Entrevendo: CIldo Meireles. Exposição Sesc Pompeia. Crédito: Carol Mendonça

DASARTES 90 /

Cildo Meireles

Sesc Pompeia reúne 150 obras criadas por CILDO MEIRELES entre os anos 1960 e os dias de hoje, no maior acervo do artista já exposto na América Latina. Nome único na história da arte brasileira, Meireles fala à DASartes sobre o processo de inspiração e criação de 5 obras de sua trajetória de mais de 50 anos.

ESPAÇOS VIRTUAIS: CANTOS, 1967-1968/2008/2013

Minhas ideias nascem de maneiras diferentes, por razões diferentes. Às vezes, um pequeno detalhe ou um fato: eu costumo chamar isso de relâmpago. O primeiro relâmpago você não sabe exatamente o que é, o tamanho, o corpo… assim como, aos 8 anos, eu presenciei uma figura feminina sair de um canto da parede e se aproximar da minha cama.

Cronologicamente, esses são meus primeiros projetos e maquetes, iniciados em 1967. Eu comecei a fazê-los no Rio de Janeiro, em uma pequena carpintaria na Rua Joaquim Silva, nos fundos de um “bequinho”, em Santa Tereza, e depois os levei de lá para Paraty, onde eu tinha alugado uma casa em julho de 1968. Em seguida, eu voltei para o Rio de Janeiro e os trouxe de caminhão.

A primeira peça de Espaços Virtuais: Cantos, ficou no acervo do MAM quando eu ganhei o prêmio no Salão da Bússola, em 1969, e pegou fogo quando houve o incêndio em 1978. Toda essa série de espaços virtuais, para mim, é importante.

 

DESVIO PARA O VERMELHO, 1967-1984

Foto: Eduardo Eckenfels. Cortesia do artista e Galeria Luisa Strina

Outro desses relâmpagos que passou pela minha cabeça, em 1967, foi em uma sala onde, por razões que não é necessário explicar, alguém começou a mobiliar com objetos da mesma cor. Nunca levei adiante, até o final de 1981, quando uma curadora americana me convidou para uma exposição com quatro artistas  brasileiros e fui chamado para a Bienal São Paulo, que queria um trabalho em grande escala. Comecei a consultar minhas anotações e vi que tinham três peças que haviam sido pensadas isoladamente, mas que mantinham um nexo entre si. Primeiro, era esse ambiente de uma única cor, uma coleção de coleções: a coleção que está na escrivaninha, a coleção que está na estante, no guarda roupa, na geladeira, que eu chamo de (Impregnação). Um dos outros dois projetos, de 1978/1979, é essa garrafa caída por terra e uma poça desproporcional à capacidade da garrafa espalhada pelo chão, com uma grande mancha (Entorno). Finalmente, um outro trabalho que era essa pia com a torneira aberta e aquele jato d’água (Desvio).

Eu comecei a pensar que essas três obras tinham algo em comum que me interessou, que é um aspecto de “falsa lógica”. Anedoticamente, a garrafa poderia explicar o que havia acontecido na sala, porque ela tinha tintas da mesma cor dos objetos ali, mas, na verdade, ela introduzia a noção de horizonte perfeito, com o liquido em repouso. Você avança pelo corredor e lá está tudo escuro e só tem essa pia no fundo, e lá você encontrava o primeiro contato com a peça toda: era o som da água que sai do aparelho de TV, que era a água da torneira, justamente. Tinha circularidade. Eu decidi a cor, escolhi o vermelho, e foi isso que virou o Desvio para o Vermelho, hoje em exposição permanente no Instituto Inhotim.

INSERÇÕES EM CIRCUITOS IDEOLÓGICOS: PROJETO CÉDULA, 1970-2019

Em 1970, as inserções em circuitos ideológicos nasceram como um texto. Logo quis dar esse tipo de exemplo de ocorrência e nasceram o projeto Cédula e o projeto Coca-Cola. Gravar essas mensagens nesses circuitos que existem no interior da sociedade, ou seja, posições individuais diante de macroestruturas industriais ou institucionais. Esse é um trabalho importante, e foi exposto pela primeira vez em uma mostra aqui na Petite Galerie e, simultaneamente, no Museu de Arte Moderna de Nova York, em uma exposição que depois tornou-se muito importante, chamada Information, no verão de 1970.

