Anni-Alber em seu estúdio de tecelagem no Black Mountain College, 1937

DASARTES 80 /

Anni Albers

ANNI ALBERS combinou o antigo ofício da tecelagem manual com a linguagem da arte moderna. O reconhecimento tardio de sua contribuição fundamental para a arte e design é o impulso para uma grande mostra do Tate Modern no Reino Unido.

Anni Albers começou seus estudos na Escola Bauhaus em Weimar em 1922. Apesar de seu desejo inicial de ser pintora, foi persuadida a entrar na oficina de têxteis com outras estudantes mulheres, que, mesmo nesta escola fundada sob princípios igualitários, eram desencorajadas a participar de ateliês como os de serralheria e gravura. Por meio deste treinamento, familiarizou-se com as complexidades de tecelagem manual e os desafios do tear e foi capaz de aplicar seus conhecimentos à produção de têxteis ambiciosos, tornando-se uma das artistas têxteis mais importantes e influentes do seu século. Tanto quanto tecelã, Albers via a si mesma como artista e designer. Também foi uma professora inspiradora e autora, que passou seu conhecimento sobre antigas técnicas culturais têxteis juntamente com tudo o que sabia sobre ser uma artista modernista em um mundo de emocionantes invenções, novos materiais e desafios. Albers produziu tecelagens pictóricas, bem como desenvolveu têxteis para arquitetura e interiores e conseguiu conectar uma das técnicas culturais mais antigas com a linguagem artística moderna de seu tempo.

Anni Albers descreveu a tecelagem como “um exemplo de um ofício que é multifacetado”. Em um ensaio de 1937, examinando o “trabalho com material”, ela explicou:

“Além das qualidades superficiais, como áspero e liso, opaco e brilhante, duro e macio, ele também inclui cor e, como elemento dominante, textura, que é o resultado da construção de tecidos. Como qualquer artesanato, pode acabar produzindo objetos úteis, ou pode chegar ao nível da arte. ”

É significativo que Albers sentia que tinha que explicar a distinção entre “objetos úteis” e “arte”, enfatizando a natureza multifacetada de seu meio escolhido.

Pendurado na parede, 1926

No entanto, apesar de ser uma das mais importantes pioneiras da prática de arte têxtil – uma geração à frente do movimento Fiber Art nos EUA e na Europa, e pelo menos duas gerações à frente das muitas práticas de arte contemporânea mais fluidas inspiradas em seu trabalho -, ela não foi tão reconhecida como artista inovadora e influente quanto alguns de seus professores e colegas da Bauhaus.

Annelise Elsa Frieda Fleischmann nasceu em uma família burguesa de Berlim em 1899. Sua mãe era da família editorial germano-judaica Ullstein; seu pai, fabricante de móveis. A jovem foi encorajada a estudar desenho e pintura durante sua infância e adolescência. Rebelando-se contra sua origem familiar e a expectativa de se tornar uma esposa e mãe, optou por ser artista e seguir um estilo de vida mais boêmio. Depois de alguns começos em falso – uma tentativa fracassada de estudar com Oskar Kokoschka, seguida de dois períodos na Kunstgewerbeschule em Hamburgo -, determinou-se a estudar na radical Escola Bauhaus em Weimar. Apesar de ter sido recusada em sua primeira candidatura, finalmente começou seus estudos em 1922. Naquela época, já havia conhecido e se apaixonado por Josef Albers, um alemão da região da Westphalia, magro, de aparência ascética, onze anos mais velho que ela. Eles se casaram em 1925 e ela tornou-se Anni Albers.

