DASARTES 89 /

Daniel Senise

DANIEL SENISE reúne pela primeira vez, no Instituto Tomie Ohtake, um conjunto significativo de trabalhos pouco vistos ou inéditos que apresentam intervenções sobre ampliações fotográficas. Em exclusiva para a Dasartes o artista escolheu cinco obras da sua trajetória para descrever seu processo de inspiração e criação.

 

O BEIJO DO ELO PERDIDO  E QUASE INFINITO

Quase infinito, 1992

Entre 1991 e 1992, fiz duas telas aparentemente bem distintas que desde então me parecem sintetizar o momento de prospecção que vivi nesse período. Eu trabalhava no meu ateliê durante o dia e às vezes pintava à noite no quartinho dos fundos de minha casa. Em casa, pintei uma tela com uma figuração beirando o surrealismo, dois crânios de pássaro encaixados pelos bicos.

Na minha experimentação mais estruturada no ateliê, realizei um trabalho com uma imagem construída com o óxido que se desprendeu de pregos em um processo de oxidação induzido. Quando essa tela ficou pronta dei o título de Quase infinito pela composição. A tela produzida em casa ficou alguns meses na parede como um não trabalho até o dia em que encontrei um título para ela, O beijo do elo perdido.

 

EVA

Eva, 2008-2009

Durante quatro meses, entre 2008 e 2009, montei uma fábrica de tijolos no Centro Cultural São Paulo. Eles foram produzidos com os impressos de arte do próprio CCSP. Todas as semanas, à medida em que os tijolos secavam, fui levantando paredes em torno da escultura Eva, de Victor Brecheret.
Ao final da exposição, a escultura estava completamente oculta, mas ainda era possível ver Eva pelas frestas entre os tijolos.

2892

2892, 2010

Em 1996, em uma viagem de carro, eu tentava definir a essência do meu trabalho e a partir daí realizar uma obra sem usar as mãos. Quando voltei ao Rio, fiz contato com o Instituto Nacional do Câncer na Lapa e combinei uma doação de lençóis para o hospital. A proposta era que eles fossem devolvidos ao final de suas vidas úteis.

Com a ajuda da minha assistente Daniela Labra, fiz a mesma proposta para um motel que ficava no bairro de Laranjeiras. O proprietário, que se chamava Jesus, não entendeu muito bem, mas concordou em colaborar. Alguns meses depois, eu tinha uma boa quantidade de lençóis usados na UTI do hospital do câncer e nas camas do Hotel Serrano. Pareceu-me que, apenas pelo fato de ter feito esses escambos, eu tinha apaziguado um desejo e daí guardei os lençóis.

Com passar do tempo, os lençóis cada vez mais pareciam fazer parte do meu trabalho e, em 2010, quando fui convidado para expor na Casa França Brasil, finalmente o montei. Consistia no confronto entre dois brancos, os lençóis do INCA e os lençóis do Serrano. O número do título 2.892 se refere ao público estimado de pessoas que passaram por essas duas superfícies e o texto da exposição foi da Daniela Labra, que havia se tornado curadora.

ARRANJO EM CINZA E PRATA

Arranjo em cinza e prata, 2019

Em 2011, fui convidado pela Secretaria de Cultura do Rio de Janeiro para fazer um painel para o teatro Villa-Lobos que, depois de alguns anos fechado, estava passando por uma renovação completa.

No final desse ano, quando estava quase pronto, o teatro sofreu um incêndio que destruiu praticamente tudo. Logo na sequência, fui aos escombros e recolhi uma boa parte dos carpetes incinerados que tinham sido instalados pouco antes do incêndio.

Agora em 2019 montei no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, o trabalho Arranjo em cinza e prata, composto pelos carpetes incinerados em um painel de alumínio polido.

O teatro Villa-Lobos continua fechado e sem previsão de reabertura.

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