Untitled, 1960.

DASARTES 94 /

DONALD JUDD

MOMA NOVA YORK INAUGURA A PRIMEIRA RETROSPECTIVA DE DONALD JUDD NOS ÚLTIMOS 30 ANOS E EXPLORA O TRABALHO DE UM ARTISTA QUE MUDOU O CURSO DA ESCULTURA MODERNA

Untitled, 1973

Untitled, 1989.

Nascido em Excelsior Springs, Missouri, Donald Judd (1928-1994) iniciou sua carreira como pintor abstrato em Nova Iorque, em meados da década de 1950. Já em 1962, começou a trabalhar com três dimensões e, em meados da década de 1960, começou a desenvolver um vocabulário distinto e intencionalmente linear, articulando objetos que ocupavam, como ele mesmo disse, “espaço real”.
A aparente simplicidade das obras de Judd há muito tempo suscita suspeitas sobre se são realmente “arte”, também por terem sido feitas conforme as especificações de Judd por fabricantes terceiros, e não por sua própria mão ou pelos assistentes de seu estúdio. A evidência do gesto pessoal está ausente, assim como qualquer referência direta ou simbólica à figura humana. Os materiais de Judd vêm de contextos industriais ou utilitários, e não de obras de arte. As cores são as originais de um determinado material ou aplicadas comercialmente para parecerem assim. Fundamentalmente, as obras desafiam suposições anteriores sobre a solidez e o peso da escultura. Eles se preocupam mais com o espaço do que com a massa: seus objetos implicam o espaço dentro, entre e em torno de suas unidades componentes.
Judd resistiu à palavra “escultura”, acreditando que suas inovações diferenciavam seu trabalho do precedente histórico. Qualquer que seja a terminologia, colocou a escultura na vanguarda da experimentação artística na década de 1960 e a retirou de sua posição de longa data como secundária à pintura.
As atividades de Judd ao longo de três décadas se estenderam muito além do campo da produção de obras de arte. Ele era um ensaísta prolífico, um inovador nas áreas de arquitetura e design, e profundamente comprometido com causas democráticas e ambientais. Meio século depois, as ramificações radicais da conquista de Judd continuam a se desenrolar.

INÍCIO, 1960-1963

Nos primeiros anos de sua carreira, Judd era mais visível como crítico de arte do que como artista, publicando quase seiscentas críticas de 1959 a 1965. Enquanto trabalhava como crítico – com um assento na primeira fila para observar e considerar as investigações de colegas artistas –, Judd intensificou gradualmente a tridimensionalidade de suas pinturas e começou a incorporar objetos encontrados – por exemplo, uma assadeira de metal.
Judd logo recrutou o pai dele, um carpinteiro habilidoso, para ajudá-lo a fazer relevos nas paredes e formas independentes em formato de caixa, usando madeira, metal e materiais provenientes de vendedores de entulho. “Passei muito tempo olhando em volta”, lembrou mais tarde. “Eu via um belo pedaço de tubo de alumínio ou uma tira de plástico na rua e comprava.” Em 1963, Judd estreou esses objetos em duas exposições coletivas e, em seguida, em uma exposição individual, na pioneira Green Gallery. A maioria das obras foi pintada com luz vermelha de cádmio, uma cor que Judd disse que escolheu porque “realmente torna um objeto nítido e define seus contornos e ângulos”.
Esses trabalhos, juntamente com desenhos de seus cadernos, fornecem um vislumbre do processo de pensamento que levou Judd de duas a três dimensões durante esse período crucial.

Untitled, 1960.

Untitled, 1963.

FABRICAÇÃO INDUSTRIAL, 1964-1965

Judd não estava totalmente satisfeito com o complicado processo de fabricação de seus objetos tridimensionais ou com a aparência caseira de suas superfícies de madeira pintada e materiais encontrados. Uma inovação ocorreu no início de 1964, quando o artista entrou na Bernstein Brothers Sheet Metal Specialities, uma loja perto de seu loft na East 19th Street. Judd descobriu que os metalúrgicos de lá podiam produzir seus objetos sob encomenda, trabalhando com suas instruções detalhadas para moldar obras de arte a partir das chapas que usavam normalmente para produtos como pias industriais e dutos de ventilação.
Nos meses intensamente frutíferos que se seguiram, Judd explorou vários novos formatos e materiais para as unidades finas e ocas fabricadas por Bernstein. Entre os primeiros objetos produzidos nesse período, está uma caixa de superfície dobrável, composta por três lados de acrílico âmbar fosco e duas placas de extremidade de aço, unidas pela tensão dos fios e esticadores interiores, e um trabalho de parede composto por quatro caixas de ferro galvanizado com as mesmas dimensões, conectadas por uma barra de alumínio azul. A primeira “pilha” de Judd: sete caixas de ferro galvanizado que se projetam da parede em uma coluna, separadas por espaços iguais à altura das caixas, tornou-se o formato mais conhecido de Judd, que ele continuaria a explorar em diferentes materiais, cores e tamanhos por quase trinta anos.

