Mito, 2018

DASARTES 107 /

AUGUSTO DE CAMPOS

A BIBLIOTECA MARIO DE ANDRADE, A PRINCIPAL E MAIS ANTIGA DA CIDADE DE SÃO PAULO, TORNOU-SE UM ESPAÇO DE CELEBRAÇÃO DA OBRA DE AUGUSTO DE CAMPOS EM COMEMORAÇÃO AO ANIVERSÁRIO DE 90 ANOS, EM 2021, DO POETA, ENSAÍSTA, TRADUTOR E ARTISTA. Desde o começo do ano, a Biblioteca Mario de Andrade vem abrigando uma série […]

A BIBLIOTECA MARIO DE ANDRADE, A PRINCIPAL E MAIS ANTIGA DA CIDADE DE SÃO PAULO, TORNOU-SE UM ESPAÇO DE CELEBRAÇÃO DA OBRA DE AUGUSTO DE CAMPOS EM COMEMORAÇÃO AO ANIVERSÁRIO DE 90 ANOS, EM 2021, DO POETA, ENSAÍSTA, TRADUTOR E ARTISTA.

Sem saída, 200/2009

Desde o começo do ano, a Biblioteca Mario de Andrade vem abrigando uma série de exposições em torno da produção de Augusto de Campos, como “Poema cidadecitycité pela cidade”, que gira em torno do poema que o artista escreveu para São Paulo. O poema cidadecitycité (1963) é uma obra-prima da poesia verbivocovisual. O conceito foi apropriado de James Joyce, pelo grupo Noigandres – formado por Augusto, Décio Pignatari e Haroldo de Campos – e, em linhas gerais, ressalta uma preocupação simultânea do criador com as dimensões verbais, sonoras e visuais dos poemas ou obras. Uma definição que está atrelada à poesia concreta brasileira e às experimentações de suportes e ferramentas adotados pelos componentes do grupo. O resultado poético de cidadecitycité é regido pela aleatoriedade artística de un coup de dés, de Stéphane Mallarmé, do readymade de Marcel Duchamp e das composições sonoras de John Cage.

Tudo está dito, 1974

Entre as décadas de 1960 e 1970, cidadecitycité foi impresso como cartão dobrável em diferentes versões, mesmo período em que o poeta gravou distintas leituras sonoras. No entanto, foi a partir dos anos 1980 que o poema literalmente saiu dos suportes tradicionais e se tornou obra de arte. Primeiro como uma escultura de 70 metros, montada na fachada do edifício da Bienal de São Paulo, depois como gravação musical espacializada, realizada em parceria com o filho Cid Campos, que serviu de base para o vídeo editado nos anos 1990. Em 2016, na exposição REVER, o poema audiovisual foi apresentado em um painel de LED com mais de oito metros de comprimento, no corredor de entrada do SESC Pompeia.

Luxo, 1965/2019

Esta é uma das muitas versões apresentadas na exposição “Poema cidadecitycité pela cidade”. A obra em LED – instalada na fachada da Biblioteca Mário de Andrade, no centro de São Paulo, cidade central da poesia concreta – ganha a dimensão de um site specific verbivocovisual. Uma obra que, apesar de nunca ter sido instalada ali, sempre pertenceu ao espaço. Criações de distintos tempos celebram o presente e, no interior da Biblioteca, na Sala Tula Pilar Ferreira, outra exposição, denominada Transletras, exibe uma série de cartazes inéditos de Augusto.

Quasar, 1975-1991

No fim dos anos 1960, a tipografia passou a ser um dos principais campos de interesse do artista-poeta. As fotocomposições, incluindo aqui as “fotoletras”, começaram a ser amplamente utilizadas pelo meio gráfico com o advento do offset. Também o transfer, ou letras transferíveis, tornou-se ideal para impressão de pequenos textos e passou a ser largamente utilizado por designers e publicitários. No Brasil, as fontes transferíveis disponíveis eram principalmente as da empresa inglesa Letraset, nome pelo qual ficaram conhecidas.

Pulsar, 1975

Augusto viu naquele arsenal tipográfico uma verdadeira babel de possibilidades para organizar visualmente seus poemas. As dezenas de fontes disponíveis, carregadas de signos embutidos nas formas, traços e curvas dos variados desenhos das letras, impulsionaram o fazer criativo do poeta. Em 1974, Augusto realizou as primeiras experiências utilizando letraset para compor seus poemas, e seguiu recorrendo à ferramenta de forma constate até 1985.

Transletras, 1974, 1985

A exposição Transletras reúne essa produção na íntegra, pois o não recorte foi o caminho curatorial escolhido. Encontra-se exposto todo o material garimpado desse período relativo ao letraset, incluindo os pôsteres formalizados, estudos e manuscritos inéditos. Ao todo, foram produzidos cerca de 50 cartazes, diferentes versões de aproximadamente 40 poemas, entre autorais e traduções, amparados pela facilidade de experimentar possibilidades compositivas com rigor formal.

Viva Vaia,1972

A simplicidade de acesso e execução da técnica permitiram ao poeta resgatar o conceito de filmletras – citado na introdução de poetamenos [1] – e colocar as palavras, sílabas e letras em constante deslocamento no papel, um movimento que antecipou sua produção audiovisual que se iniciou apenas alguns anos depois.

Código, 1973/2019

Apesar de as letras transferíveis serem um recurso analógico para a composição dos poemas, o pensamento construtivo e a disposição delas já anteviam as possibilidades tecnológicas que se aproximavam com o advento da computação e do vídeo. Após essa fase dos letrasets, boa parte das criações de Augusto, segundo a professora Lucia Santaella (2004), “avançaram das mídias gráficas para as holográficas, infográficas e painéis luminosos” [2].

Mercado (Vermelho) da série “Mercado”, 2002/2019

Em Transletras, apresentamos alguns desses desdobramentos surgidos a partir dos poemas em letraset, como os vídeos de O Pulsar, Pós-tudo e Poema Bomba, o painel luminoso de O Quasar e a serigrafia em placa de acrílico de anticéu. A fase do letraset foi interrompida quando o artista-poeta adquiriu seu primeiro computador, e desde então este se tornou a principal ferramenta dele para compor poemas, traduções, artes gráficas e publicações. Há mais de 70 anos Augusto de Campos vem construindo uma trajetória cuja experimentação e cujo rigor caminham juntos e à frente de seu tempo, revelando questões que ainda não descobrimos, mas que algumas vezes encontramos!

—————————————-

[1] Poetamenos, sua primeira série de poemas verbivocovisuais, datada de 1953, Augusto de Campos escreveu “…luminosos ou filmletras, quem os tivera…”, em um desejo de imprimir movimento e dinamismo às suas composições.

[1] SANTAELLA, Lucia. A poética antecipatória de Augusto de Campos. In: SÜSSEKIND, Flora; GUIMARÃES, Júlio Castañon (Orgs.). Sobre Augusto de Campos. Rio de Janeiro: 7Letras; Fundação Casa de Rui Barbosa, 2004.

AUGUSTO DE CAMPOS: TRANSLETRAS •
BIBLIOTECA MÁRIO DE ANDRADE • SÃO PAULO • 12/2 A 13/8/2021

Daniel Rangel é curador das exposições “Poema
cidadecitycité pela cidade” e “Transletras”, mestre e
doutorando em artes visuais pela ECA USP.

The Unforeseen, 2017/2019

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