Our Flag, 2017. © Ed Ruscha. Collection Jimmy Iovine and Liberty Ross

DASARTES 137 /

ED RUSCHA

EM SUA EXPRESSÃO PARTICULAR DA CULTURA POP, ED RUSCHA TIROU INSPIRAÇÃO DE SEU ENTORNO COTIDIANO, ENALTECENDO O PODER VISUAL DAS PALAVRAS E DA ARQUITETURA. SUAS EXPERIMENTAÇÕES AO LONGO DAS DÉCADAS FORNECEM UM PANORAMA DA DAS MUDANÇAS ESTÉTICAS NA SOCIEDADE, MOSTRANDO SUA AFINADA PERCEPÇÃO E CONVIDANDO-NOS A OLHAR MAIS DE PERTO E MAIS DE UMA VEZ

Rancho, 1968. © Ed Ruscha. The Museum of Modern Art, New York. Gift of Steven and Alexandra Cohen.

Ed Ruscha deixou Oklahoma City em 1956 para estudar arte comercial no Chouinard Art Institute (hoje CalArts), em Los Angeles. Enquanto seus cursos de design se concentravam em precisão e equilíbrio, suas aulas de belas-artes enfatizavam espontaneidade e gesto. “Eles diziam, ‘Encare a tela e deixe acontecer’”, lembra Ruscha. “Mas eu sempre tinha que pensar em algo primeiro.” O artista acabaria mesclando essas abordagens, organizando com precisão texto, imagens e materiais encontrados dentro de composições pintadas.

Uma série de viagens – uma viagem de carona pelo país, em 1954, e uma longa turnê europeia, em 1961 – aguçou sua atenção para sinalização, arquitetura e objetos cotidianos. De volta à Califórnia, Ruscha começou a representar palavras únicas e exageradas em empasto, destacando a forma das letras com camadas espessas de tinta. Esses “enunciados guturais”, como ele os chamava, incluem exclamações onomatopeicas (como “oof” ou “honk”), gírias populares e nomes de marcas. Originadas de quadrinhos e prateleiras de supermercados, as frequentes referências do artista à cultura do consumidor o alinhavam com o florescente movimento Pop Art.

OOF, 1962 (reworked 1963). The Museum of Modern Art,

 

PALAVRAS

New York e Large Trademark with Eight Spotlights, 1962. Whitney
Museum of American Art, New York. © Ed Ruscha.

Para Ruscha, as palavras “vivem em um mundo sem tamanho”. Infinitamente escaláveis, pode haver em uma fonte de oito pontos nas páginas de um livro ou dominar o espaço em outdoors. Em 1962, intrigado por sua monumentalidade imponente, Ruscha recriou o dinâmico logotipo do estúdio cinematográfico 20th Century-Fox em tela. A composição diagonal dramática da imagem – que ele chamou de “impulso horizontal” – se tornaria um dispositivo pictórico útil para o artista. “Eu podia ver que muitos temas poderiam se encaixar nesse formato”, refletiu. “Era como transmitir algo de um ponto minúsculo, expandindo-se além dos limites das coisas.” Semelhante à forma como essa pintura evoca a fanfarra que acompanha o logotipo na tela, outras obras desse período exploram as possibilidades sonoras da imagética visual.

“A arte tem que ser algo que faça você coçar a cabeça”, disse Ruscha uma vez. De fato, seu trabalho do meio da década de 1960 aborda temas familiares – palavras isoladas, objetos comuns, arquitetura à beira da estrada – e os transforma por meio de composições inovadoras ou intervenções surpreendentes. Uma estação de gasolina da Standard Oil, em Amarillo, Texas, por exemplo, é ampliada a partir de uma pequena fotografia em preto e branco no primeiro livro de artista de Ruscha e ampliada diagonalmente pela tela de uma grande pintura a óleo. O tratamento gráfico audacioso, o ponto de vista baixo e a perspectiva exagerada se tornaram parte de uma estratégia formal que o artista usava para monumentalizar o mundano. À medida que Ruscha se inspirava em seu entorno, Los Angeles começava a impregnar seu trabalho em várias mídias. Um de seus livros de artista captura os estilos arquitetônicos de prédios de apartamentos locais; outro apresenta uma fotocolagem contínua da Sunset Strip. Pontos de referência próximos são representados, mas em circunstâncias incomuns: o popular restaurante Norms, na La Cienega Boulevard, está em chamas, enquanto o icônico letreiro de Hollywood paira sobre uma paisagem aparentemente deserta.

 

LINGUAGENS

Self, 1967. The Museum of Modern Art, New York.

