MUNCH E O “COMÉRCIO PROFANO”
“Não basta sentar-se a olhar cada objeto e pintá-lo exatamente como você o vê, deve-se pintá-lo tal e como deve ser – tal e como era quando o tema lhe comoveu”. Edvard Munch.
Filho de um médico e fanático religioso, Edvard Munch, aos cinco anos de idade, viu a mãe morrer de tuberculose e, tempos mais tarde, presenciou a morte da irmã mais velha. E seus problemas não cessaram nesses episódios: outra irmã foi internada devido a problemas mentais (alguns biógrafos atestam que ela sofria de esquizofrenia), o pai faleceu de maneira precoce e, por fim, o pintor teve alguns surtos agravados pelo alcoolismo. Os males do corpo e da alma surgem com frequência nas suas telas e desenhos. Porém, a obra de Munch segue além dos fatos trágicos; seu fazer artístico modificou os fundamentos do expressionismo e da práxis do artista moderno.

Madonna, 1894-1895. © Munch museet. Cortesia Galleri F15.

Ludvig Karsten, 1905. © Munch museet. Cortesia Galleri F15.
Se observar a pintura dele é conhecer as motivações de sua obra, perceber as miudezas do ateliê pode revelar o modo como artista entende seu ofício. O que se espia pelo buraco da fechadura do ateliê de Munch? Essa é a proposta da exposição Munchs mesener og samlere, venner og hjelpere 1900-1916 (em tradução livre: Patronos e colecionadores de Munch, amigos e ajudantes 1900-1916), que está ocorrendo na Galleri F15, na ilha de Jeløya – um pequeno paraíso da cidade de Moss, costa da Noruega. A exposição inaugurada em 12 de fevereiro, segue até 4 de maio de 2022 e tem uma documentação bastante completa, incluindo um rico catálogo sobre esse momento do artista.
O que torna essa mostra especial? De partida, coloque na lista que Munch viveu e trabalhou na fazenda Grimsrød em Jeløy, de 1913 a 1916. Então, se o intuito é saber mais sobre o espaço físico destinado à criação e ao trabalho do artista, a exposição está no lugar certo. Os curadores da mostra, espertamente, trouxeram as cores e os objetos decorativos do interior da sede da fazenda para as salas da Galeria. Então, esqueça as paredes brancas e assépticas. Nada de “cubo branco”! A intensidade das cores e o mobiliário sóbrio nos levam para o interregno entre o século 19 e 20 – uma atmosfera distante do discurso organizado das exposições e museus modernos; bisbilhotar o ateliê do artista é adentrar em sua dimensão mais íntima.

A menina doente, 1886. © Munch museet. Cortesia Galleri F15.
Outro ponto de destaque é a ideia de trabalho. Dificilmente, pensamos nessa questão quando se trata de arte. Na vida de Munch, esse aspecto é marcante. Em 8 de novembro de 1880, ele escreveu em seu diário: “Minha decisão está tomada, serei pintor”. Porém, forçado pelo pai, aos 16 anos, matriculou-se em Engenharia na escola técnica de Khristiana. Mas o gosto pelo estudo do desenho e da perspectiva deu coragem ao jovem para enfrentar a autoridade paterna. Ele desistiu do curso e anunciou seus planos de ser pintor; o pai declarou que esse ramo era um “comércio profano”. Mesmo assim, o filho rebelde se inscreveu na Escola Real de Arte e Design de Oslo, onde conviveu com escritores boêmios e políticos. Assim, a firme decisão de ter a arte como meio de vida era algo crucial no seu percurso.
No início de sua trajetória, os obstáculos ao desejo de viver de arte não eram restritos à censura familiar. O jovem artista também enfrentou críticas ásperas. Em 1886, por exemplo, a tela A menina doente foi severamente reprovada pela crítica norueguesa. O tema – inspirado na memória de Sophie, sua irmã mais velha que morreu aos 15 anos – não era o problema. O ataque era destinado ao seu estilo impressionista considerado uma afronta ao gosto local. Essa pintura foi a primeira de uma série de seis outras com o mesmo tema. A partir daí, o sofrimento e o corpo afligido por doença se evidenciaram no seu repertório.
Foi na Alemanha, onde viveu de 1892 a 1908, que Munch obteve reconhecimento. Curiosamente, sua obra mais famosa, O grito, 1893, é dessa fase. A tela integra uma coletânea de quatro obras intitulada com o mesmo nome. A angústia e o desespero da figura fantasmagórica aludem à infância trágica do próprio pintor. Durante um passeio com dois amigos na doca de Oslofjord, Munch sofreu um ataque de ansiedade. Era fim de tarde e o céu estava avermelhado. Ele recorda: “(…) o céu ficou vermelho como sangue. Parei e encostei-me à cerca … tremendo de medo. Então ouvi o enorme e infinito grito da natureza.” Fato é que o estado de perturbação do nosso artista se confunde com seu trabalho artístico. Novo exemplo, tem-se em 1908, quando Munch começou a escutar vozes e foi internado em um sanatório. Após esse evento, ele incluiu, entre seus trabalhos, paisagens bucólicas.

