A aula de dança, © RMN-Grand Palais (Musée d'Orsay).

DASARTES 102 /

EDGARD DEGAS

O PONTO DE PARTIDA DA NOVA MOSTRA DE EDGARD DEGAS, NO MASP, SERÁ A ESCULTURA BAILARINA DE CATORZE ANOS (1880), A OBRA MAIS ICÔNICA DO ARTISTA E UMA DAS MAIS EMBLEMÁTICAS DA HISTÓRIA DA ARTE OCIDENTAL DO SÉCULO 20. A EXPOSIÇÃO APRESENTA 76 OBRAS DO PINTOR E ESCULTOR FRANCÊS EM DIÁLOGO COM FOTOGRAFIAS INÉDITAS DE […]

O PONTO DE PARTIDA DA NOVA MOSTRA DE EDGARD DEGAS, NO MASP, SERÁ A ESCULTURA BAILARINA DE CATORZE ANOS (1880), A OBRA MAIS ICÔNICA DO ARTISTA E UMA DAS MAIS EMBLEMÁTICAS DA HISTÓRIA DA ARTE OCIDENTAL DO SÉCULO 20. A EXPOSIÇÃO APRESENTA 76 OBRAS DO PINTOR E ESCULTOR FRANCÊS EM DIÁLOGO COM FOTOGRAFIAS INÉDITAS DE SOFIA BORGES

 

A arte não é o que você vê, mas o que você faz os outros verem”. Edgar Degas (1834-1917).

A célebre frase sobre o ofício do artista pode ser vista como chave para a leitura da mostra Degas, com curadoria de Adriano Pedrosa e Fernando Oliva, no MASP. Inserida no Ciclo das Histórias da Dança, eixo temático adotado pelo Museu nesse ano de 2020, a mostra conta com 76 obras de Degas, pertencentes à coleção do Museu e, ainda, traz fotografias de Sofia Borges, que, a convite do MASP, jogou seu olhar contemporâneo sobre essas peças. Assim, o exercício “do que você faz os outros verem” se apresenta em diversas camadas sobrepostas nessa exposição.

Depois do banho , 1899. © RMN-Grand Palais (Musée d’Orsay).

Revelemos as primeiras camadas. O que Edgar Degas mostra? Diferente dos amigos impressionistas Monet, Renoir e Pisarro, Degas não saía pelos campos com cavaletes e lonas em armação portátil. Ele trabalhava com o desenho de memória, retratando figuras e animais – especialmente cavalos na paisagem – o corpo humano de uma forma ousada e libertadora e, por fim, a vida moderna. Não é à toa que seu amigo, o poeta Stéphane Mallarmé, chamava alguns dos seus trabalhos de “estranha nova beleza” – abrindo parênteses: esse título foi atribuído à última exposição do artista, realizada, na primavera nova-iorquina de 2016, no MoMA.

Nu Masculino, 1856. Dominio Público.

Degas não se reconhecia como impressionista, apesar de ser presente no círculo desses pintores e ter sua produção classificada pela crítica generalista como tal. Ele se dizia um “realista”. De fato, a busca pelos efeitos da luz ao ar livre – um marco definidor do impressionismo – não era o ideal dele na arte. Degas era uma exceção incômoda aos críticos e até hoje fruto de polêmicas entre os historiadores da arte. Ele fez pinturas, gravuras, esculturas, fotografias e escreveu poesias. Seus trabalhos revelam memórias secretas. Neles, paira no ar uma percepção de passagem do tempo: as bailarinas parecem se mover; a fumaça sobe aos céus, o trem segue por seus trilhos, e das últimas monotipias emergem sombras que flertam com a abstração.

E o “pintor das bailarinas”, o que nos mostra? O apelido foi dado pelo amigo Édouard Manet e, com o tempo, tornou-se o adjetivo mais conhecido de sua obra. As bailarinas foram a verdadeira obsessão de Degas. Estima-se que o tema esteja presente em mais de 1.500 obras, entre óleos, pastéis, monotipias, desenhos e esculturas.

A Orquestra da Ópera, 1870. © RMN-Grand Palais (Musée d’Orsay)

E essa fixação pode ser explicada, ao menos, por três fatores. No primeiro, coloca-se a praticidade: o ateliê de Degas era muito próximo à Ópera de Paris – no século 19, um lugar para “ver e ser visto”. Os espetáculos atraíam aristocratas, artistas, mecenas, enfim, “todos aqueles que interessavam”. As bailarinas no palco eram encantadoras, mas as conversas privadas nos bastidores movimentavam a cena artística parisiense. Um segundo fator está relacionado justamente ao fascínio despertado pelas bailarinas. Elas eram “objeto de desejo” do mundo burguês: os coques, os figurinos, as poses, a disciplina, tudo que se remetia às jovens era sucesso de público – então, as telas de Degas eram igualmente requisitadas. Deixamos por último o fator mais assinalado na crítica sobre Degas: o interesse dele pelo corpo humano em atividade e em repouso – o senso de vida e movimento está no foco de suas atenções.

Quatro bailarinas em cena, 1885-90. Acervo MASP. Foto: João Musa.

