Entierrodel Museo Nacional, 1991. Collection Galerie E’Museo. © Beatriz Gonzalez.

DASARTES 156 /

BEATRIZ GONZALEZ

A OBRA DE BEATRIZ GONZÁLEZ OCUPA UM LUGAR SINGULAR NA HISTÓRIA DA ARTE LATINO-AMERICANA. INSPIRADA PELOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO DE MASSA, A ARTISTA CRIA UM DIÁLOGO ENTRE NARRATIVAS POPULARES E A PINTURA FORMAL. SUA PRÁTICA TRANSFORMA ÍCONES DA ARTE UNIVERSAL PELO OLHAR DO GOSTO POPULAR E SE APROPRIA DE IMAGENS DA IMPRENSA POR MEIO DO DESENHO, DA PINTURA, DA GRAVURA E DA ESCULTURA

Nací en Florencia y tenía veintiséis años cuando fue pintado mi retrato, 1974. © Beatriz Gonzalez.

A artista colombiana Beatriz Gonzalez nasceu em Bucaramanga, Colômbia, em 1938. Iniciou seus estudos em arquitetura, mas os abandonou para se graduar em Belas Artes, em 1962.

Gonzalez cresceu em um período muito conturbado politicamente – na Colômbia dos anos 1940 e 1950, período conhecido como “La Violencia”, em que cerca de 200 mil pessoas foram mortas em conflitos políticos. Segundo a artista, esse contexto acabou refletindo em parte de sua produção.

Zócalo de la tragedia, 1983. © Beatriz Gonzalez.

Zócalo de la comedia, 1983. © Beatriz Gonzalez.

Nos anos de 1960, a artista começou a movimentar sua pesquisa para uma planificação das formas e das cores e, a partir de então, a crítica passou a olhá-la, mesmo a contragosto de Gonzalez, como artista da pop arte. Em contrapartida, a crítica de arte Marta Traba estabeleceu que não havia condições para a existência do pop nesse período, até porque não havia nessa época uma sociedade de consumo em grande escala, como em outras nações. Posteriormente, ela escreveria nos seus artigos que se estabelece uma noção de “pop local”, conectando os trabalhos da artista com os de Carlos Rojas e Judith Márquez – portanto, esse termo ganhou cada vez mais recorrência.

Bolívar a grandes rasgos, 1969-1976. © Beatriz Gonzalez

Antonia Santos, Sesquicentenario S.A.,1969. © Beatriz Gonzalez.

Não havia condições para a existência do pop nesse período.

Gimnasio Bacatá, 1968. © Beatriz Gonzalez.

Independentemente de quais rótulos afixar à produção de Beatriz Gonzalez, é imprescindível analisar algumas de suas características marcantes. A partir dos anos 1960, sua pintura parte de apropriação de imagens midiáticas de notícias de jornais, ícones de televisão e da arte. Como no caso da emblemática “The Suicides of Sisga”, em que ela retrata um casal que apareceu no noticiário depois de cometer suicídio ao pular no rio de Sisga. O interessante desse processo é que, ao utilizar de imagens midiáticas (ou “imagens técnicas”, segundo o filósofo Vilém Flusser), temos uma natureza de reprodutibilidade e circulação – refletindo o sensacionalismo e a criação de ícones através da imprensa nacional.

Los papagayos. Banco de Archivos Digitales de Artes en Colombia – BADAC

BG Televisor Color, 1980. © Beatriz Gonzalez.

Empalizada, 2001 Foto: Juan Camilo Segura © Beatriz González.

Outro trabalho relevante na sua carreira é o La ultima mesa, um dos primeiros em que a artista utilizou a intervenção em objetos e móveis. Nessa obra, Gonzalez se apropriou de uma mesa, e no tampo dela colocou uma releitura simplificada de A última ceia, obra icônica de Leonardo da Vinci, apresentando uma apropriação da cultura ocidental dentro de uma perspectiva de um país da América do Sul.

La ultima mesa, 1970. © Beatriz Gonzalez.

Santa copia, 1973. © Beatriz Gonzalez.

Na época em que esses trabalhos estavam sendo criados, havia uma predileção para o expressionismo abstrato norte-americano. Apesar de sua participação na Bienal de São Paulo em 1971, a produção de Beatriz Gonzalez não era relevada pela crítica e mesmo Marta Traba, uma das críticas de arte responsáveis pelo posterior reconhecimento da artista, enxergava aqueles objetos e pinturas como uma arte marginal.

Recentemente, exposições retrospectivas pelo mundo vêm se esforçando para enxergar a produção de Gonzalez através de outra epistemologia; não mais pela ótica da história da arte ocidental, mas pela forma como sua produção se insere e sintomatiza todo o contexto histórico social da Colômbia – ao refletir essas imagens de guerra, cotidiano, violência circuladas pela mídia. Parafraseando a própria artista, que afirmava que “a arte diz coisas que a história não pode dizer”, as novas curadorias convidam a perceber na arte de Gonzalez um testemunho histórico de seu tempo.

Los suicidas del siega III, 1965. Foto: Óscar Monsalte. Blanco de Archivos Digitales de Artes en Colombia – BADAC. © Beatriz Gonzalez.

BEATRIZ GONZALEZ: A IMAGEM EM TRÂNSITO
• PINACOTECA DE SÃO PAULO •
REINO UNIDO • 30/8/2025 A 1/2/2026

Allan Yzumizawa é bacharel
em Artes Visuais pela
Unicamp, atua como curador
independente e pesquisador
em arte contemporânea.

As matérias assinadas são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião da Dasartes.

 

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