Two Bathers, 1958. © Estate of David Park. Foto: John Wilson White.

DASARTES 96 /

DAVID PARK

AOS 38 ANOS, DAVID PARK (1911-1960) ABANDONOU DIVERSAS DE SUAS TELAS EXPRESSIONISTAS ABSTRATAS NO LIXÃO DA CIDADE E COMEÇOU A PINTAR “FIGURAS”. UMA DECISÃO RADICAL QUE MUDOU O CAMINHO DA ARTE FIGURATIVA DA REGIÃO DE SÃO FRANCISCO NOS ANOS 1950. ESSAS COMPOSIÇÕES OUSADAMENTE EXECUTADAS REVELAM UM ARTISTA PROFUNDAMENTE CONECTADO À EXPERIÊNCIA HUMANA E, NO AUGE DE SEUS PODERES, VALORIZANDO AS QUALIDADES EXPRESSIVAS E SENSUAIS DA TINTA PURA

Brush and Comb, 1956. © Estate of David Park;
Courtesy Natalie Park Schutz, Helen Park Bigelow, and Hackett Mill, San Francisco

David Park criou um corpo de trabalho surpreendente em sua vida tragicamente curta, deixando uma marca duradoura no que viria a ser talvez a maior contribuição da região de São Francisco, Califórnia, para a história da arte: Arte Figurativa da Área da Baía.
Park passou a maior parte de sua vida adulta em São Francisco e nos arredores. Era um professor amado na Escola de Belas Artes da Califórnia e na Universidade da Califórnia, Berkeley, e profundamente envolvido com a comunidade de artistas da Área da Baía. As pinturas poderosas que ele fez na década que se seguiu sua dramática despedida da abstração reuniram seu interesse de longa data em assuntos clássico – como retratos, interiores domésticos, músicos, remadores e banhistas – com uma exuberante manipulação gestual de tinta e um extraordinário senso de cor. Entre 1958 e 1959, Park alcançou seu pico expressivo, aproveitando as qualidades sensuais da tinta para criar telas intensamente físicas, psicologicamente carregadas e profundamente sentimentais. Nesse período fértil, encurtado pela doença em 1960, Park transferiu sua energia criativa para outros meios, quando não conseguia mais trabalhar com telas. Nos últimos meses de sua vida, acamado, ele produziu um notável pergaminho de 9 m de comprimento de caneta com ponta de feltro e uma série pungente de guaches.

Two Bathers, 1958. © Estate of David Park. Foto: John Wilson White.

Studio Sink, 1956. © Estate of David Park; Courtesy Natalie Park Schutz, Helen Park Bigelow, and
Hackett Mill, San Francisco; Foto: JKA Photography.

UMA FIGURA COMO UM EVENTO

A obra de Park, quase toda figurativa, é geralmente considerada tendo dois capítulos principais: “precoce” e “maduro”. Os primeiros trabalhos, raramente exibidos, abrangem a década de 1930 e a maior parte da década de 1940, a partir da época em que o jovem inglês, ainda adolescente, chegou à Área da Baía, onde residiu a maior parte de sua vida adulta. Em meados da década de 1930, suas pinturas não eram tão diferentes de outras obras de contemporâneos talentosos da região. No final da década e ao longo dos anos da guerra, sua abordagem se tornou cada vez mais estilizada. O trabalho maduro pelo qual o artista é mais conhecido data da década de 1950, depois que ele tomou a decisão radical de abandonar a abstração e retomou uma prática centrada na figura, um movimento que, em poucos anos, galvanizou seus colegas Elmer Bischoff e Diebenkorn e levou ao surgimento da Arte Figurativa da Área da Baía.

Four Men, 1958. © Estate of David Park; Courtesy Natalie Park Schutz, Helen Park Bigelow, and
Hackett Mill, San Francisco.

