Untitled, 1997

DASARTES 100 (Edição Especial 12 anos) /

ANISH KAPOOR

ANISH KAPOOR É UM DOS ESCULTORES MAIS INFLUENTES DA ATUALIDADE, CONHECIDO POR CRIAR ESCULTURAS PUBLICAS AMBICIOSAS, AVENTUREIRAS NA FORMA E NA ENGENHARIA EM ESCALAS E MATERIAIS MUITO DIFERENTES. EXPOSIÇÃO NO HOUGHTON HALL APRESENTA 24 ESCULTURAS, BEM COMO OBRAS REPRESENTATIVAS DA CARREIRA PIONEIRA DE ANISH, CRIADA NOS ULTIMOS 40 ANOS

Um espelho aberto para o mundo

O quanto a arte nos ajudou durante esta pandemia! O confinamento nos retirou o direito de aproveitar os espaços culturais, porém, para citar o grande Alberti, a pintura é uma janela aberta para o mundo. Com isso em mente, museus do mundo inteiro abriram suas portas virtuais para todos os usuários da internet, permitindo-nos sonhar com um amanhã que continua incerto.

Enquanto os espaços culturais abrem suas portas progressivamente, uma exposição unindo arte e ar livre nos dá a oportunidade de restaurar nossa relação com o mundo exterior. Anish Kapoor at Houghton Hall, em Norfolk, curada por Mario Codognato, abre sua casa e seus jardins para o público, onde uma mostra das esculturas do artista é prolongada até o primeiro de novembro. O universo de Kapoor é exposto nos jardins e, dentro da casa de Houghton Hall, 24 esculturas, desenhos e outros trabalhos confrontam o espaço e a arquitetura clássica da casa.

Similar à exposição nos jardins do palácio de Versalhes em 2014, Houghton Hall repete o mesmo esquema onde a confrontação desse tipo de arquitetura secular com as esculturas de Anish Kapoor fortalece a noção do espaço criando ademais um diálogo entre ambas. Sky Mirror (2018) transforma e reflete o céu de cabeça para abaixo em um espelho de cinco metros de diâmetro. Sua monumentalidade poderia nos parecer excessiva, entretanto, o sentimento de infinito borra sua forma no mesmo instante.

Sky Mirror, 2018. © Anish Kapoor. All rights reserved DACS, 2020. Foto: Pete Huggins

O que sempre impressiona com a disposição das obras de Anish Kapoor em um espaço aberto desse tipo é a capacidade de criar uma visão digna de ficção científica. Quando olhamos para Untitled (1997), instalada em frente a Sky Mirror em uma grande planície, imagens de Duna (1984), de David Lynch; Melancolia (2011), de Lars Von Trier, ou ainda 2001: Odisseia no Espaço (1968), de Stanley Kubrik, vem à mente. O mesmo pode ser dito de Eight Eight (2004) e Rectangle Within a Rectangle (2018), inclinadas entre formas geométricas, brutas e orgânicas, todas se fundem às árvores e aos arbustos minuciosamente podados dos jardins. A fachada monumental, típica da arquitetura palladiana no uso da ordem colossal combinada à ordem iônica, continua se destacando das obras monolíticas.

Untitled, 1997

: Eight Eight, 2004.
© Anish Kapoor. All rights reserved DACS, 2020. Foto: Pete Huggins

Dentro, espelhos circulares de cores variadas refletem o interior da casa também invertido. Posicionados em cima de volutas, eles se fundem dificilmente ao lado dos bustos e da arquitetura de estilo clássica. Esses gazing mirrors (ou balls), reminiscentes da obra de Jeff Koons, são apenas um pretexto: cores que lembram a cultura e a origem indiana do artista, objetos que refletem a história colonial da Grã-Bretanha, os espelhos coloridos de Kapoor convidam e induzem o espaço interior de Houghton Hall. Passando em frente a eles, as cores mudam progressivamente, dando-nos um sentimento de vertigem. Houghton Hall foi construída por Sir Robert Walopole, primeiro ministro da Grã-Bretanha, em 1722. Ele conta com a ajuda dos grandes arquitetos Colen Cambell e James Gibbs, e ambos vão criar um dos melhores exemplos de arquitetura palladiana do país. Passados para a família Cholmondeley no final do século 18, a casa e os jardins, nacionalmente premiados, estão abertos ao público desde 1976. Se a história de Houghton Hall e a obra de Anish Kapoor parecem opostas, a Houghton Art Foundation tem uma missão precisa. O propósito da HAF é criar uma coleção de arte contemporânea e mostrá-las em um décor histórico; esta exposição de Kapoor vem depois de outras como James Turrell (2015), Richard Long (2017), Damien Hirst (2018) e Henry Moore (2019).