Depois de feito o trabalho, eu fiquei me perguntando “o que eu queria fazer?”. Dúvidas assim, tipo de adolescente… Esse é um trabalho, por exemplo, que eu nunca vendi. Ele apenas circula, passa por indivíduos. Quando eu tenho uma proposta ou consulta de alguma instituição, eu faço uma doação. Eu considero que o trabalho só existe quando ele está sendo feito por alguém, recolocando-os em circulação.

EUREKA BLINDHOTLAND, 1970-1975

No início dos anos 1970 eu comecei a me dedicar a projetos que eram quase o oposto dos anteriores, de uma escala muito grande e, ao mesmo tempo, direcionados para visitantes, um de cada vez, pelo tempo que quisesse. O que é meio impossível, mas essa é a utopia dessas peças grandes: você poder ficar sozinho com aquela proposta.

Eureka é constituída de 3 partes: a primeira é a Blindhotland, que é uma série de esferas. No MAM do Rio, em 1975, eram 201 esferas de borracha com o mesmo tamanho, mas com pesos diferentes, de 500 a 1500 gramas.

Eureka, de 1970, é a cruz de madeira e as duas barras de madeira que ficam repousados em uma balança de dois pratos. Apesar de terem tamanhos muito semelhantes, há mais madeira em um dos pratos, mas a balança não pende para nenhum lado. Depois tem as Inserções, que são imagens ligadas a um fenômeno da psicologia, que é a sensação que ocorre quando você se compara com um objeto – neste caso, uma bola – e, simultaneamente, você se vê muito grande e a bola muito pequena e, ao mesmo tempo, a bola muito grande e você muito pequeno, os dois muito pequenos, os dois muito grandes, enfim… essa simultaneidade de sensações de diferentes escalas. E ainda na instalação, há o som dessas esferas de diferentes pesos caindo de diferentes alturas e diferentes distâncias.

E tem mais outros dois trabalhos relacionados ao Eureka Blindhotland. Um é o Caso de Sacos, que são 6 sacos de 500gr, 1kg, 2kg, 3kg, 5kg e 10kg. Eles eram ensacados em uma ordem diferente, por exemplo: do menor para o maior e tendia a uma coisa bidimensional, e do maior para o menor criando um volume, depois todos dentro do saco menor, e assim por diante, com todas as combinações possíveis, e todas com o mesmo peso, porque, embora casa saco tenha peso diferente dos outros na aparência externa, em cada arrumação, o peso total é a soma do peso de todos os sacos.

E por último o Blindhotland Gueto, que eu não fazia desde 1975, quando eu mostrei pela primeira e única vez no Rio. São bolas de basquete, futebol, futsal, vôlei, mas preenchidas com quatro elementos. Começa com areia, a outra tem estopa, a terceira, de vôlei, tem ar e a de futsal, a menor, tem gás hélio, que a faz flutuar. Elas vão intercambiando também de forma e peso, que é o contrário das esferas do Eureka Blindhotland.

AMERIKKKA, 1991-2013

Amerikka é sobre a violência em geral. Foi um projeto que eu desenvolvi a pedido de uma galeria em Madri em 1991. Tem um parentesco com outra instalação, o Missão/Missões, que é aquela tenda de notas, e também com Olvido, aquela cerca de velas; elas foram pensadas em uma espécie de equação muito direta.

Amerikkka é essa tensão entre uma ideologia e um solo real. Composta por 20mil ovos de madeira e 70mil projeteis de dois calibres, o visitante fica entre o pisar em ovos no chão e a rajada de balas no teto. O KKK (Ku Klux Klan) é uma organização terrorista de extrema direita, que prega a supremacia branca e comete atos violentos e assassinatos. Eu projetei para essa exposição de Madri, que acabou não acontecendo. Logo depois, em 1992, eu fui procurado por Walter Harsmusten, que estava produzindo uma grande exposição sobre a chegada dos europeus à América. Ele viu este projeto em um pequeno protótipo que eu tinha, com balas de revolver, e se interessou, mas quando finalmente conseguiu levantar a grana para produzir, eu estava embarcando para a Documenta de Kassel e acabou não acontecendo. Ele iria fazer tudo em madeira, porque é uma burocracia muito grande conseguir balas de verdade, tinha que passar por várias instâncias. O projeto ficou engavetado, como acontece com muitos deles: surge a ideia, mas não tem a realização imediata. Muitos deles tem duas datas: a data da primeira anotação e a data da primeira realização. Acabei só realizando este projeto em 2013, em uma sequência de exposições no Reina Sofia, na Espanha, no Museu de Serralves, em Portugal, e no museu Hangar Bicocca, na Itália.

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