DASARTES 98 /

ANA PAULA OLIVEIRA

A ARTISTA MINEIRA RADICADA EM SÃO PAULO, ANA PAULA OLIVEIRA CRIA SITUAÇÕES POR MEIO DE DIVERSAS LINGUAGENS E MATERIAIS E DA REFLEXÃO SOBRE SUAS RELAÇÕES. A TENSÃO, A FORÇA E O CONTROLE ESTÃO SEMPRE PRESENTES COMO AGENTES ORGANIZADORES E ESTRUTURAIS. SUA PRIMEIRA EXPOSIÇÃO NO RIO DE JANEIRO CHAMADA DE POÇA/POSSA FOI PENSADA ESPECIALMENTE PARA O MAM RIO. AO LONGO DE POUCO MAIS DE DUAS DÉCADAS, A ARTISTA VEM CONSTRUINDO UMA PRODUÇÃO INTERESSADA EM DISCUTIR QUESTÕES CARAS AO PENSAMENTO ESCULTÓRICO

Ainda não, contrapassaro, 2009

“Escrever sobre o próprio trabalho sempre é desafiador para mim, difícil encontrar palavras para algo indizível…. proponho aqui algumas reflexões importantes sobre alguns trabalhos realizados.”

“A ocupação das coisas no espaço são ponto de partida para minhas criações.”

AINDA NÃO, CONTRAPASSARO, 2009

“Em Ainda não, contrapassaro, foi um trabalho duplo onde ocupei dois andares de uma galeria. Eles se conectavam pela laje quando o trabalho do andar debaixo era suspenso por cabos de aço que passavam por furos feitos no teto e presos por dormentes no chão do andar de cima. Ali, há uma situação de controle quando dormentes se equilibram entre si e seguravam grandes sacos com água cultivando peixes, criando um ecossistema controlado.
Já no andar de baixo, há uma superfície criada por um conjunto de placas de ferro e borracha suspensas no seu ponto de gravidade e pássaros de chumbo controlando o equilíbrio da grande superfície criada por diversas placas. Um trabalho de duas placas de vidro incrustadas no chão é seguro por um pássaro taxidermizado no movimento de alçar voo.”

Ainda não, contrapassaro, 2009

IMINENTE, MUITO PRÓXIMO ENTÃO, 2009

Meu trabalho tem relação direta com o espaço, então muitas das instalações que realizei são pensadas e resolvidas para ocupar um determinado lugar. Quase sempre utilizo materiais brutos e os coloco juntos sem interferir muito na sua essência, gosto das coisas como elas são e minha procura é estabelecer relações entre elas.
Iminente, muito próximo então!, em 2009, conta sobre o tempo e o espaço, suas mudanças e transformações. O peso da massa de borracha suspensa pela grade dos dormentes de madeira centenários oriundos das estradas de ferro, as mudas de palmeira imperial ocupando uma saleta de uma residência de família.

IMINENTE, MUITO PRÓXIMO ENTÃO, 2009

MEU CHAPÉU LÁ NO ALTO DO CÉU, 2012

“Em 2012, fiz Meu chapéu lá no alto do céu, no Beco do Pinto, na Casa da Imagem, local que faz parte de um complexo de edificações em São Paulo tombado pelo Patrimônio Histórico, que na era colonial marca a ligação entre o Solar da Marquesa e a Casa Número Um, sendo a principal ligação entre o centro urbano e comercial.
Jabuticabeiras são suspensas por dormentes de madeira e protegidas por borracha, estão espalhadas ao longo da escadaria, junto a grandes reservatórios de água. Eles são ligados a um sistema de gotejamento que, aliado ao desnível da escadaria, mantém as árvores hidratadas, acentuando a natureza da espécie para frutificar.
O sistema de funcionamento do trabalho depende necessariamente do desnível da escada para acontecer e manter o fluxo ativo.
Pensei muito no fluxo importante que existiu na época colonial, nas histórias de ambas as casas, no processo de tombamento histórico e na função atual da escadaria.
Crio e invento um sistema quando os coloco juntos no espaço ou em uma peça de escultura, pois normalmente um depende do outro para existir. Ou seja, precisam se relacionar mesmo que não tenham qualquer proximidade.
Isso aparece pela opção dos materiais e as relações que estabeleci quando os organizo dando forma e criando os trabalhos.”

