Oath, 2013. Foto: © Deana Lawson

DASARTES 110 /

DEANA LAWSON

A ARTISTA DEANA LAWSON FOTOGRAFA SEUS MODELOS COMO FIGURAS CLÁSSICAS DA HISTÓRIA DA ARTE. SUA FORÇA ESTÁ NAS RUPTURAS DA ENCENAÇÃO. ELA EXTRAI IMAGENS PODEROSAS DAS REALIDADES DA VIDA NA DIÁSPORA AFRICANA

Kingdom Come, 2015.
Foto: © Deana Lawson

“A fotografia tem o poder de fazer a história e o momento presente falarem um com o outro”.

Deana Lawson

 

Exposição de novas e recentes obras da artista americana Deana Lawson, vencedora do Prêmio Hugo Boss 2020, estarão em exposição no Museu Solomon R. Guggenheim, em Nova York. A mostra incluirá fotografias em grande escala e hologramas. Selecionada por um júri de críticos e curadores internacionais, Deana é a 13ª artista a receber o prêmio bienal, criado em 1996 para reconhecer realizações significativas na arte contemporânea. As obras da fotógrafa também farão parte da 34ª edição da Bienal de São Paulo, de setembro a dezembro deste ano.

As imagens de Deana estão enraizadas em um momento do mundo tangível, mas, em última análise, existem no tremeluzir espaço intermediário de sonhos, memórias e comunhão espiritual, onde o cotidiano é transfigurado no estranho e no magnífico. Suas fotografias e filmes geralmente resultam de colaborações com estranhos que a artista encontra por acaso ou procura deliberadamente. Esses indivíduos são frequentemente retratados em ambientes domésticos ricamente texturizados em que os detalhes de decoração, iluminação e pose são precisamente coreografados. Dessa forma, Deana se baseia nos legados do retrato histórico, fotografia documental e álbum de família, mas transcende essas tradições, construindo cenas que fundem experiência vivida com narrativas imaginadas.

Nation, 2017. Foto: © Deana Lawson

A estética e a conectividade intergeracional da diáspora negra guiam a escolha do tema. As forças regenerativas da natureza e o ciclo da vida humana, desde o nascimento até a morte, são temas permanentes, com cada uma de suas obras tomando seu lugar em um projeto abrangente que se alinha com o que ela denomina “uma família extensa mitológica em constante expansão”. Um exame atento de suas composições revela a presença de portais, adornos e objetos devocionais que evocam a proximidade de um reino invisível. Essa sensação do celestial é intensificada por imagens de fenômenos naturais sublimes, como galáxias e cachoeiras, e nos casos em que o brilho de um indivíduo parece queimar a superfície da própria obra. Os trabalhos de Deana também demonstram uma atenção especial ao elemento luz, como fundamental para o processo pelo qual as fotografias são produzidas, e uma manifestação da divindade que permeia seus modelos. Recentemente, Lawson começou a produzir seus trabalhos em molduras espelhadas, que refletem a luz exterior e materializa uma troca entre seus sujeitos e o espectador; em suas palavras, eles funcionam como “um forro reflexivo entre os mundos, o que é ‘visto’ na fotografia e o que ‘vê’.”

Sons of Cush, 2016. Foto: © Deana Lawson

Nesta exposição, fotografias em grande escala, algumas das quais embutidas com hologramas, estão dispostas em uma densa constelação que envolve uma representação espectral de um toro – uma forma tridimensional formada por um círculo girado em torno de um eixo central. Como tal, a instalação se baseia no conceito termodinâmico de centropia, um termo que descreve como a eletrificação da matéria leva à regeneração e à ordem harmoniosa. O mesmo impulso de renovação por meio da energia criativa é central para a visão de Deana, na qual seus temas são considerados inefavelmente esplêndidos, ocupando um mundo que eles comandam de forma absoluta.

 

 

NOVAS RAINHAS E REIS

Chief, 2019. Foto: © Deana Lawson

Ele se autodenomina “Chefe” e usa joias de ouro grossas. Mas o trono deste rei é um sofá volumoso. Uma velha cortina entra no quadro, um Jesus pálido está pendurado nas paredes sujas. O “chefe” é negro.