Untitled, 1997

Untitled, 2018, granite. © Anish Kapoor. All rights reserved DACS, 2020. Foto: Pete Huggins

Cobalt Blue to Apple and Magenta mix 2, 2018. Spanish and Pagan Gold to Magenta, 2018. Garnet
to Apple Red mix 2 to Pagan Gold to Spanish Gold, 2018. Spanish Gold and Pagan Gold mix, 2019.
© Anish Kapoor. All rights reserved DACS, 2020

Anish-Kapoor-Grace-Imminence

Um aspecto interessante dessa exposição reside no diálogo entre a obra de Anish Kapoor e as ideologias arquitetônicas de Andrea Palladio. De fato, na tradição renascentista, a casa e seus diferentes componentes devem se organizar como o corpo humano e ser um reflexo de nosso modo de viver. Outro aspecto da filosofia palladiana é a continuidade entre o interior e o exterior da casa; a decoração e as ordens (dórica, iônica, toscana, coríntia, colossal…) devem corresponder não só aos arredores da casa e da natureza, mas também ao status social do proprietário. Nesse sentido, os espelhos de Kapoor refletem o exterior e o interior para formar um espaço só onde os dois se apoiam e dialogam. De fato, como diz Palladio em seus Quattro Libri dell’architetura (1570), o arquiteto tem que aplicar toda sua diligência, de maneira que todos os edifícios tenham fundações da natureza e outras que demandam o uso da a arte, onde entra Anish Kapoor.

Sophia, 2003.
© Anish Kapoor. All rights reserved DACS, 2020

ANISH KAPOOR EM HOUGHTON
HALL • LONDRES • REINO UNIDO •
12/7 A 01/11/20

Leonardo Ivo é estudande em
história da arte em Sorbonne,
Paris e colaborador de mídias
sociais do artista Gonçalo Ivo.

Compartilhar:

Confira outras matérias

Reflexo

MARINA CAMARGO

Mapa-Mole (Sul Infinito)

A maioria dos meus trabalhos têm início com desenhos em nanquim sobre papel. Até certo momento do processo …

Flashback

FRANCISCO DE ZURBARÁN

Francisco de Zurbarán (1598-1664) nasceu em Extremadura, no extremo oeste do país, mas passou a maior parte de sua vida …

Garimpo

ALISSA CICA

A produção de Alissa Cica se desenvolve a partir de um campo de tensões entre matéria, memória e transformação. Em …

Garimpo

LAURA MELLO DE MATTOS

Laura Mello de Mattos vive entre Sorocaba e São Paulo. Há algum tempo, ela desenvolve uma investigação consistente sobre intimidade, …

Reflexo

GABRIELA MACHADO

Nas cores do céu (Exposição Para Todos Os Mares)

Essa obra foi apresentada na exposição Para Todos os Mares, na Galeria …

Destaque

DALTON PAULA

“A cura pode acontecer quando escolhemos o amor.”
Bell Hooks

Para além de ser uma panorâmica, com obras do início de seu …

Flashback

MICHAELINA WAUTIER

Michaelina Wautier (c. 1614-1689) foi uma artista pioneira. Seu monumental Triunfo de Baco é testemunho de uma artista talentosa, ambiciosa …

Do mundo

61ª BIENAL DE VENEZA: ARTE, POLÍTICA E NOVAS GEOGRAFIAS CULTURAIS

A BIENAL EM ESTADO DE TENSÃO

POR TEREZA DE ARRUDA

A 61ª Bienal de Veneza entra para a história não apenas pela …

Reflexo

NÁDIA TAQUARY

O MUNDO/IFÁ

“Certa vez, ganhei de um amigo artista uma antiga esfera de ferro, utilizada como boia sinalizadora de navegação marítima. …

Capa

FÉLICIEN ROPS

” Tenho apenas uma qualidade: um ideal desprezado pelo público, e algumas das minhas imagens não passam de uma tentativa …

Destaque

MICKALENE THOMAS

O lugar central do meu trabalho e da minha arte é um espaço de amor.
Mickalene Thomas

A obra de Mickalene Thomas …

Do mundo

PAUL MCCARTHY

Há um filme italiano de 1975 cujo título poderia se situar como um ponto de partida para analisar a produção …

Reflexo

GILBERTO SALVADOR

VIU

É um trabalho da década de 1960, momento em que o país vivia uma forte censura em todas as áreas …

Resenha

SONIA GOMES

Ao inaugurar paradigma na historiografia da arte europeia que se consolidaria a partir do século 18, Johann Joachim Winckelmann estabeleceu …

Do mundo

WIFREDO LAM

A obra de Wifredo Lam ampliou os horizontes do modernismo, criando um espaço significativo para a complexidade e a beleza …