Em 1966, Ruscha iniciou um “romance com líquidos”. Continuando sua exploração material da linguagem, ele começou a representar palavras como poças viscosas. “Gosto da ideia de uma palavra se tornar uma imagem”, afirmou. “Quase saindo de seu corpo, depois voltando e se tornando uma palavra novamente.” Salpicadas em fundos degradê, as palavras são capturadas em um momento de legibilidade antes de sua suposta dissolução. Durante esse período, o artista também experimentou novas mídias, incluindo pólvora, que ele descobriu como alternativa superior ao grafite em pó, em 1967. Ele usou o material em desenhos de fitas dobradas em formas de letras cursivas, estreando mais um método para representar palavras. Elementos de ambas as séries – uma fluida, a outra inflamável – convergem espetacularmente nas poças e chamas que cercam o Museu de Arte do Condado, de Los Angeles, em uma pintura concluída em 1968. A composição dramática nasceu do desejo de Ruscha de retratar uma “coisa furiosa e ativa que está acontecendo em um pano de fundo muito tranquilo e pacífico”.

Los Angeles County Museum of Art on Fire, 1965-1968. © Ed Ruscha.

Standard Station, Ten-Cent Western Being Torn in Half, 1964. © Ed Ruscha.

Double Standard, 1966-1969. © Ed Ruscha.

MATERIAIS

Hollywood, 1968. The Museum of Modern Art, New York.© Ed Ruscha.

No final da década de 1960, Ruscha momentaneamente “parou de pintar quadros” para experimentar materiais orgânicos e não convencionais. “Em vez de aplicar uma camada de tinta em um suporte de tela, eu manchava a superfície”, explicou. “Era outra maneira de sair dessa caixa em que eu mesmo me pintei”. Abraçando a imprevisibilidade inerente a esse processo, ele aplicava desde goma-laca até seu próprio sangue no tecido e esfregava pétalas de rosa e tabaco mascado no papel. Quando Ruscha se comprometeu novamente com a pintura a óleo no final da década de 1970, ele exagerou as proporções horizontais de trabalhos anteriores. De acordo com o artista, as imagens panorâmicas resultantes “tornaram-se mais do que pinturas, tornaram-se objetos”. Ao incentivar os espectadores a caminhar ao lado delas para apreciar todos os detalhes, essas pinturas chamam a atenção para as dimensões dos suportes de tela, assim como obras anteriores exploraram as propriedades formais de substâncias incomuns.

Após um período de experimentação com materiais não convencionais, Ruscha voltou a usar meios tradicionais, como óleo e pastel, para pintar e desenhar fundos prismáticos cada vez mais complexos e coloridos. Eles evocam a grade cintilante de uma cidade à noite, a refração da luz em uma piscina e pores do sol brilhantes no Oeste dos Estados Unidos. No entanto, apesar de suas imagens sugestivas, Ruscha nega qualquer significado mais profundo, referindo-se a eles simplesmente como “cenários anônimos para o drama das palavras”.

The Music from the Balconies, 1984. Artist Rooms Tate and the National Galleries of Scotland. York. © Ed Ruscha.

Twentysix Gasoline Stations, 1962, printed 1969. Franklin Furnace Collection.
The Museum of Modern Art Library, New York. © Ed Ruscha.

Nesse período, o uso da linguagem por Ruscha em seu trabalho também evoluiu. Em vez de palavras isoladas, o artista começou a retratar sequências mais longas de texto, tiradas, segundo ele, “da memória, às vezes dos sonhos, às vezes ao ouvir rádio”. Expandindo o repertório de fontes de Ruscha, essas obras apresentam frases da literatura e do cinema, conversas ouvidas e terminologia encontrada em livros de ciências. Em outros exemplos, sua linguagem é mais autorreferencial, fazendo alusões humorísticas à sua ocupação como artista.

 

SÍMBOLOS

Jumbo, 1986. The Museum of Modern Art, New York.

O clima mudou no trabalho de Ruscha em meados da década de 1980, à medida que seu uso de cor e linguagem se tornou mais contido. A transição de tinta a óleo para acrílica, aplicada com aerógrafo, levou o artista a criar uma série de “quadros sem pinceladas”. Restringindo-se a uma paleta em grande parte preto e branca, o artista retratou temas retirados da história e da fantasia, como navios e elefantes, como silhuetas indistintas. Em vez de representações fiéis, esses motivos funcionam como símbolos. “O navio é minha interpretação de uma imagem de um navio, em vez de um navio”, disse Ruscha. “É como uma pintura de uma ideia sobre um navio.”

Brother, Sister, 1987. UBS Art Collection. © Ed Ruscha.

As superfícies em tons de cinza dessas obras lembram a fotografia e o cinema primitivos, que Ruscha explorou ainda mais ao pintar projeções de filmes em detalhes minuciosos, recriando o efeito de celuloide degradado por meio de arranhões simulados e pontos de poeira. Assim como essas marcas interrompem as composições, retângulos em branco ocasionalmente aparecem em outras obras desse período. Semelhantes a texto censurado, esses vazios representam tanto a linguagem quanto, como o artista sugeriu, “sugerem um espaço para um pensamento”.

 

MEMÓRIA

Blue Collar Trade School, 1992.