Untitled, 1967.

FORMAS ICÔNICAS, DÉCADA DE 1960

Judd teve sua primeira exposição individual em um museu em 1968, no Whitney, em Nova Iorque. A mostra apresentava um leiaute aberto de trinta objetos que apresentaram ao público o compromisso de Judd com formas básicas, livres de intenções metafóricas ou expressivas. Serviu para identificar Judd como líder de um movimento “minimalista” – um termo que ele repudiou – composto por artistas que compartilhavam uma estética reduzida, interesse em repetir formas e no uso de materiais e métodos industriais.
Além das “pilhas”, estavam incluídas as obras de parede conhecidas como “progressões”, que consistem em uma barra oca que conecta um número de unidades de caixa em forma de L cujos respectivos comprimentos (e, ao contrário, as distâncias entre elas) correspondem a uma matemática lógica como duplicação simples ou a sequência de Fibonacci (1, 1, 2, 3, 5, 8, 13, 21…). Essas progressões apresentam unidades com perfis arredondados. As peças de chão incluíam trabalhos da série “canal”, que compreendem uma sucessão de estruturas retangulares finas de aço, cuja área geral forma um quadrado perfeito. Em todos esses formatos, a lógica é autoevidente; o trabalho aparece mais como fato objetivo do que como expressão subjetiva. Judd repetiria esses formatos ao longo de sua carreira em inúmeras combinações de várias cores e materiais, cada nova iteração possuindo um caráter único.

NO LOCAL, década de 1970

No início da década de 1970, Judd começou a envolver o espaço de novas maneiras, fazendo trabalhos que respondiam aos parâmetros específicos de uma determinada sala. Nas instalações das galerias, bem como nas peças encomendadas para determinados locais internos ou externos, investigou as maneiras pelas quais um objeto define o espaço que ocupa. Começou a trabalhar em madeira compensada, um material acessível e utilitário (disponível em grandes folhas) que ressoava com a natureza arquitetônica de seu trabalho. Judd também começou a fazer peças de várias unidades, como o trabalho de 21 partes, em que cada unidade tem uma configuração única.
Essa evolução da escala das obras e a referência ao local corresponderam a uma mudança dramática nas circunstâncias de Judd: ele estava iniciando sua prática em Marfa, uma pequena cidade no Texas que viria a se tornar referência em arte contemporânea graças ao museu e ao programa de residência criados por ele. Ali, Judd adquiriu prédios e terrenos grandes o suficiente para satisfazer sua necessidade de espaço para situar sua arte. Nas duas décadas seguintes, ele estabeleceu instalações permanentes de seu trabalho e colegas selecionados, no que considerava um contraponto necessário às exibições temporárias em museus.

Untitled, 1976-1977.

NOVAS DIREÇÕES, décadas de 1980 a 1990

Ao longo de sua carreira, Judd manteve a atenção de um pintor para cor. As cores inerentes de seus materiais – a variedade de marrons, cinzas, dourados e pratas nativas de aço, ferro, cobre, latão, alumínio e madeira compensada – ofereciam uma paleta expansiva, que ele aprimorava com tubos de luz colorida, tinta aplicada industrialmente e folhas de acrílico ricamente coloridas. Até a década de 1980, no entanto, Judd limitava cada um de seus trabalhos a uma ou duas cores.
A obra de Judd teve uma virada decisiva em 1984, quando ele começou a trabalhar com a Lehni AG, uma fabricante suíça de produtos de alumínio. As obras multicoloridas resultantes, inspiradas na tecnologia disponível na Lehni, são caixas abertas rasas, de alumínio dobrado, viradas para o exterior. O alumínio foi revestido em pó nas cores selecionadas na tabela de cores RAL, um recurso padronizado para uso comercial e industrial.
Judd organizou as cores para alcançar o equilíbrio geral, evitando padrões. “Eu queria que todas as cores estivessem presentes de uma vez”, disse ele mais tarde. “Eu não queria que elas combinassem. Queria uma multiplicidade que eu não conhecia antes de uma só vez.”

Untitled, 1991.

Untitled, 1989.

HxBxT: 21 x 409 x 21 cm; Eloxiertes Aluminium; Inv. G 1976.17

Ao mesmo tempo, Judd continuou a experimentar novas ideias para suas formas icônicas, investigando novas estruturas cromáticas e espaciais dentro de suas caixas de metal e madeira compensada. Ele também estava profundamente envolvido com sua escrita, seus projetos para edifícios e novas comissões. No momento de sua morte por câncer, em 1994, aos 65 anos, ainda havia muito a ser feito.


Ann Temkin é curadora de

arte americana, pintura e
escultura no Museu de Arte
Moderna de Nova York.

DONALD JUDD: JUDD •
THE MUSEUM OF MODERN ART •
NOVA YORK • 01/3 A 11/7/2020

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