
Evelyn De Morgan, Helen of Troy, 1898. © De Morgan Collection, courtesy of the De Morgan Foundation.
Aquele que vos escreve, crê em destino, tendo certa fé em que a vida, o cosmos, ou algo assim, tece propositadamente teias, entrelaça linhas e cose fios que vêm a compor as “coisas que devem inevitavelmente existir”. Espero não os ter entediado com esta conversa cósmico-mítica pouco embasada, mas quero dizer é que acredito que certos acontecimentos não são fruto do acaso. Eis que a história da arte teve a honra de contar com um desses entrelaçamentos de destinos que lhe acrescentaram um belo (literalmente belo) capítulo. Refiro-me ao poderoso casal Evelyn (1855-1919) e William De Morgan (1839-1917), duas almas artísticas apaixonadas, tanto uma pela outra quanto pela arte, pela estética, pelo design e pela poesia visual. Ele, um ceramista do Arts & Crafts, ela, uma pintora pré-rafaelita que viveram em harmonia na Inglaterra vitoriana, encorajando mutuamente suas atividades e se envolvendo nas questões sociais de sua época, influenciando vários movimentos artísticos significativos na Grã-Bretanha do século 19 (ainda que, em opinião pessoal, seu impacto tenha relativamente sido negligenciado em comparação com seus contemporâneos mais conhecidos). Evelyn De Morgan reciclou Botticelli para os tempos modernos, criando pinturas ricamente simbólicas. William De Morgan criou exuberantes azulejos, potes e chamativos pratos de cores brilhantes com superfícies distintas. Conheçamos, portanto, a seguir, alguns detalhes deste casamento artístico vitoriano e do legado estético deixado pelos De Morgan.

Evelyn De Morgan, Night & Sleep, 1878. Fotos: © Anri Sala. © De Morgan Collection, courtesy of the De Morgan Foundation

Evelyn De Morgan, The Love Potion, 1903. © De Morgan Collection, courtesy of the De Morgan Foundation.
Evelyn De Morgan foi uma artista que desafiou as expectativas de seu gênero e sua classe social (sabemos a relevância da posição social na era vitoriana) para se tornar uma das pintoras mais impressionantes de sua geração. Autora de pinturas profusamente coloridas, protagonizadas por figuras com lindos drapeados que transmitem fortes mensagens de espiritualidade, riqueza material (ou a contestação desta) e até mesmo do feminismo, mensagens estas relevantes ainda na atualidade. Nascida em 1855, na capital inglesa, filha de pais pertencentes à classe alta, que contava com uma linhagem de políticos e proprietários de terras, por parte de pai, e da nobreza, por parte de mãe, sendo, portanto, uma notável família, segundo os valores da época.
O interstício entre 1875 e 1883 marca o promissor início de sua carreira artística. Matriculada na Slade School of Art, Evelyn foi aluna de Sir Edward Poynter, que mais tarde viria a ser presidente da Royal Academy of Arts. A filosofia artística de Poynter era a de criar artes plásticas e decorativas que buscavam impor a beleza em prejuízo do significado, ou criar, em outras palavras: “arte pela arte”, por meio do movimento Aesthetic, que oscilava entre o estilo clássico e o renascentista, portanto, colocando em evidência a arte de Sandro Botticelli. Foi no auge da popularidade desse movimento que Evelyn começou a expor seus primeiros trabalhos, como a bela obra Santa Catarina de Alexandria, exposta na Dudley Gallery, em Londres, no ano de 1876, quadro que, apesar da temática religiosa, já revelava sua luta contra as atitudes sexistas do mundo da arte. Ela queria ser reconhecida como artista e não como mulher artista, vide a notável diferença. Evelyn usava desde já suas obras para externar suas preocupações sociopolíticas a um público amplo, empregando crítica e subjetividade mesmo em um estilo reconhecido mais por sua estética. Ao se observar superficialmente, por exemplo, Ariadne in Naxos, de 1877, certamente tem-se a impressão de se apreciar uma obra de arte puramente estética. A bela personagem, trajando um chamativo vestido vermelho e uma manta que parece convergir a mesma cor de seus cabelos e do terreno da praia, é o solitário destaque em uma paisagem litorânea desolada. A poesia acaba aqui? Não, pois o próprio título da obra dá pistas de uma narrativa. A mitológica personagem Ariadne, sozinha, com uma expressão melancólica e abandonada, está inconsolável, deixada na ilha de Naxos pelo seu amado Teseu. Quem conhece essa tradição pictórica sabe que não é difícil encontrar na história da arte obras em que ele é o destaque, tradicionalmente representado navegando para longe da praia da Ilha. Evelyn inverte o protagonismo: aqui a personagem feminina se torna o centro da história, destacando o sofrimento feminino e o abandono por um homem. Fácil é estabelecer uma conexão com a pudica sociedade patriarcal da qual ela foi contemporânea. Há ainda a sutil referência à religião cristã, na cor da vestimenta da personagem (a mesma cor escarlate que veste os martirizados santos da Igreja).

