DASARTES 97 /

AQUILO QUE NÃO SE VÊ (Alexandre Sá)

“Fungos e liquens aniquilam as nossas categorias de gênero. Eles reorganizam nossas ideias de comunidade e cooperação. Ferram com o nosso modelo hereditário de descendência evolutiva. Eles liquidam completamente as nossas noções de tempo. Os liquens conseguem fazer uma rocha virar pó usando uns ácidos terríveis. Os fungos podem exsudar enzimas poderosíssimas para fora do […]

“Fungos e liquens aniquilam as nossas categorias de gênero. Eles reorganizam nossas ideias de comunidade e cooperação. Ferram com o nosso modelo hereditário de descendência evolutiva. Eles liquidam completamente as nossas noções de tempo. Os liquens conseguem fazer uma rocha virar pó usando uns ácidos terríveis. Os fungos podem exsudar enzimas poderosíssimas para fora do corpo e dissolver o solo. São os maiores organismos do mundo e estão entre os mais velhos. Eles geram e destroem mundos. Quer mais super-herói que isso?”
Merlin Sheldrake

“Nós tínhamos raízes que cresciam na direção do outro sob o solo e, quando todas as flores bonitas caíram dos nossos galhos, descobrimos que éramos apenas uma árvore, e não duas”
Louis de Bernièrres

Um dos pensadores mais relevantes desse tempo de agora é indiscutivelmente Ailton Krenak. Pensador aqui despido de qualquer conceito prévio. Pensador como aquele que retoma o óbvio e o natural da natureza e nos ajuda a não esquecer que ainda há um inevitável descompasso entre as relações que fomos estabelecendo com a terra, com o espaço, com o tempo, com os animais e, inclusive, com nós mesmos; considerando que nós é, também, tudo que está à nossa volta. Macro e micro. Visível e invisível. Pensamento produzido como exercício do viver, aproximado fielmente das estruturas que foram sendo construídas ao longo de sua vida e de suas lutas políticas, no sentido mais lato possível. Sua urgência se dá sem desconsiderar que há de fato uma sabedoria cotidiana que não se acochambra unicamente na vida íntima e pessoal e sabe da responsabilidade pública para qual propostas puramente domésticas seriam, além de injustas, esvaziadas. Falar de si para além da armadilha de falar unicamente de si.
Os povos indígenas, cada vez mais destituídos de suas terras, sucateados e massacrados por um processo perverso de higienização, falsamente erigido através de um ideal obtuso de cultura que mascara o escancaramento, agora já inquestionável, do processo neoliberal e de devastação de nossas raízes, além da autorização escusa para venda e cessão do território e da devastação das riquezas do solo, sempre souberam de maneira muito simples, e nada autorreferenciada, que a natureza é viva. E há um universo cotidiano, coletivo, ecossistêmico de relações, vozes, murmúrios, movimentos, rezas, agradecimentos, chegadas e despedidas que nós, da forma que nos construímos, somos incapazes de ouvir. Veja que aqui o verbo que uso é ouvir. É exatamente isto. Um exercício de ouvir. De auscultar. Exercício que fomos perdendo ao longo do tempo de maneira potencialmente desgraçada. Gradativamente. Do parto aos dias de hoje.
O candomblé e as religiões de matrizes africanas também são originalmente nutridos por esse desejo: reencontrar pontes que foram perdidas ao longo do processo. Reestabelecer vínculos colocados em falência pelo cotidiano em suas temporalidades ansiosas e em seus horrores produtivistas. Restaurar as ligações energéticas com uma força-tronco que é originária e, de acordo com o autotrabalho e o cuidado de si investidos ao longo da vida, é capaz de reinventar seus caminhos. A isso chamamos de Odu, que é, antes de qualquer coisa, o exercício cotidiano do conhecimento através do desconhecimento. Mistério que também se liquefaz em som. Do mundo. E das coisas. E de um tempo-abismo conjugado entre passado e futuro.
O estranho-público nesse caso, é termos sido obrigados a atravessar tamanha devastação para que consigamos relembrar que somos fragilíssimos e talvez tenhamos sucumbido à ingenuidade torpe de acreditar que poderíamos ser outra coisa que não apenas passagem, instante e átimo diante de uma universalidade muito maior e essa, sim, completamente mitológica e onipotente, repleta de particularidades, diferenças e diálogo. O real precisou se apresentar, então, mais uma vez, como retorno do óbvio recalcado.
Se ao longo dos últimos tempos houve um exercício coletivo consentido de silenciar as minorias, sejam elas quais forem, o que ainda ressurge como esperança é que a escala física das coisas é extremamente relativa se mergulhada em um exercício de comparação quântica. Na edição de maio da revista Piauí, há um belíssimo artigo de Robert Macfarlane sobre aquilo que acontece nos subterrâneos da floresta. Ou de outra forma, sobre o conjunto de “in-ações” possíveis e dificilmente detectadas por baixo da submata pelos fungos. Para além da dificuldade de apreensão de sua fisicalidade, o artigo endossa a nossa deficiência de abordá-los através de uma linguagem essa, ocidental e, talvez já, em relação fúngica, parasitária.
Ao abordar tais relações, o autor busca iluminar as hifas, filamentos inter-relacionais que estruturam uma comunicação infinita e inacessível, a nós, humanos, entre os seres da floresta. Se Gilles Deleuze já havia discutido a interconexão entre as raízes dos tubérculos como rizoma, e Nicollas Bourriaud, a mesma interconexão em movimento como radicante, a ideia de hifa nos traz outro elemento fundamental para pensarmos a contemporaneidade e delinearmos algum tipo de aposta. A hifa é, além de infrafina, capaz de fraturar as relações de tempo e espaço. Mais que isso, é ela que agencia uma transmissão de nutrientes e energias entre seus agentes e regula a vida na floresta de forma plural e completamente transversal. Aqui, não se trata de conexões, mas de simbiose, sexo, troca de fluidos proporcionada pelo desejo natural de sobrevivência coletiva de forma indistinta.
Para além de uma ingênua abordagem de alguns textos científicos que insistem em dicotomizar tal devir-floresta entre uma luta por sobrevivência das espécies e uma distribuição socialista de nutrientes, o que me interessa como proposta-hifa é a sua invisibilidade silenciosa escapável diante dos olhos-cegos e ouvidos-moucos. É a sua “inescapabilidade”, substantivo nada abstrato, que urge inexistente em nossa língua como fantasma e fratura. É a substância-reLOVução inominável da associação entre um grupo específico e ampliado de existências que diante do risco da morte, sobrevive como murmúrio, mesmo que abaixo do solo do visível. Apesar de você.

Alexandre Sá é artista-pesquisador. Atual diretor do Instituto de Artes da UERJ. Pós-doutor em Filosofia pelo PPGF/UFRJ. Pós-doutor em Estudos Contemporâneos das Artes pela UFF e Doutor em Artes Visuais pela EBA-UFRJ

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