Toda utopía pasa por la barriga, 2024

Toda utopía pasa por la barriga/All Utopia Goes Through the Belly I, 2024. Foto: Julia Thompson
“Toda utopía pasa por la barriga é uma instalação na qual trabalhei de 2008 a 2024. Trata-se de um grande conjunto de potes de vidro que contém maquetes de madeira de edifícios imaginários, pedras de diferentes tipos e ingredientes alimentícios – cereais, óleos, frutas, verduras. Vendo com a perspectiva dos anos, percebo que, por mais de uma década, fiz desenhos e obras em vinil adesivo sobre manta de corte que funcionavam como brevíssimos ensaios do que mais tarde viria a se tornar essa instalação. Acredito que a experiência que vivemos mundialmente com a crise da Covid-19 foi o gatilho para escolher esse formato final de instalação, para finalmente decidir produzi-la…
Os frascos de vidro funcionam como cápsulas que impedem o intercâmbio com o mundo exterior; sua transparência revela o conteúdo como se fossem componentes de laboratório. Uma espécie de estrutura hierárquica de poder lança luz sobre a atual crise humanitária/alimentar, intensificada depois da pandemia e das guerras recentes, e sobre a disputa contemporânea pelos alimentos básicos.
Em cada lugar onde esse trabalho é exibido, os elementos perecíveis são substituídos por frutas ou bebidas locais: em São Paulo, temos cachaça, farofa, goiaba; nas Ilhas Canárias, bananas; em Paris, alho-poró e macarons; nas Ilhas Baleares, amêndoas e umas bolachas típicas chamadas quelitas… Cada cidade é representada de modo que seus habitantes a reconheçam – e se reconheçam – na obra.”
Sin título (Cayuelo), 2018

Sin título/ Untitled (Cayuelo), 2018. Foto: David Bonet.
“Há vários anos eu venho trabalhando em uma série de fotografias murais em preto e branco de diferentes edifícios de Havana, acompanhadas de desenhos em linha que deveriam completá-los.
Partindo de certos pontos das impressões, esses desenhos isométricos completam a estrutura dos prédios, as torres metálicas e as construções, com a intenção de lidar com o par imaginação/realidade, e também com escultura, arquitetura e desenho urbano. O sentido dessas instalações fotográficas é refletir sobre os limites entre o Real e o Fictício: de um lado, a fragilidade e a ilusão do desenho em linha; de outro, a realidade impactante desses edifícios-fantasma.
Todos os edifícios que aparecem nas imagens já não existem. Fotografei muitos deles há vários anos; outros, mais recentemente, mas todos desabaram ou foram demolidos nos últimos anos.
Cayuelo era um famoso restaurante situado em um pequeno ilhéu entre as praias de Guanabo e Boca de Jaruco, em Havana. Construído em meados do século 20, era um destino frequente para o turismo local, e a zona também era conhecida, à noite, como ponto de encontro gay numa época em que não existiam as mesmas liberdades de hoje. Tirei a foto num dia em que visitei o local e constatei seu estado de ruína; fiz então um desenho com alfinetes e fio que, ao contrário dos habituais na série – que “trazem de volta” um edifício já desaparecido –, convertia o lugar em uma espécie de animal quase abstrato, uma aranha, um emaranhado desproporcional de caos que se lançava sobre aquilo que um dia foi um lugar paradisíaco no imaginário da vida habanera.”
From the Series Puzzles: Perro negro, 2024

From the Series Puzzles: Perro negro, 2024. Foto: Oak Taylor.
“A série fotográfica Puzzles se insere na minha investigação sobre a natureza da imagem fotográfica e sua essência documental. As imagens de edifícios em ruínas em Havana, Bogotá, Nova York ou Cidade do Cabo se desconstroem em peças de um quebra-cabeça de solução impossível, cujo documento se revela ficção pelo viés do jogo.
Tive a ideia dessa série assistindo ao filme Cidadão Kane, especificamente a uma cena em que a esposa do magnata da imprensa está quase enclausurada em seu palácio, e a única forma de escapar daquele clima de opressão – daquela jaula de ouro – é completando quebra-cabeças que se convertem em um mundo imaginário e passam a integrar o sonho escapista da personagem, conduzindo-nos, através deles, a lugares por ela desejados e distantes da realidade que a cerca.
Na minha obra, esses Puzzles perpetuam o ato fotográfico: por um lado, captam o momento específico da desaparição de um edifício na memória coletiva; por outro, constituem uma tautologia do desmonte de uma realidade que se desfaz em pedaços. É o auge do par permanência/impermanência (entendida aqui como ruína).
Nesta imagem em particular, eu estava observando o edifício em ruínas do lado direito da rua, tentando encontrar um acesso para fazer fotos, quando um cachorro preto atravessou a rua e ficou parado bem no meio por um bom tempo. Do edifício residencial eu nunca tive muitas referências: não era fácil nomeá-lo, a vegetação havia tomado as salas, antigos banheiros, restos de cozinhas. Assim, aquele pequeno cachorro me ajudou a nomear o edifício: “a foto do cachorro preto”. Mas, na verdade, trata-se da foto da história de um imóvel e das famílias que ali viveram – uma história de ruína, de inação, de fracasso…”
Atropa belladonna (Belladonna), 2025

Atropa belladonna (Belladonna), 2025. Foto: Oak Taylor.
“Esta obra faz parte de um novo grupo de trabalhos que consiste em fotografias impressas diretamente sobre madeira, posteriormente intervindas com pintura a óleo e outros meios. Nelas, retomo meu interesse em estabelecer um diálogo entre a imagem fotográfica, a matéria pictórica e a natureza da cidade. Por meio do uso do óleo como elemento disruptivo e narrativo, busco encontrar novas formas de expansão visual, conceitual e material.
A cidade é atravessada por ficções que desafiam a lógica do urbano e do racional. A pintura aparece como uma linguagem paralela que favorece a coexistência entre o real e o imaginado. A série é composta por cenários arquitetônicos nos quais irrompem animais, formas orgânicas, plantas carnívoras e estruturas fictícias, inseridas na fotografia como comentários visuais, criando uma suprarrealidade em um jogo de substituições.
Belladona, como seu nome indica, sugere um jogo entre voluptuosidade e morte, entre beleza e ruína, entre veneno e analgésico. Seus usos ao longo da história a colocam como veneno, narcótico, cosmético, analgésico ou afrodisíaco. Não me ocorre planta “guerreira” mais apropriada para recuperar o território que a cidade roubou da natureza e agora, em franca decadência, é por ela abraçado e engolido.
É um retrato de uma cidade enferma de vícios políticos, guerras ou pandemias, desafios que só podemos enfrentar a partir de uma análise profunda da nossa vida em conjunção com a natureza e com nossos ecossistemas imediatos.”


