
As asas, 2015. Fotos: Galeria Nara Roesler.
Analisar o discurso da exposição Virá, de Bruno Dunley, em meio a uma desconcertante pandemia, requer compreender a dinâmica de produção de sentidos inserida nos suportes continentes da expressão do artista.
As paredes da Galeria Nara Roesler se revestem de convites à reflexão, mediados pelos gestos fortes e incisivos, apresentados em diálogo direto, provocado pela disposição das telas em uma configuração que conduz a um percurso de graduais desestabilizações e à sensação de que é necessário rever o conjunto após cada quadro.
O artista, jovem, carrega na bagagem o “Projeto Piauí”, a experiência junto ao Grupo 2000e8, as angústias de quem precisa lidar com a pretensa morte da pintura e seu renascimento, a realidade da constante formulação de novos vocabulários eletrônicos digitais emuladores de imagens.

Sem título, 2014. Foto: Galeria Nara Roesler
Nesse turbilhão, os tons de cinza, antes marcantes, cedem espaço em Virá a uma profusão de cores, fruto do otimismo em contraponto ao caos ordinário que Bruno Dunley evoca ao selecionar as obras para a mostra.

O Fuzileiro, 2019. Foto: Galeria Nara Roesle
Em Fuzileiro, a visão em detalhe (Figura 4) descortina um espaço interpretativo que dilui o conflito e lança luz, na medida em que parece conduzir o olhar para um futuro, ainda que distante e precedido por formas mais ou menos complexas que preenchem o intervalo entre os planos perspectivos.
Uma chamada mais intimista à decifração se apresenta nos pequenos formatos (29,7 x 21 cm) cravados de letras que se destacam por sua característica gráfico-visual, sem remeter, diretamente, ao léxico, como acontece em Agenda (2017) e Bombshel (2018).

Agenda, 2017. Foto: Galeria Nara Roesle

Bombshel, 2018. Foto: Galeria Nara Roesle

Picadilha, 2019. Fotos: Galeria Nara Roesler
A narrativa mostra um momento de ebulição, capaz de provocar uma dança dos sentidos, alternando a flicagem de cores complementares com o equilíbrio cromático, desafiando o fluxo lógico aristotélico do pensamento.
Aquilo que poderia indicar uma leitura óbvia, leva de súbito ao desvio instigado ora pelo título ora pela cortina de matizes que parecem transparecer um “não sei quê” de provocação, como ocorre em Picadilha (2019).

Virá, 2020.
Em um breve vídeo em que comenta Virá, Bruno Dunley destaca que são três os eixos centrais que o alimentaram na produção e seleção dos trabalhos expostos: o deslocamento, o conflito e a expansão. Os conceitos fundadores por ele propostos mesclam trajetórias pessoais, de seu universo micro, ao campo macrossocial, tomando como partido as mudanças, os ruídos e as interferências, a liberdade criativa que vai ganhando consistência com a maturação de seus exercícios pictóricos ao longo dos anos.

Jokerman, 2019. Fotos: Galeria Nara Roesler.
Jokerman (2019) reúne traços de musicalidade e formas que, coringas, oferecem pistas de leitura desse grupo de composições unidas antes pela diferença e pelo distanciamento do que pela contiguidade.
Virá (2020), por sua vez, tela que dá nome à mostra, condensa a transição entre os estados de alma do artista, sintetiza as qualidades pictóricas adquiridas, ao mesmo tempo em que revela uma construção metódica de um fundo-base filigrânico, ponto de partida para o roteiro proposto (Figura 9).
O motivo central se abre, explode de forma rizomática em direção às bordas da tela, em uma ilusão de movimento resultante do aumento do volume expressivo e da liberação de energia que a fricção entre o figurativo e o abstracionismo – formal e informal – propiciam.
Um encontro de ideias com potencial ígneo, materialidade loquaz e provocadora possibilitam a fruição pelos caminhos abertos por Bruno Dunley, para além dos momentos escorregadios que nos afligem e rumo aos azuis que hão de voltar.
Lilian França é Pós-Doutorado em
História da Arte pelo IFCH/UNICAMP e
membro da ABCA e da AICA
BRUNO DUNLEY: VIRÁ •
GALERIA NARA ROESLER • SÃO PAULO •
30/09 A 21/11/2021