O que torna a década final do trabalho de Park tão diferente das duas primeiras é o impacto do expressionismo abstrato. Como quase todo instrutor ou aluno associado à escola, Park explorou a abstração. Mas, gradualmente, ficou tão insatisfeito com seu trabalho subjetivo que deixou quase tudo em um lixão local e começou de novo. A reintrodução enfática da figura de Park em sua prática em meados do século levou ao desenvolvimento, nos anos 1950, de um espaço pictórico, desassociado às tendências dominantes da arte, na qual ele integrava uma percepção profunda do tema e o potencial expressivo de seus meios de uma maneira sem precedentes na arte americana.
David Park era um desenhista natural, seus dons para criar a forma humana foram bem estabelecidos durante seus anos de infância em Boston, onde nasceu em 1911. Por iniciativa própria, teve um primeiro êxito com a venda de uma pintura de paisagem aos 14 anos. Para a consternação de sua altamente educada família da Nova Inglaterra, Park fez tudo o que pôde durante a adolescência para evitar a vida acadêmica e, em vez disso, se concentrar na arte.
O treinamento formal de Park foi mínimo o suficiente para que ele fosse essencialmente autodidata. Aos 17 anos, deixou o colégio interno em Connecticut sem se formar para se juntar à tia dele, a pintora Edith Truesdell, em Los Angeles, onde teve aulas no Instituto de Arte Otis por dois anos, até concluir que “não aprendia coisa alguma lá”. Mudou-se para Berkeley na primavera de 1929, e desembarcou prontamente no epicentro de uma comunidade efervescente de artistas. O primeiro trabalho de Park foi ajudar o escultor Ralph Stackpole em figuras monumentais de pedra para o exterior do novo edifício art déco da Bolsa de Valores de São Francisco. Como artista que trabalhava diariamente produzindo moldes de gesso para esculturas de figuras, ele internalizou o peso e o volume dos corpos humanos. Realismo lhe convinha. Era hiperobservador, podia visualizar e descrever a forma de todos os ângulos possíveis, e podia executá-la rápida e habilmente, em duas dimensões ou três.
E seguida, na década de 1930, a maioria das obras de Park se relaciona mais de perto com a vida atual, com moradores urbanos que ocupam seus próprios espaços emocionais. Um conjunto de telas finamente pintadas de 1935 – Mãe e Filho, Boston Common, Garota pela Janela e Êxodo (A escadaria) – são cenas regionais bastante típicas. Essas pinturas mostram a inclinação de Park por composições com um turbilhão de energia em seus centros, descrevendo indivíduos ou grupos, dentro ou fora de casa.

The Patio, 1956. © Estate of David Park; Courtesy Natalie Park, Schutz, Helen Park Bigelow, and Hackett Mill, San Francisco. Foto: Jeff McLane.

Park Schutz, Helen Park Bigelow, and Hackett Mill, San Francisco.
Rehearsal, ca. 1949–50. © Estate of David Park; Couurtesy Natalie.

FIGURAÇÃO: ANOS 1950

Apenas uma semana antes da estreia de Rehearsal (1949 a 1950), na primavera de 1950, a primeira das novas telas figurativas de Park a serem exibidas publicamente, o artista foi solicitado a falar sobre a direção atual da pintura da Área da Baía para um artigo. “Abstrações de forma livre geram polêmica nesta área: líderes de novas escolas, conhecidos como ‘espíritas’ e ‘borrões’, contam teorias.” Das telas abstratas de seus semelhantes, Park observou que “muitas de suas preocupações não são muito diferentes das preocupações de um bom pintor representacional”, sugerindo apenas obliquamente as mudanças em seu próprio estúdio. Uma mudança tão drástica na abordagem, da abstração a temas do mundo real, parecia inconcebível. Somente gradualmente seria entendido menos como uma reviravolta em resposta ao expressionismo abstrato do que uma extensão ou consequência dele.
No ano seguinte, quando o Kids on Bikes foi exibido em um dos Anuários da San Francisco Art Association (SFAA), ficou claro que Park estava falando sério. Os colegas de Park acharam o novo trabalho antitético ao que eles entendiam como pintura de vanguarda, descrevendo-o como tudo, desde “desaprovador” ou “falta de coragem” até “renúncia”. Uma exceção foi Sam Francis, cuja obra também fazia parte da mostra: “A França está 10 anos atrás de NY e S.F. na pintura… a pintura de Park parece muito boa – muito parecida com seu trabalho não objetivo em substância”.

Kids on Bikes, 1950. © Estate of David Park.

Os temas de Park durante seus primeiros anos de nova pintura figurativa, enquanto ele ainda estava no corpo docente da CSFA, eram tipicamente domésticos ou vernaculares – momentos comuns da memória visual ou imaginação do artista. Muitas das pinturas de Park da primeira metade da década de 1950, como em Sem título (1953-55), situadas do lado de fora de uma barbearia, e Sem título (Garota em uma cerca) (1953), evocam o início da década de 1950 americana, apontando ao mesmo tempo para o isolamento. Emocionalmente, como em uma pintura de Edward Hopper, quase se pode entrar na experiência das figuras de primeiro plano em The Bus (1952), Tournament (1953) ou Boston Street Scene (1954), uma tela coberta com “vermelho Coca-Cola”.