Evelyn De Morgan, Ariadne in Naxos, de 1877. © De Morgan Collection, courtesy of the De Morgan Foundation
Anos mais a frente, em 1883, Evelyn veio a conhecer o designer ceramista do Arts and Crafts, William De Morgan. William, sem dúvidas, tinha interesse não apenas na beleza, inteligência e sensibilidade de Evelyn, mas também em sua arte, pois o amor vem a se tornar imediatamente tema importante (na obra de ambos, cada um a seu modo, diga-se) após esse encontro. Na belíssima e espiritual alegoria Love’s Passing, de 1834, já se pode sentir um forte impacto sentimental na obra da artista. Os amantes, personagens principais da obra (dividida entre um lado sensível e puro em contraste a um lado sombrio e mórbido) apreciam a melodia de uma música angelical, ao mesmo tempo inebriados pelo amor e preocupados com o fim de tudo, já que, aos seus pés, há um escrito onde consta um trecho poético do grego Tibullus, onde se lê acerca da tristeza que o autor sente ao pensar na morte futura de sua amada. A morte, presente, porém, a certa distância, de frente para o Rio da vida, em um segundo plano estabelece certo equilíbrio na distribuição da cena na obra. A artista com certeza relacionou a si mesma com essa dramática e poética narrativa após perceber que havia encontrado seu amor verdadeiro, que era, no entanto, quase duas décadas mais velho que ela.
William De Morgan foi um criativo designer, de caráter artístico inovador e dedicado à arte, filho mais velho de Sophia Frend e Augustus De Morgan, pais liberais e progressistas, relacionados às lutas pela abolição da escravatura. Ele começou sua formação formal como artista plástico, agregando constantemente investigações matemáticas (influência do pai, notável matemático, que protestou pela inclinação à carreira artística do filho) e científicas às artes decorativas, desenvolvendo vitrais, realizando pesquisas químicas para criar esmaltes de brilho diferente e criando até mesmo os seus próprios fornos. Não obstante, e apesar de ser uma faceta sua menos conhecida, obteve relativo reconhecimento em sua segunda carreira como autor de ficção popular no fim da vida. William sempre se concentrou em fazer cerâmicas belas e tecnicamente perfeitas, muito envolvido na emoção do trabalho com fornos e esmaltes brilhantes, dedicando-se à arte e nunca de fato ligando para modismos nem em busca de fortuna financeira.

William De Morgan, Seahorse Tile Panel, c. 1880. © De Morgan Collection, courtesy of the De Morgan Foundation.

William De Morgan, Two Handled Persian Vase, c. 1890. © De Morgan Collection, courtesy of the De Morgan Foundation.

