DASARTES 83 /

Cristiano Mascaro

SESC Pinheiros apresenta panorama do fotógrafo brasileiro CRISTIANO MASCARO que tem na arquitetura das cidades um dos eixos fundamentais de sua obra. Ao mesmo tempo, 20 fotografias evocam as possíveis presenças que permeiam as paredes do antigo Hospital Matarazzo, em mostra na Cidade Matarazzo. O artista fala à Dasartes sobre o processo de inspiração e criação de cinco de suas fotografias.

CARREGADORES DE SACOS DE FARINHA – BAIRRO DO BRÁS – SÃO PAULO – 1977

Foi a partir desta fotografia de dois rapazes que descarregavam sacos de farinha de um caminhão estacionado em uma rua do bairro do Brás que descobri a emoção de retratar pessoas. Caminhando pela região em torno do Mercado Municipal, reparei na movimentação de trabalhadores no árduo ofício de carregar nas costas pesados sacos de farinha de um caminhão para o interior de um depósito. Instantaneamente, veio-me à cabeça a ideia de retratar aquelas pessoas. Um pouco intimidado naquele ambiente estranho para mim e já me sentindo observado com curiosidade, avancei e me dirigi aos dois dizendo de chofre: “Vocês são figuras maravilhosas e eu gostaria de fotografá-los”. Não sei como eles entenderam a minha frase, pois, imediatamente, iniciou-se aquela algazarra dos outros trabalhadores ao nosso redor (“Vão sair na Playboy”, etc). No entanto, aquele clima perturbador, a partir do momento em que os dois concordaram em posar para mim, transformou-se em uma atmosfera mágica. Como se estivéssemos protegidos por uma redoma de vidro, isolados daquela barulheira, pude fazer o retrato. Recostados na parede de entrada do depósito, um deles colocou seu cotovelo nos ombros do outro e com os corpos cobertos de farinha, aproximaram-se, naquele instante, das formas de estátuas gregas.

SALA NEGRA NO HOSPITAL MATARAZZO – SÃO PAULO – 2014

Em 2013, surgiu uma encomenda de trabalho entusiasmante: realizar a documentação fotográfica do Hospital Matarazzo um edifício abandonado por mais de 20 anos. Esse tipo de tarefa sempre me interessou desde a época em que comecei a fotografar o patrimônio arquitetônico brasileiro no início da década de 2000, quando desenvolvi um “método” para não me perder no meio do caminho. Passo a dar voltas no edifício para ter noção mais exata de sua dimensão; vasculho os interiores, observo as luzes internas que penetram pelas portas e janelas. Tento também gravar o caminho do sol para anotar os melhores momentos para fotografar as fachadas. Feito isso, até parece que iniciarei o trabalho de forma planejada e metódica. Aquele estudo preliminar, no entanto, serve apenas para me dar segurança de onde estou, mas não para onde vou. Inicio o trabalho normalmente pelo interior, não digo de forma aleatória, mas guiado pelas surpresas com que me deparo caminhando pelos corredores, pelas luzes que penetram pelas janelas, pelos desafios de entrar em salões na penumbra que algumas vezes provocam temores. Dessa maneira errante, encontrei-me neste salão negro que confirma a regra de que somos movidos por espantos.

BASÍLICA DE SÃO PETRÔNIO – BOLONHA – ITÁLIA – 2016

A fotografia da Basílica de São Petrônio, em Bolonha, faz parte de uma série de registros de obras de arquitetura a que venho me dedicando nos últimos anos. Durante muito tempo, meu trabalho esteve voltado à observação de aspectos mais amplos da paisagem urbana. Procurava registrar o cenário das cidades a certa distância, normalmente do alto de edifícios ou de elevações proporcionadas pelo relevo de certa região. Buscava também retratar as ruas do ponto de vista das calçadas, as fachadas das casas e, sobretudo, seus interiores. Com o passar do tempo, percebi que a permissão para subir na laje dos prédios não dependia mais da camaradagem dos zeladores; entrar nas casas para fotografar suas salas de visitas se tornou impossível e, o que representa uma perda enorme do lado humano da fotografia, as pessoas hoje em dia têm pavor de serem retratadas. Tendo em vista essa mudança no comportamento da vida urbana, voltei-me para a documentação de obras de arquitetura em um gesto de reverência a esses monumentos que, espalhados pelo mundo, representam marcos nítidos da evolução, ao longo dos séculos, do conhecimento humano.

CHICHU ART MUSEUM – NAOSHIMA – JAPÃO – 2017 – ARQUITETO TADAO ANDO

Sempre estou à busca de imagens surpreendentes que a arquitetura pode oferecer. Seja em observações a certa distância, ou em seus detalhes, como aconteceu nesta fotografia realizada no Chichu Art Museum, em Naoshima, no Japão. Lugar também conhecido como “ilha dos Museus”, quase todos projetados por Tadao Ando, sabia que boas surpresas me aguardavam. O Chichu Art Museum era meu principal interesse não só por sua arquitetura, como também porque abriga em uma grande sala iluminada zenitalmente, três grandes pinturas de Manet. Sabiamente, Tadao Ando projetou esse museu de forma que não cheguemos às obras de Manet de forma rápida e óbvia. O arquiteto o fez a fim de que caminhemos por um suave e nada opressivo labirinto antes de chegarmos à sala mágica de Manet. Nesse percurso, pequenas frestas, escadas que nos levam de um patamar a outro, espaços a céu aberto, corredores e rampas onde fendas no concreto permitem a entrada de rasgos de luz, aos poucos vamos percebendo que a hora do encontro com o gênio de Manet está próxima. Foi nesse caminhar preparatório para se chegar à obra do artista, que percebi que estava diante de mais uma imagem surpreendente que a arquitetura nos oferece.

O CANTEIRO DE OBRAS – CIDADE MATARAZZO – SÃO PAULO – 2018

Fotografar o cenário das obras em andamento do projeto da Cidade Matarazzo para uma exposição nos espaços ainda em estado de abandono do Hospital Matarazzo, tornou-se um desafio duplo. Não só o de obter imagens características de uma obra sem que fossem literais, como também expô-las em um ambiente “poluído” e caótico de um edifício abandonado. Quanto às fotografias, tentei criar imagens praticamente abstratas, mas que, por pequenos detalhes ou texturas, sugerissem aspectos de uma obra de construção civil. Dessa forma, entre algumas imagens que obtive pensando em uma exposição, selecionei esta na qual se destacam os reflexos da luz do sol nas placas de madeira das formas que irão moldar uma laje. Sempre penso que imagens que surpreendem são aquelas que à primeira vista não se revelam imediatamente, mas somente após alguns segundos de reflexão do observador. Quanto ao desafio de enfrentar o espaço pouco convencional para uma exposição, imaginei que as fotografias devessem ter grandes dimensões e serem colocadas em perspectivas estudadas para se confundirem com as próprias paredes e espaços do lugar em uma espécie de metalinguagem.

Cristiano Mascaro • O que olhos alcançam • SESC Pinheiros • São Paulo • 29/3 a 23/6/2019
Cristiano Mascaro • Alma • Cidade Matarazzo • São Paulo • 2/4 a 29/4/2019

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