Fire masks, London, 1941. © Lee Miller Archives England 2020

DASARTES 100 (Edição Especial 12 anos) /

ELIZABETH LEE MILLER

ELIZABETH “LEE” MILLER FOI UMA FOTÓGRAFA NOTÁVEL E UMA MULHER FORTE E MODERNA.  COMO MUSA, ELA INFLUENCIOU O SURREALISTA MAN RAY – E O DEIXOU EM FAVOR DE SUA PRÓPRIA CARREIRA. MILLER NÃO SE PREOCUPOU COM CONVENÇÕES, SEJA PRIVADA OU PROFISSIONALMENTE, E SEGUIU SEU PRÓPRIO CAMINHO COMO ARTISTA, FOTÓGRAFA E REPÓRTER DE GUERRA. SUAS FOTOS DE CAMPOS DE CONCENTRAÇÃO, QUE DOCUMENTAM O HORROR E A LOUCURA DA GUERRA COM UMA VISÃO SURREALISTA, SÃO INESQUECÍVEIS

Floating head, Mary Taylor, New York, 1933. © Lee Miller Archives England 2020

Reaberto em maio de 2020, o Museum fur Gestaltung-Zurich apresenta a exposição Lee Miller – Fotógrafa entre a guerra e o glamour. Com curadoria de Karin Gimmi e Daniel Blochwitz, a mostra ficará aberta até janeiro de 2021, no prédio Toni-Areal. É a primeira vez que o trabalho de Lee Miller é apresentado na Suíça. O público poderá ver cerca de 200 fotografias da trajetória de Lee, desde as imagens mais famosas de seu tempo, como modelo da revista Vogue, àquelas descobertas no sótão da casa em que morava somente após seu falecimento.

Estas últimas fazem parte de um acervo com aproximadamente 60 mil documentos fotográficos produzidos por Lee Miller e, mais tarde, escondidos por ela como algo que se quer esquecer. Talvez por ter visto muito de perto aquilo que fotografou, Lee Miller quis perder algo de vista. Ela contava que as fotografias tinham sido destruídas durante a Segunda Guerra.

As fotos foram descobertas por Antony Penrose, filho único de Lee Miller, quando ele já era adulto. Ao descobri-las no meio de câmeras, cartas, manuscritos e alguns objetos pessoais, como o uniforme do exército americano, ele redescobriu também a própria mãe. Hoje, Antony Penrose é diretor do Lee Miller Archives, um arquivo privado em Londres que se dedica a conservar, catalogar e publicar as obras de Lee Miller e outros artistas ligados a ela. A casa é aberta ao público: um esforço consciente de preservação da obra de Lee, por meio não só da conservação física do acervo, mas, principalmente, por torná-lo acessível.

Fire masks, London, 1941. © Lee Miller Archives England 2020

David E. Scherman, dressed for  war, London, 1942. © Lee Miller Archives England 2020.

Lee Miller nasceu em 1907, em Poughkeepsie, Nova York. Com apenas 19 anos, foi modelo da revista de moda Vogue, a convite de Condé Montrose Nast, fundador da conhecida editora Conde Nast. Nos anos 1920, ela foi capa de uma das publicações mais importantes do período art déco, ilustrada pelo artista George Lepape. À altura de grandes musas do cinema silencioso, como Greta Garbo e Clara Bow, Lee Miller rapidamente se tornou uma das modelos mais bem-sucedidas da época. Ela também trabalhou com fotógrafos renomados como, Edward Steichen e Nickolas Muray, e teve incontáveis aparições em revistas de moda.

Em 1928, em virtude de uma foto dela publicada em um anúncio de absorventes menstruais, Lee Miller foi muito criticada. Na época, a atribuição de uma mulher “decente” a um anúncio como esse – e o próprio assunto da menstruação em si – era (ainda é) um enorme tabu. Como em um impulso de libertação de sua própria imagem, associada à idealização do corpo de mulher (e não à fisiologia desse corpo), Lee Miller deixou a carreira de modelo para estudar arte.

Já no fim dos anos 1930, ela se mudou para Paris e abriu o próprio estúdio, tornando-se uma fotógrafa de moda e realizando trabalhos relevantes dentro do movimento surrealista. Em Paris, Lee Miller conheceu o pintor e fotógrafo surrealista Man Ray, com quem trabalhou por alguns anos, além de se envolver afetivamente com ele. A relação com Man Ray foi um marco na carreira de Lee Miller. Ela foi modelo principal dele em diversas fotografias e, juntos, redescobriram a técnica da “solarização”, ou “efeito sabattier”, inventado em 1862 pelo francês Armand Sabattier.

Lee Miller e Man-Ray, Retrato solarizado de Lee Miller
© Lee Miller Archives England 2020.

A solarização consiste na inversão tonal de certas áreas da fotografia e é obtida por meio de uma rápida exposição à luz durante o processo de revelação. O resultado é uma foto que está entre o negativo e o positivo: há um efeito de descolamento da imagem dela mesma por meio de uma linha luminosa, uma espécie de contraluz químico. Muito embora a solarização tenha sido descoberta junto a Lee Miller, a técnica é mais atribuída ao nome de Man Ray – algo bastante comum quando se revisita a história de mulheres que trabalharam com homens célebres.