Boston Street Scene, 1954. © Estate of David Park. Foto: David Blank.

Park usava com frequência campos de cor para permitir que elementos díspares tivessem coerência, algo visto com mais regularmente em suas telas depois de visitar uma retrospectiva de Matisse no SFMA, em 1952. Diebenkorn, mais tarde, falaria sobre a predileção de Park por profundidade espacial: em vez de cobrir suas superfícies de forma a enfatizar sua forma plana, ele exibia uma “atitude rebelde em estourar o plano da tela”. Gostava do alcance até o fundo, como em As meninas, de Velásquez. Adorava trazer uma figura bem, bem à frente e estender a profundidade, como em Boy and Car (1955).

Boy and Car, 1955. © Estate of David Park. Courtesy Natalie Park Schutz, Helen Park Bigelow, and Hackett Mill, San Francisco.

“É emocionante para mim tentar obter algumas das qualidades do sujeito, seja calor, vitalidade, dureza, ternura, solenidade ou alegria em uma imagem.” Lydia era uma musa regular e versátil. Park “tirava fotos com sua mente”, como descreveu a filha Helen, e depois pintava a esposa tomando café, cochilando, lendo ou costurando, como no terno Retrato de Lydia costurando (1955). As pinturas assumem a forma de retratos mais tradicionais, como na trabalhada Head of Lydia (1956), que provavelmente começou como um autorretrato antes de ser raspada, pintada e sujeita a várias revisões até alcançar seu estado final. Head of Lydia, ca. 1956.

Head of Lydia, ca. 1956. © Estate of David Park; Courtesy Natalie Park Schutz, Helen Park Bigelow, and Hackett Mill. Foto: Ben Cressy.

Em 1957, embora a abstração continuasse a prevalecer nas exposições locais, havia energia suficiente em torno da nova pintura figurativa para sustentar uma mostra institucional. A Pintura Figurativa Contemporânea da Área da Baía, organizada pelo curador Paul Mills, do Oakland Museum, contou com cinco obras de Park, entre outros colegas. Uma das principais telas de Park foi Interior (1957), uma área toda de malva cintilante com duas figuras, uma mulher deitada e um homem sentado desenhando. Embora a figura feminina seja encurtada, Park deixa mudanças dramáticas em escala e perspectiva para trás, desenvolvendo seu fascínio por padrões e limites com um efeito particular. As listras vermelhas e brancas abaixo de Lydia dão vida o lado esquerdo, e as janelas altas permitem céu azul e a luz do dia em um espaço austero.

Interior, 1957. © Estate of David Park; Courtesy Natalie Park Schutz, Helen Park Bigelow, and Hackett Mill. Foto: Joshua Nefsky.

As observações de Park no catálogo do Oakland Museum refletem uma facilidade nova em sua prática: “À medida que envelhecemos, percebe-se que você é você mesmo – que seu trabalho não é se forçar a um estilo, mas a fazer o que você deseja. Vi que, se eu aceitasse retratar figuras, poderia pintar com mais absorção, com certo entusiasmo pelo assunto, permitindo que algumas das qualidades estéticas, como cor e composição, evoluíssem com mais naturalidade. Nos temas reais, a diferença é que sinto um desenvolvimento natural da pintura em vez de formal e autoconsciente.”
A morte de Park em casa, em Berkeley, em 20 de setembro de 1960, aos 49 anos, marcou a perda de um talento de época – um artista cuja exploração persistente ao longo de três décadas culminou em um corpo de trabalho de poder e humanidade sem precedentes. O movimento figurativo da Área da Baía que ele iniciou prosperou até os anos 1960 e continua sendo um dos desenvolvimentos mais significativos da história da arte americana e, sem dúvida, a contribuição mais distintiva da Área da Baía para ele.
Paul Mills certa vez calculou que, se David Park tivesse vivido até a velhice, ele não seria apenas um velho incrível, mas também haveria outras mil e quinhentas telas de Park no mundo. Porque, é claro, ele continuaria pintando.


DAVID PARK: A RETROSPECTIVE •

SFMOMA • SÃO FRANCISCO •
EUA • 11/4 A 7/9/2020

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