O Grito, 1893. © Munch museet. Cortesia Galleri F15.
Realmente, seu período alemão firmou as bases de sua trajetória, inclusive lhe trazendo seguidores entre os vanguardistas. Nesse ponto, destaca-se a admiração de: Erich Heckel, Ernst Ludwig Kirchner, Max Beckmann e Karl Schmidt-Rottluff na Alemanha; Egon Schiele e Richard Gerstl em Viena. Esses artistas o viam como um modelo do expressionismo. O que eles viram em seu exemplo? Algo semelhante visto nos repertórios de Gauguin e Van Gogh: a compulsão de usar a arte como veículo de emoção. Ademais, Munch inseriu em seu trabalho atitudes do novo século em relação ao sexo, distúrbios psicológicos e espiritualidade.
Quando a mostra Patronos e colecionadores de Munch, amigos e ajudantes elege obras do período de 1900 a 1916, está selecionando trabalhos de uma fase madura e coroada pelo êxito. Destaca claramente apoio a administração da obra de Edvard Munch, concentrando-se em grandes mecenas e colecionadores, tais como, o cônsul Christen Sandberg, Max Linde, Ernst Thiel, Rasmus Meyer, Carl Steinbart, Hugo Perls e outros. Mas, não somente! Seus amigos e ajudantes também surgem nas telas ou nos desenhos, mostrando o exercício do trabalho em ateliê e o círculo de afetos do pintor. Não se deixe levar pela ideia de uma mostra repleta de retratos. Isso não é verdade! Paisagens que rememoram os lugares de Munch, como por exemplo, Åsgårdstrand, Kragerø, Hvitsten e Moss, bem como de visitas a Lübeck, Estocolmo e Copenhague, também estão presentes na mostra.

Homens debanho, 1915. © Munch museet. Cortesia Galleri F15.

Paisagem de Inverno, 1915. © Munch museet. Cortesia Galleri F15.

Vida, 1920. © Munch museet. Cortesia Galleri F15.
A essa altura, não é difícil perceber que os organizadores da mostra norueguesa conhecem as potencialidades da temática envolvida. Confessadamente, essa experiência veio de duas exposições anteriores: Edvard Munch in Moss, 1913-16 de 2013 e Fertile Ground, Munch in Moss – 1913-1916, de 2016. E aqui, cabe uma digressão: nos últimos dez anos, recentes pesquisas, publicações e exposições vêm mostrando intenso interesse acerca das relações de trabalho e dos processos de produção e recepção da arte. Nesse sentido, tais exposições estão de acordo com essa vertente de investigação em voga nos estudos dedicados à história da arte.

Christian e Hjørdis Gierløff, 1913-14. © Munch museet. Cortesia Galleri F15.

Ato sentado, 1913. © Munch museet. Cortesia Galleri F15.
Em síntese, a exposição Patronos e colecionadores de Munch, amigos e ajudantes 1900-1916 mostra o ateliê como espaço concreto e, simultaneamente, de representação. O de Munch, em Jeløya, tornou-se recinto privilegiado, onde ocorreram relações ligadas o processo criativo, as obras de arte e a imagem do artista. Juntem-se aos argumentos da mostra, questões como, a experiência íntima do artista; o ensino e a aprendizagem e a comercialização da arte.
Alecsandra Matias de Oliveira.
Doutora em Artes Visuais pela ECA USP (2008) e pós-doutora pela Unesp (2018). Atualmente, é especialista em cooperação e extensão universitária do MAC USP, membro da ABCA e pesquisadora do Centro Mario Schenberg de Documentação da Pesquisa em Artes. Autora do livro Schenberg: crítica e criação (Edusp, 2011).
MUNCH’S PATRONS AND COLLECTORS, FRIENDS
AND HELPERS 1900-1916 • GALLERI F15 • MOSS
• NORUEGA • 12/2 A 4/5/2022