No palco e nos bastidores, as bailarinas deram a Degas a chance do registro de acontecimentos “reais” – alguns deles sem qualquer glamour. Eram poses inusitadas, expressões aborrecidas, vistas das coxias, os olhares dos espectadores e a intimidade das meninas em cenas informais. O “aprisionamento do instante” é sensação adjacente. Apaixonado pela fotografia, à época, ele não hesitou em usar esse inovador recurso. Suas bailarinas tinham feições tão “reais” que eram reconhecidas pelo público. Famoso por sua falta de traquejo social – o que lhe deu a alcunha de “urso” –, Degas fotografou amigos, bailarinas e mulheres nuas. Essas fotos foram referências para as pinturas, desenhos e esculturas que ele fez.

Agora, o que a exposição Degas quer mostrar? Em um primeiro golpe de vista, tem-se a evidente relação do artista com o universo da dança – mote da programação deste ano. A última exibição do artista no MASP foi Degas, o universo de um artista, realizada em 2006. Naquele período, o Museu passava por momentos difíceis e reformas – algumas manchetes, como as da Folha de S. Paulo, anunciavam: “Exposição de Degas ilustra o tempo de crise vivido no MASP”. Eram comemorações de 60 anos do Museu ofuscadas pela instabilidade. Porém, a crise já vinha desde, ao menos, 1998, quando outra exposição, Degas em movimento, com curadoria de Luiz Marques, foi destacada pelo esgotamento institucional, com a manchete na mesma Folha de S. Paulo, “Bailarinas de Degas dão fôlego ao MASP.” Passados 14 anos, os tempos são outros. A adoção de eixos temáticos, como a história da sexualidade, histórias afro-atlânticas, histórias indígenas, histórias feministas, entre outros, têm despertado grande interesse para a programação do Museu.

Retrato de Henri Michel-Lévy, 1878.

E sobre a escolha das obras? Das 76 peças, 73 são bronzes, dois desenhos e uma pintura – todas integrantes do acervo do MASP. Sobre a coleção dos bronzes, três outros museus no mundo (D’Orsay, em Paris, Metropolitan, em Nova York e a Carlberg Gliptotek, em Copenhague) têm a coleção completa, como o MASP. Em 1921, quatro anos após a morte do artista, foram fundidas 22 coleções. Mais tarde, elas foram desmembradas entre acervos particulares e públicos. Em vida, Degas não exibiu publicamente esses trabalhos. O conjunto foi adquirido em Londres por Assis Chateaubriand e Pietro Maria Bardi, pela bagatela de 20 mil libras esterlinas (cerca de 140 mil reais) – hoje, estimam-se valores astronômicos para a coleção.

Bailarina de catorze anos, 1880. Acervo MASP. Foto: João Musa.

A peça-chave é declaradamente a Bailarina de catorze anos (1880). Vestida com saiote e um pouco maior do que as demais, essa escultura foi exceção ao ineditismo dos bronzes, sendo a única a ser exibida ao público pelo artista, na sexta exposição impressionista em 1881. Na ocasião, o bronze causou debate entre os críticos que o julgaram feio e primitivo – semelhante à espécime usada em medicina. A modelo era a estudante de dança Marie van Goethem, jovem pobre, da qual se tem exíguas informações biográficas. Ela nos lança para uma nova camada de entendimento da obra de Degas: o seu aspecto crítico, político e social. O fascínio pelas bailarinas e a abordagem estilística e formal, muitas vezes, encobrem a predileção do artista em retratar as mulheres trabalhadoras da vida moderna parisiense. Em suas obras surgem lavadeiras, passadeiras, modistas e as bailarinas – vindas de famílias operárias, eram jovens que buscavam ascensão social por meio da dança. O caráter político-social da obra de Degas promete ser aprofundado pelo catálogo Degas: dança, política e sociedade, organizado pelo MASP.

Sofia Borges, La Petite Danseuse #14, da série Ensaio para uma Escultura, 2020.

De propósito deixamos o exercício “do que você faz os outros verem”, de Sofia Borges. A artista tem empregado a fotografia, a performance e a curadoria em uma densa investigação sobre representação, linguagem e significado. Não deixa de ser curioso que a fotografia, outrora recurso frequente no fazer artístico de Degas, retorne à exibição contemporânea de suas obras. Borges fez fotografias em preto e branco dos bronzes em grandes dimensões. O intenso registro fotográfico ocorreu durante o ano de 2020, no acervo e na reserva técnica do Museu. O resultado final é algo transformador: um novo olhar sobre peças clássicas da coleção – algo revigorante que nos faz “ver”, de modo atual e imersivo, a obra de Degas.

Sofia Borges, Dança Escultórica #2, da série Ensaio para Degas, 2020.

Por fim, todos os pontos que levantamos sobre o artista, sua produção, suas preocupações e, sobretudo, alguns aspectos da exposição em cartaz no MASP formam camadas interpretativas sedutoras e, ainda sendo muitas, não representam as possibilidades do que pode ser visto. Fica aqui a certeza de que, como palimpsestos, suas obras abrem perspectivas para novos “modos de ver” – algo que o artista já previa quando ressaltou que a arte necessita de um pouco de mistério, imprecisão e fantasia. Fiquemos, então, com suas palavras: “quando você deixa o seu significado perfeitamente claro, você acaba entediando as pessoas”.

Sofia Borges, Dança Escultórica #3, da série Ensaio para Degas, 2020.

DEGAS • MASP • SÃO PAULO •

4/12/20 A 01/8/21

Alecsandra Matias de Oliveira é doutora em Artes Visuais pela
ECA USP (2008). Professora do CELACC ECA USP, membro
da ABCA e pesquisadora do Centro Mario Schenberg de
Documentação da Pesquisa em Artes. Autora do livro
Schenberg: crítica e criação (EDUSP, 2011).

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