Critical Mass II, 1995. Cortesia White Cube, Londres. Foto: Markus Tretter.

DASARTES 90 /

Antony Gormley

Com as principais obras de sua carreira de 45 anos, juntamente com novas instalações criadas para o espaço, a Royal Academy apresenta a maior retrospectiva de ANTONY GORMLEY já vista. Releia aqui a matéria publicada na época em que Brasil recebeu uma grande mostra deste singular artista, para quem a escultura é um ato de fé na continuidade das emoções humanas. Por Jurandy Valença.

“Eu não observo a paisagem, eu observo a passagem”. Montaigne

Há uma poética muito particular na obra de Antony Gormley, na qual o corpo humano desempenha papel central, tanto em esculturas como nos desenhos e gravuras. Gormley foi o vencedor, em 1994, do prestigiado prêmio Turner (criado dez anos antes) mantido pela Tate Britain, antiga Galeria Nacional de Arte Britânica, fundada em 1897. O título do prêmio homenageia o pintor Joseph Mallord William Turner e, entre seus ganhadores, estão nomes como Anish Kapoor, Damien Hirst, Rachel Whiteread e Tony Cragg. O prêmio, se não o mais importante da Grã-Bretanha, é o mais comentado, controverso e discutido galardão concedido aos artistas contemporâneos.

Flesh, 1990.
© the Artist. Foto: David Ward, London.

Após três anos de viagem ao Oriente, Gormley retornou à Inglaterra em 1973 e experimentou moldes de gesso para corpos. Por volta de 1980, ele retomou esse procedimento, com moldes feitos a partir de seu próprio corpo. Sua carreira começou com uma exposição individual na Galeria de Arte Whitechapel em 1981. Segundo ele, seu trabalho é “uma tentativa de materializar o lugar para o outro lado da aparência, onde todos nós vivemos”. Gormley tenta tratar o corpo não como um objeto, mas como um lugar, um espaço que procura identificar uma condição comum a todos os seres humanos. Por sua obra ecoam referências a escultores modernos como Brancusi (remetendo-nos à sua escultura The Prayer, de 1907), e a algumas obras de Robert Morris e de Carl Andre, para citar dois artistas que são referências na escultura contemporânea.

Body and Fruit, 1991/93. Malmö Konsthall, Malmö, Sweden © the Artist. Foto: Jan Uvelius, Malmö

Mesmo quando cria desenhos abstratos, ainda é possível ver vestígios de um corpo em sua obra. Em algumas de suas figuras, corpos se renderam aos poderes da gravidade, estão em posição fetal ou procurando abrigo. A figura humana às vezes pode ser representada por uma estrutura abstrata. O espaço, tanto o arquitetônico quanto o natural, é usado como cenário para que suas esculturas representem certas particularidades da existência. São metáforas esculturais e existenciais. Há um mistério, um isolamento. Nada é escondido, nada é revelado. O interior e o exterior se misturam. É ausência, não a presença, para a qual Antony Gormley presta homenagem.

Em obras realizadas em 1983, por exemplo, os moldes de seres humanos têm buracos no nariz, olhos e ouvidos, e reúnem várias formas de posturas, identidades e lugares. São trabalhos que antecedem às esculturas realizadas entre 1981 e 1982, nas quais os corpos têm uma segunda pele, como uma armadura com três buracos para o ânus, a boca e o pênis. Gormley também sempre recorre a três posições em suas esculturas: em pé, deitado e agachado.

Lost Horizon I, 2008. White Cube, Mason’s Yard, London. © the Artist. Foto: Stephen White, London.

Em algumas de suas obras, o artista trabalha a partir de uma estrutura geométrica construída tendo como base poliedros, mas a estrutura recorrente é tetraédrica. E segue um rigor formal na construção da estrutura tridimensional como se trabalhasse em um espaço topológico. O mesmo rigor é aplicado matematicamente por intermédio de regras ou procedimentos – uma série de parâmetros fixos ou uma série de variáveis ​​– que são capazes de se adaptar, crescer e se transformar em complexas superfícies geométricas, onde planos se combinam para formar volumes. Em Last Tree (1979), por exemplo, ele cortou o tronco de um cedro em fatias de igual espessura. Em seguida, começando com o menor, os pedaços foram fixados em uma espiral de modo que se tocam. A distância do centro para a borda do trabalho, a sua totalidade, remete à formação do próprio tronco da árvore.

Double Moment, 1987. © the Artist

Em suas esculturas, Gormley investiga conceitos relacionados à topologia (do grego topos, lugar, e logos, estudo) – como no caso da topologia geométrica, que estuda as variedades e suas aplicações, incluindo a teoria dos nós – e o conceito da parataxe (do grego parataxis, arranjar lado a lado), fazendo uma série de unidades sucessivas de esculturas. Sir Roger Penrose, o famoso matemático inglês, já disse que há em algumas esculturas de Gormley há a “beleza da geometria”.