meu chapéu lá no alto do céu, 2012

AINDA QUE TE VI, 2013

“Em Ainda que te vi, no espaço expositivo da galeria, centenas de casulos de borboletas foram instalados em cabos de aço que sustentam um único ponto de equilíbrio placas de mármore e granito, onde lentes de aumento são incrustadas nas pedras permitindo a visão detalhada dos casulos e seu processo de eclosão. Junto a isso, fotografias retratam caixas criadas para a eclosão dos casulos, vídeos apresentam o momento de metamorfose das borboletas e o trabalho Camuflagem, onde uma lente de aumento incrustada em um objeto feito de mármore travertino faz com que sua textura se misture com outras de objetos de naturezas diferentes como casulos de borboletas vivos fundidos ou não, latão, bronze, exoesqueleto.
Ainda que te vi acontece em uma sala expositiva de uma galeria, ocupa um ambiente onde a arquitetura se limita a paredes, teto e chão. Ainda que te vi é um aparato para realçar a complexidade dos sistemas de arte onde o estranhamento, a repulsa, o encanto, o artifício e o controle do olhar se apresentam de forma natural e fictícia ao mesmo tempo.
Sendo assim vidro, madeira, planta, barro, pedra, borracha, metal, plástico, animal, inseto vivo ou não, metalizado ou fundido, o próprio espaço, o observador são matéria para mim. Enfim, o que aparecer ou encontrar, deixo maturando, decantando, familiarizando-se até que surge algo, como se fizesse um “pacto”, dito as regras e determino o jogo.
É aí, na relação, onde acontece o trabalho, o ponto que a obra nos conta. As coisas têm seu significado e junto com outras se transformam, cada material tem seu caráter, não tenho como mudar isto!
‘A beleza está na intimidade que existe entre as coisas’, palavras de Manoel de Barros.”

Ainda que te vi, 2013

POÇA/POSSA, 2020

“Na minha individual recém-inaugurada no MAM Rio minha intenção foi interagir com a arquitetura do museu. Tendo um pé direito imenso e com mezanino que integra um espaço tão generoso como a sala de exposições do museu, resolvi tomar partido do contrário, se o espaço me deu uma verticalidade máxima, vou trazer a horizontalidade para complementar este lugar… e equalizar o lugar como se equaliza o som.
Poça/Possa ocupa o salão monumental do MAM Rio com grandes peças geométricas formadas por placas de vidro e graxa onde dormentes de madeira centenários seguram e pressionam tudo.
Criei um sistema e estabeleci uma relação entre eles, estão intrinsecamente ligados. Se uma peça sair, acontece um desmonte e tudo se acaba.
Poça/Possa acontece em duas situações e se completam com a presença do observador quando, ao caminhar pela instalação, ele faz parte do trabalho, percorrendo o espaço e, ao subir no mezanino com a vista de cima, ele contempla o espaço estando de fora, tem distanciamento de toda situação criada embaixo.
Também debaixo do mezanino, uma pintura em nanquim, de 20 metros de comprimento, ocupa a extensa parede reforçando sua horizontalidade.
Símbolo de verticalidade e poder Subserviência é o título da pintura de observação, que realizei no jardim Botânico, da Palmeira Imperial Philia da Palmeira Mater plantada por D. João em 1808.”

poça/possa, 2020

 

ANA PAULA OLIVEIRA: POÇA/POSSA
MUSEU DE ARTE MODERNA
RIO DE JANEIRO
A REABRIR EM BREVE

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