Blue Collar Tech-Chem, 1992. The Broad Art Foundation. © Ed Ruscha.

Um impulso para registrar a transformação de nosso ambiente construído ao longo do tempo fundamenta o Streets of Los Angeles Archive de Ruscha. Desde 1965, o artista e sua equipe têm fotografado continuamente várias avenidas e ruas em Los Angeles. Agora composto por 750 mil imagens, o arquivo foi adquirido pelo Getty Research Institute, em 2012, e tem sido um recurso importante para estudiosos que exploram temas que vão desde mudanças demográficas até a cena musical local.

As ideias frequentemente ocorrem a Ruscha na estrada, seja dirigindo nas congestionadas autoestradas de Los Angeles, ou pelas extensas montanhas e desertos do Sul da Califórnia. Inspirando-se nessa geografia variada, Ruscha introduziu novos motivos em relação a temas familiares em seu trabalho das últimas duas décadas e meia. Por exemplo, picos altos e cobertos de neve surgem nos fundos de suas pinturas com palavras – uma abordagem inovadora para sua contínua preocupação com linguagem e paisagem. Ruscha também representou meticulosamente detritos descartados e marcos à beira da estrada em obras que meditam sobre a passagem do tempo por meio de suas representações de acumulação e decomposição. “Sempre operei com uma espécie de método de recuperação de resíduos”, disse ele. “Recupero e renovo coisas que foram esquecidas ou desperdiçadas”. Mais do que uma mera descrição de seu objeto, essa declaração captura as maneiras como certas ideias foram revisitadas e reimaginadas por Ruscha ao longo de sua carreira de seis décadas.

The Old Trade School Building, 2005. Whitney Museum of American Art, New York. © Ed Ruscha.

Christophe Cherix é curador-chefe
de desenhos e gravuras da
Fundação Robert Lehman.

ED RUSCHA: NOW THEN •
THE MUSEUM OF MODERN ART • NOVA YORK •
10/9/2023 A 13/1/2024

Compartilhar:

Confira outras matérias

Flashback

FRANS HALS

Frans Hals pintava retratos; nada, nada, nada além disso. Mas isso vale tanto quanto o Paraíso de Dante, os Michelangelos, …

Do mundo

AMEDEO MODIGLIANI

Quase cem anos depois do encontro desses dois homens, em 1914, é interessante olhar de novo para um momento de …

Destaque

CAMILLE CLAUDEL

NÃO VIVAS DE FOTOGRAFIAS AMARELADAS

Camille Claudel

 

É possível enlouquecer por amor? Toda vez que se conta a história de Camille Claudel …

Alto relevo

ERWIN WURM

A certa altura, percebi que tudo o que me rodeia pode ser material para um trabalho artístico, absolutamente tudo. Para …

Alto relevo

ANA MENDIETA

ALMA EM CHAMAS: ANA MENDIETA “ARDE” NO SESC POMPEIA

Silhuetas em fogo é a sensacional exposição dedicada à Ana Mendieta, em …

Do mundo

HIROSHI SUGIMOTO

Em sua maioria produzidas com sua antiquada câmera de visão de madeira, as imagens de Hiroshi Sugimoto (Tóquio, 1948) destacam …

Flashback

CHAÏM SOUTINE

Chaïm Soutine (1893-1943) foi um artista com uma vida extraordinária. Criado em uma cidadezinha perto de Minsk, mudou-se para Paris …

Destaque

JARBAS LOPES

A natureza expande suas formas nas percepções dos que se aproximam dela. O artista Jarbas Lopes, com seu semblante de …

Do mundo

KEITH HARING

ARTE É PARA TODOS

Nascido em 1958, Haring cresceu em Kutztown, Pensilvânia, onde o pai, Allen, o ensinou a fazer desenhos …

Alto relevo

ALEX ČERVENÝ

MIRABILIA

Capere mundum. Ao observar tudo o que nos envolve, Alex Červený, artista e ilustrador nascido em São Paulo, com uma …

Flashback

SUZANNE VALADON

Eu desenhei loucamente para que, quando não tiver mais olhos, eu possa ver com as pontas dos dedos, explicou a …

Reflexo

SARAH LUCAS

Em HAPPY GAS, para a nova exposição de Sarah Lucas, no Tate Britain, são utilizados: banana, lâmpadas, concreto, peixes, carro, …

Destaque

Ana Holck

Os títulos das obras mais recentes de Ana Holck pressupõem um estado de ação, pois a representação do movimento é …

Do mundo

KEHINDE WILEY

As figuras de Wiley ocupam triunfalmente espaços culturais tradicionalmente reservados à realeza branca, ao clero ou à nobreza, enquanto ele …

Flashback

ANTONIO CANOVA

Nascido em 1757, na cidade italiana de Possagno, Antonio Canova (1757-1822) se formou principalmente em Veneza. Rapidamente conquistou elogios por …