Loss, 2006. Foto: Stephen White

Sua obra contém uma poética cujos significados sempre escapam de um ponto de vista único ou absoluto – ponto de vista que é autônomo em relação aos seus componentes, incluindo aqueles que observam. Antony Gormley despreza a dicotomia entre a forma e o conteúdo. Ele trabalha com elementos distintos, mas complementares; vegetal, animal e mineral; masculino, feminino e bissexual; esfera, cone e cilindro. Manipula os dualismos do sujeito e do objeto, o fora e o dentro; contradiz qualidades complementares da linguagem escultórica, como maciço e transparente, positivo e negativo, forma e o sem forma, o que é ordenado e o que é aleatório, o que está em pé, deitado e pendurado. Em sua escultura ecoa a afirmação de Carl Andre de que “minha ideia de uma escultura é uma estrada. Isso é, uma estrada não se revela em qualquer ponto particular ou a partir de qualquer ponto particular”.

Full Bowl, 1977-8. © the Artist. Foto: Stephen White, London.

Talvez ele queira retratar o sublime com suas figuras à deriva em um mundo silencioso e sossegado, um estado que é completamente alheio à humanidade. A obra de Antony Gormley indica, no sentido metafórico, o momento em que um corpo se abre para o espaço em torno dele. É como se suas esculturas quisessem tomar o vazio. E, embora o corpo seja visto como um recipiente oco, que contém apenas o “nada”, ainda assim ele estabelece uma relação entre o corpo humano e o seu entorno, que pode ser as paredes de uma galeria ou museu, um jardim, uma sala, a cidade, a paisagem, o mundo, o universo. A pele do corpo é uma borda, o lugar onde a superfície começa ou termina, e pode ser visível ou invisível, de pão, aço Corten, chumbo, fibra de vidro, granito ou metal.

Clearing V, 2009 © the Artist. Foto: Markus Tretter

 

 

 

Compartilhar:

Confira outras matérias

Matéria de capa

Francis Bacon

Poucos pintores do século 20 se opuseram de forma tão marcada às interpretações de suas telas e, no entanto, tiveram …

Alto relevo

León Ferrari

A obra de León Ferrari questiona, de modo contundente, qualquer tipo de repressão e cerceamento perpetrados por estruturas de poder. …

Reflexo

Cildo Meireles

ESPAÇOS VIRTUAIS: CANTOS, 1967-1968/2008/2013

Minhas ideias nascem de maneiras diferentes, por razões diferentes. Às vezes, um pequeno detalhe ou um fato: …

Do mundo

Tomás Saraceno e Dominique Gonzalez-Foerster

Com sua nova mostra, o museu Thyssen-Bornemisza, em Madri, expõe obras de Tomás Saraceno e Dominique Gonzalez-Foerster com dois objetivos; …

Matéria de capa

Zanele Muholi

Zanele Muholi (1972) é ativista visual e fotógrafa e mora em Joanesburgo. Segundo a artista, sua autoproclamada missão é “para …

Destaque

Lucian Freud

Em 8 de dezembro de 1992, Lucian Freud completou 70 anos. Considerado então o maior pintor vivo da Grã-Bretanha, após …

Flashback

William Blake

William Blake (1757-1827) repousa, certamente, entre os maiores artistas da Inglaterra. Trabalhou como poeta, pintor e gravurista, deixando uma obra …

Reflexo

Daniel Senise

 

O BEIJO DO ELO PERDIDO  E QUASE INFINITO

Entre 1991 e 1992, fiz duas telas aparentemente bem distintas que desde então …

Garimpo

Mano Penalva

Nascido em Salvador, Mano Penalva vive e trabalha em São Paulo e atualmente realiza a exposição individual Casa de Andar, …

Matéria de capa

Keith Haring

O artista e ativista Keith Haring (1958-1990) surgiu como parte da vibrante cena artística do centro da Nova York dos …

Flashback

Man Ray

O início do século 20 ecoava velozes transformações tecnológicas, enquanto o pensamento artístico insurgia no rompimento com o clássico. É …

Destaque

Lucio Fontana

Os primeiros trabalhos de Fontana das décadas de 1930 e 1940 ilustram uma jornada de abstração crescente, não sem influências …

Alto relevo

Olafur Eliasson

O artista dinamarquês-islandês Olafur Eliasson, nascido em 1967, criou um amplo corpo de trabalhos que inclui instalações, esculturas, fotografias e …

Do mundo

Takesada Matsutani

A retrospectiva permite traçar de forma ampla uma rota rica e original, começando a partir de um primeiro período que …

Garimpo

Anaisa Franco

Nascida em Uberlândia (MG), Anaisa Franco é mestre em Arte Digital e Tecnologia pela Universidade de Plymouth, na Inglaterra, e …