As fotos de Deana inegavelmente poderiam ser mais atuais. Black Life Matters é a frase usada para lutar contra o racismo em todo o mundo.

Deana é afro-americana e nasceu em 1979, em Rochester, Nova York. Ela chama as pessoas de suas fotos de “reis e rainhas deslocados da diáspora”. Ela visitou comunidades africanas no Brasil, Etiópia, Jamaica e EUA, falou com pessoas na rua, fotografou-as em seus apartamentos, muitas vezes nuas. Por exemplo, Daenare. A mulher grávida está deitada em uma escada de pedra sem corrimão. Seu olhar é direcionado diretamente para a câmera, o padrão floral do piso continua em sua tatuagem. Deana encena sua protagonista em formato de pintura como um dos nus clássicos da história da arte. Mas um detalhe não pode ser esquecido: o tornozelo. Que foto tremenda.

Daenare, 2019. Fotos: © Deana Lawso

Daenare, 2019. Fotos: © Deana Lawson.

“Quero que as fotos fiquem bem juntas para que os retratados possam se proteger”, disse Deana pouco antes da abertura da exposição Centropy no Kunsthalle Basel, em junho de 2020. Dois dias depois, um policial branco segurou o joelho dele no pescoço de George Floyd por sete minutos e 46 segundos. O interesse do público nesta exposição era enorme. Porque nessas fotos fica claro mais uma vez: a violência policial, a injustiça, e a pobreza.

AS FOTOS RESISTEM À ACUSAÇÃO DE CLICHÊ

Há tanto que se poderia falar nas fotografias de Deana: sobre as referências à pintura clássica, sobre o ponto cego na história da arte no trato com a cultura negra, sobre a visão do corpo feminino. Ou sobre a função das cortinas em suas fotos. Mas o que torna essas imagens tão extraordinárias é a arte de Deana de usar a encenação para mostrar a realidade ou, melhor dizendo, para torná-la tangível. Uma mulher nua na cama de seu falecido marido. Uma avó com seus três netos no colo. Por que ela parece tão jovem? Onde está a mãe? E por que as paredes são pintadas de vermelho-sangue?

Barrington and Father, 2021.
© Deana Lawson

As fotografias de Deana também são um jogo de estereótipos, e isso não é totalmente isento de problemas. Com suas exposições no passado, ela gerou debates repetidos sobre se os clichês não estavam sendo reproduzidos aqui. Mas as fotos se opõem a isso: por mais que os interiores sejam desleixados às vezes, os personagens neles são clichês: tudo o que Deana sempre captura é o orgulho das pessoas. As mulheres de Deana nunca parecem realmente nuas, mesmo que estejam. Ou, como diz a curadora Elena Filipovic: “Lawson devolve à vida negra a inteligência, a beleza e o brilho que ela merece”.

A artista, que mora em Nova York, não para apenas no meio da fotografia. Ela enriquece sua produção com trabalho em vídeo em que se misturam música tribal, cultura hip-hop e gravações de manifestações. E a escolha das molduras, como dito antes, também é especial: o apreciador se reflete nelas.

Mama Goma, Gemena, Dr. Congo, 2014. © Deana Lawson

Signs, 2016. Foto: © Deana Lawson

Young Grandmother, 2019. Foto: © Deana Lawson

Deana possui um corpo de trabalho que, devido à sua estrutura conceitual rigorosa, tem sido difícil de definir. Mas, em sua reformulação dos tropos da história da arte e sua ênfase na ternura e intimidade, a estética de sua fotografia provou ser influente. A premiada escritora Zadie Smith escreveu certa vez sobre a fotografia de Lawson: “Os negros não são concebidos como vítimas, problemas sociais ou exóticos, mas, sim, como o que Deana chama de ‘seres criativos e divinos’ que não ‘sabem o quão milagrosos são’”.

DEANA LAWSON: HUGO BOSS PRIZE 2020 • GUGGENHEIM •
NOVA YORK • 7/5 A 11/12/21
34ª BIENAL DE SÃO PAULO • 4/9 A 5/12/2021

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