Lee Miller se debruçou mais sobre o estilo surrealista. Em Cabeça flutuante, por exemplo, a cabeça de Mary Taylor, uma jovem atriz da Broadway, parece não ter corpo. Ela está mergulhada em uma escuridão que delineia o rosto dela e a faz saltar da própria imagem. Há algo de fantasmagórico nessa mulher sem corpo, ela parece ter saído de um mar escuro, cujos detalhes não se consegue ver – como o nascimento de uma Vênus surrealista.

O surrealismo revolve em torno de um inconsciente, do estranho que habita o familiar. Assim, por meio da fotografia, ligada a uma realidade material e visível, Lee Miller é capaz de revelar também o que não é visível. Por exemplo, em Nu para a frente, vemos um corpo sem membros e sem cabeça: um recorte de corpo. Esse processo de fragmentação é um método dissociativo. Ele desliga as relações automáticas que fazemos sobre as coisas; e a colagem cria novas possibilidades de expandir o real.

Em 1944, Lee Miller se tornou correspondente do exército americano, sendo, assim, a primeira mulher a cobrir uma guerra para a revista Vogue. Como fotógrafa de guerra, ela registrou o “Dia D” e, muito provavelmente, foi a única mulher a cobrir a guerra da linha de frente na Europa. Lee Miller testemunhou o cerco de Saint-Malo, a libertação de Paris, os combates em Luxemburgo e na Alsácia, a ligação russo-americana em Torgau, a Blitz de Londres, a libertação dos campos de concentração de Buchenwald e Dachau.

Portrait of space, Ägypten, 1937. © Lee Miller Archives England 2020,

Em Buchenwald, Lee fotografou cinco ex-prisioneiros recém-libertados, em frente a um monte de cadáveres queimados pelos nazistas. No plano aberto da foto, Lee Miller testemunhou o silêncio daqueles corpos entulhados e a quase morte dos sobreviventes. Em maio de 2020, o fim da Segunda Guerra Mundial completou 75 anos, e sem os registros feitos por Lee Miller seria mais difícil refletir sobre a dimensão dessa catástrofe.

Released prisoners in striped prison dress beside a heap of bones from bodies burned in the
crematorium, KZ Buchenwald, 1945. © Lee Miller Archives England 2020.

No mesmo dia em que Hitler se suicidou no Bunker de Berlim, Lee Miller esteve na casa particular do ditador, em Munique. Lá, ela encenou um banho de libertação, naquela que viria a ser uma das imagens mais famosas de sua trajetória. Fotografada por David Scherman, ela, a mulher, ex-modelo, artista de vanguarda e fotógrafa de guerra, entrou nua na banheira de Hitler.

Lee Miller in Hitler’s Bath, 1945 by David E. Scherman.
© Lee Miller Archives England 2020.

As botas do uniforme de Lee, posicionadas à frente da banheira, sujas do chão de Dachau, mostram que aquele espaço foi ocupado pelas tropas americanas. Com a cabeça e o olhar angulados, ela sugere um novo horizonte possível. O banho encenado por Lee Miller é uma espécie de batismo; pela imersão na água, ela lava a memória do ditador. A foto de Hitler, à esquerda do quadro, parece assistir à cena sem nada poder fazer.

À direita, vemos uma escultura de traços greco-romanos, que também parece assistir ao banho. Entre Hitler, Lee Miller e a escultura, que formam o eixo da foto, há uma linha do tempo invertida. Um traço que vai do “belo” grego, atravessa o corpo de uma ex-modelo da Vogue, branca de olhos claros, e culmina na imagem do nazismo, fundado na obsessão pela ideia da “beleza ariana”. A relação entre esses três elementos amplia o sentido da foto e evidencia mais que a derrota de Hitler: escancara mecanismos históricos de dominação do corpo – especialmente o corpo da mulher.

Nude bent forward [thought to be Noma Rathner], Paris, 1930. © Lee Miller Archives England 2020.

Nude bent forward [thought to be Noma Rathner], Paris, 1930. © Lee Miller Archives England 2020.

Elizabeth Lee Miller não cabe neste texto. Sua trajetória é tão multifacetada que não seria justo reduzi-la a uma única categoria: de modelo da Vogue, fotógrafa de moda, fotógrafa surrealista, a primeira mulher correspondente de guerra da revista Vogue na Segunda Guerra Mundial e, mais tarde, chef de cozinha. Ao ler sobre ela, percebe-se o quanto a arte dela é relacionada aos nomes de homens com quem trabalhou, os quais, inevitavelmente, estão também citados neste texto.

Edward Steichen, Nickolas Muray, George Lepape, Man Ray, Pablo Picasso, Jean Cocteau: eles certamente contribuíram muito como referência e inspiração para Lee Miller. Mas há que se fazer uma retificação histórica: a obra de Lee Miller é legítima por si só. Lee Miller é, sem dúvida, um dos grandes nomes do século 20.

 

 

Drika de Oliveira é diretora de conteúdos audiovisuais
na Redes da Maré. Atua como fotógrafa e
preservadora audiovisual na Cinemateca do MAM-
Rio. É graduada em Comunicação Social-Cinema
pela PUC-Rio. Membra da Associação Brasileira de
Preservação Audiovisual (ABPA).

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