo.
Quando tudo isso passar, se é que um dia de fato passará, é possível que os artistas em atuação percebam algum furo na estrutura do contemporâneo e consigam apostar em uma produção outra, menos repleta de afã, extemporânea, estranha, inoportuna, tardia à própria velocidade que lhes foi vagarosamente impressa ao longo dos últimos trinta anos. Resta-nos esperar sem pressa alguma. Seja lá o que isso for.

Alexandre Sá é artista-pesquisador. Atual diretor do Instituto de Artes da UERJ. Pós-doutor em Filosofia pelo PPGF/UFRJ. Pós-doutor em Estudos Contemporâneos das Artes pela UFF e Doutor em Artes Visuais pela EBA-UFRJ.

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