Colocando sua relutância inicial de lado, Albers foi absorvida por sua disciplina designada e profundamente inspirada por seu novo ambiente. Em particular, ela admirava o trabalho do professor Paul Klee (1879-1940). Relembrando seu tempo na oficina de tecelagem, ressaltava a falta de ensino estruturado e a capacidade de brincar com materiais que resultavam em “objetos surpreendentes, marcantes em sua concepção inovadora em relação ao uso de elementos de cor e composição”. As obras de Albers deste período caracterizam-se por uma redução da paleta de cores e uma ênfase na estrutura de padrões e tecidos, sendo as interseções vertical e horizontal da teia e da trama enfatizadas por desenhos geométricos rigorosos.

Com Verticais, 1946

Em 1930, Albers recebeu seu diploma com a produção de um tecido refletor de luz e à prova de som, incorporando celofane e chenille, produzido para o auditório da Escola Sindical de Bernau. A partir de 1931, Albers assumiu o comando da oficina de tecelagem até que Lilly Reich foi nomeada para a posição, pouco antes de a Bauhaus ser forçada a fechar pelo governo Nationalsozialist em 1933.

Em novembro daquele ano, Josef e Anni Albers chegaram em Nova York após um convite para ensinar no recém-fundado Black Mountain College, situado em um ambiente rural em Asheville, Carolina do Norte. Foi uma faculdade progressiva e experimental, que incentivava a interdisciplinaridade, bem como a vida em comunidade. Foram anos muito produtivos para Anni Albers. Trabalhou em um corpo de tecelagens pictóricas, muitas das quais foram inspiradas pelas viagens que ela e Josef fizeram ao México, Peru e Chile, onde começaram a reunir uma coleção de artefatos da cultura pré-colombiana com a qual ficaram fascinados. Duas importantes tapeçarias de parede de 1936, Ancient Writing e Monte Albán, demonstram o domínio técnico do processo de tecelagem e o vocabulário visual da abstração geométrica que Albers aprendeu na Bauhaus, para o qual encontrou nova expressão através de seu interesse pela arquitetura e artefatos culturais do México e do Peru. Estes tecidos, com sua linguagem própria do século 20, resultam de um processo de exploração e, muitas vezes, de um literal desfiar de têxteis de uma civilização antiga que ela muito admirava e na qual encontrou evidências da interconexão entre texto e têxtil, tear e linguagem.

Interseção, 1962.

Em 1949, Anni teve sua primeira grande exposição individual, que também foi a primeira mostra de arte têxtil do MoMA de Nova York, posteriormente itinerando por outros 26 museus dos Estados Unidos e Canadá. Nesse mesmo ano, os Albers deixaram o Black Mountain College e, em 1950, Josef assumiu um cargo na Universidade de Yale. O tempo de Anni durante a década de 1950 foi dividido entre criar seus trabalhos pictóricos, ensinar e palestrar, realizar uma série de comissões e escrever dois livros. O mais conhecido deles, On Weaving (Sobre Tecer), é uma apresentação sobre as minúcias técnicas do tear e um tratado sobre a arte de tecer à mão como um processo lógico de criação. O tecelão, assim como um músico, precisa aprender a linguagem do tear e pensar em termos têxteis. Mão, olho e máquina devem se unir para criar um tecido, guiados por um cérebro que planeja, guia e entende o processo. Uma tapeçaria é uma obra, mas também seu próprio suporte.

No final da década de 1960, Albers abandonou a prática da tecelagem manual e se concentrou na gravura, transferindo sua atenção meticulosa para um processo diferente de criação, mas que também poderia ser empregado para continuar seu trabalho de exploração do “evento de um fio”; um processo que poderia fazer uso da várias camadas de textura e de cor no qual ela era tão experiente, e pelo qual ela incorporaria conceitos têxteis tais como amarração, modelagem e mistura de cor. Em uma entrevista de 1985, Albers, um tanto amargamente, fala sobre o reconhecimento artístico que ela finalmente obteve com a gravura : “Eu acho que, quando o trabalho é feito com fios, é considerado artesanato; quando está no papel, é considerado arte… Como resultado, o reconhecimento vem com mais facilidade e felicidade, o desejado tapinha no ombro”.

À esquerda: Eclat, 1974.

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