Bear and Hare Dish, c. 1890. © De Morgan Collection, courtesy of the De Morgan Foundation.
Ele foi aluno de Stephen Francis Cary em sua academia de arte em Bloomsbury, onde aprendeu desenho da antiguidade, em uma oficina focada em formar aspirantes a acadêmicos reais. Daí vêm os estudos de William sobre antiguidades clássicas, donde se têm desenhos tão bem executados que, a certo tempo, chegaram a ser atribuídos erroneamente à sua esposa, Evelyn. William foi tão bom desenhista que veio a conseguir um disputado lugar na Royal Academy of Arts, em Londres, onde estudou Belas Artes, de 1859 a 1863.
Em 1863, William De Morgan conheceu William Morris (de quem, às vezes, é preconceituosamente conhecido como sombra) em seu estúdio, tendo sido apresentado a ele por um camarada em comum, encontro este tão impactante que William abandonou a Royal Academy para seguir a carreira de designer. Foi, possivelmente por indicação, de Morris que, na década de 1860, William começou suas investigações científicas sobre método e fabricação, vindo a projetar vitrais e móveis, os quais, obviamente, fez uso de seus conhecimentos obtidos na formação clássica para criar belas cenas mitológicas e bíblicas, harmonizando-as com elaborados padrões florais, obras essas que chegaram aos nossos tempos e se encontram principalmente sob o domínio da Fundação De Morgan.
As primeiras instalações de suas obras de design foram em uma casa em Chelsea, onde o próprio morava com sua mãe e irmã. Suas primeiras produções de cerâmica foram inclusive ditadas de acordo com o espaço disponível para produzi-las. Essas obras exploram as formas geométricas, dentre design de ladrilhos instalados na horizontal e vertical, criando uma variedade de padrões. Esse design e outros do “Período Chelsea” se inspiravam em técnicas de design medieval, que estavam em voga na época devido à ascensão dos movimentos vitorianos Arts and Crafts e Gothic Revival.
Quando William se casou com Evelyn, em 1887, eles passaram a viajar com frequência para a Itália, em Florença. A partir de 1890, o casal adquiriu seu próprio apartamento na cidade-berço do Renascimento e eles passavam os invernos lá, fugindo do frio inglês, causa de muitas moléstias à saúde de William. Lá William trabalhava com o ceramista florentino Cantagalli, produzindo maravilhosas e originais peças de prataria e cerâmica, moldadas em formatos de seres mitológicos, animais e outros formatos de figuras míticas e fantásticas.
Entre 1888 e 1907, na região londrina de Fulham, William desenvolveu seus últimos (e, potencialmente, mais criativos) trabalhos de cerâmica, até que o seu negócio acabasse fechando. Foi uma época marcada por mais estudos, experimentos e dedicação. William, que agora liderava e treinava uma equipe e trabalhava em cooperação com o arquiteto Halsey Ricardo, procurou aperfeiçoar seus esmaltes de brilho e suas ideias revolucionárias de design. A De Morgan & Co. criava e produzia em escala industrial elegantes esquemas de azulejos pictóricos para interiores. São dessa época os belos e elaborados painéis de azulejo Parrot, projetados para que ambientes internos inteiros pudessem ser revestidos por eles.

William De Morgan, Sands Ends Pottery, c. 1890. © De Morgan Collection, courtesy of the De Morgan Foundation.
Em 1904, a carreira de ceramista de William De Morgan declinava, porém com excelência artística. Sua cerâmica sobreviveu por trinta anos, mas, eventualmente, o negócio teve dificuldades administrativas, e, claro, houve a mudança de gosto estético do público na virada do século. Fechar foi a única opção.
A distância do trabalho tornou William De Morgan depressivo, pois foi uma mudança de vida radical para quem sempre teve um altíssimo potencial criativo e empresarial durante boa parte da vida. Aposentar-se compulsoriamente não fazia parte dos planos dele. Mas ele podia sempre contar com o amor de sua esposa, Evelyn, que sempre o apoiou e conseguiu contornar a situação de modo bastante criativo. Graças ao incentivo dela, ele começou a escrever ficção, publicando alguns romances.

Evelyn De Morgan, The Gilded Cage, c. 1900. © De Morgan Collection, courtesy of the De Morgan Foundation.

Evelyn De Morgan, Angel of Death, c. 1881. © De Morgan Collection, courtesy of the De Morgan Foundation.
William faleceu em 1917, após contrair uma febre, sendo sepultado no Brookwood Cemetery, em Surrey, em uma sepultura desenhada e projetada por Evelyn De Morgan, que até o fim dedicou seu amor e sua arte pelo esposo. Ela, por sua vez, morreu em 4 de maio de 1919, e foi sepultada junto dele. Em cinquenta anos de carreira artística profissional, Evelyn produziu cerca de cem pinturas a óleo, metade delas preservadas na coleção da Fundação De Morgan, obras que revelam seu talento, produção e dedicação ao trabalho. Esta, aliás, é uma característica permanente da carreira artística de ambos: uma dedicação quase religiosa aos seus trabalhos e produções, sempre inovando e sempre com um alto potencial criativo.
Quem deseja ter o privilégio de apreciar de perto o trabalho desse casal, poderá visitar o Museu de Arte de Delaware. Desde 22 de outubro de 2022, permanecendo até 23 de fevereiro de 2023, esse museu norte-americano estará expondo ao público um conjunto de pinturas e peças de Evelyn e William De Morgan, que mostram a trajetória artística e criativa dessas duas almas inovadoras, que, eu insisto, não se uniram por acaso.
Edvaldo Carvalho é professor de arte na
rede estadual de ensino do Estado do
Amapá e MBA em História da Arte.
A MARRIAGE OF ARTS & CRAFTS: EVELYN & WILLIAM
DE MORGAN • DELAWARE ART MUSEUM • EUA •
22/10/2022 A 19/2/2023


