DASARTES 80 /

Alphonse Mucha

ALPHONSE MUCHA é o representante mais popular da Art Nouveau, porém pouco apreciado pela sua ambição como pintor dedicado à causa nacional do seu país de origem. Uma exposição no museu do luxemburgo, em Paris, propõe, redescobrir seus dois lados, para devolver a ele toda sua complexidade, artística, política e espiritual.

Alphonse Mucha é hoje um dos artistas tchecos mais famosos do mundo. Nascido em 1860 na região da Morávia, ganhou fama a partir de 1895, quando seu primeiro cartaz para a atriz Sarah Bernhardt passa a circular em Paris. Estabelece um estilo muito pessoal, o “estilo Mucha”, caracterizado por formas sinuosas, linhas orgânicas e uma gama sútil de tons pastel. Este estilo em breve representaria o movimento das artes decorativas emergente na época, o Art Nouveau. Quando a Feira Mundial de Paris abriu em 1900, Mucha já era uma figura chave do movimento, e quando foi pela primeira vez aos EUA em 1904, era descrito como “o maior artista decorativo do mundo”.

Ainda que os cartazes de seu período parisiense tivessem feito sua fama, Mucha é um artista versátil: pintor, escultor, fotógrafo, decorador e também um professor apreciado. Mas suas convicções políticas e humanistas o levaram a abandonar gradualmente a veia decorativa e se voltar para um grande projeto de pintura histórica, fazendo da arte um ato de militância política em prol dos eslavos e de sua independência. Seus últimos trabalhos, incluindo A Epopeia Eslava (1912-1926), um ciclo de vinte pinturas históricas monumentais, testemunham seu sonho de união entre todos os povos eslavos.

Estações: verão, 1896.

UM BOÊMIO EM PARIS

“O artista deve permanecer fiel a si mesmo e às suas raízes nacionais” – Alphonse Mucha

Nascido no meio do renascimento nacional tcheco, Mucha cresceu acreditando apaixonadamente em uma nação tcheca independente do Império Austro-Húngaro ao qual estava ligada. Em sua cidade natal, Ivančice, o adolescente talentoso defende essa causa política desde cedo, ilustrando sátiras em revistas locais e decorando auditórios. Sua vida e atividades artísticas serão guiadas por seu patriotismo, que ele considera uma força espiritual.

Embalagem para “Sabão Mucha violeta”, 1906

Quando Mucha chegou a Paris no outono de 1887, a cidade era a capital europeia das artes. Artistas e estudantes vinham de todo o mundo e se reuniam em comunidades. Mucha não foi exceção: ele rapidamente criou um clube de estudantes eslavos, o Lada, e mais tarde se juntou à comunidade tcheca, a Beseda, da qual ele foi o presidente.

Em Paris, apoiado pelo conde Eduard Khuen Belasi, Mucha estudou por dois anos. No início de 1889, o conde parou de pagar seu estipêndio e Mucha, forçado a trabalhar para atender às suas necessidades, passou a fazer ilustrações de livros e revistas para editoras em Paris e Praga. Durante esses anos difíceis, morava na rua Grande-Chaumière, onde se tornou habitué da La Crèmerie de Madame Charlotte, um local de encontro conhecido de artistas em dificuldade, onde ele travaria amizades com artistas como Paul Gauguin e o escritor sueco August Strindberg. Mas em um dia do ano de 1895, começaram a ser colados nas paredes da cidade seus primeiros cartazes para Sarah Bernhardt, mudando radicalmente sua vida.

UM INVENTOR DE IMAGENS POPULARES

“Eu prefiro ser um ilustrador popular do que um defensor da arte pela arte”. – Alphonse Mucha

Caixa para bolachas de baunilha Lefèvre-Utile, c. 1900.

Na década de 1890, o comércio ocupava em Paris um lugar central na cultura visual. Com o desenvolvimento da litografia colorida e a crescente demanda por publicidade no contexto extravagante da Belle Epoque, os artistas têm ampla oportunidade de explorar essa nova forma de expressão artística. Os painéis da cidade se tornam “galerias ao ar livre” e o primeiro pôster de Sarah Bernhardt, revolucionário em formato, composição e cores pastéis, traz “um sopro de ar fresco” à cena artística parisiense. Com este sucesso, Mucha lança-se na criação de campanhas publicitárias encomendadas por gráficas. Em 1896, ele assinou um contrato exclusivo com a gráfica parisiense F. Champenois, que lhe garantiu um salário mensal e segurança financeira. Seu trabalho não se limita a campanhas publicitárias, mas também inclui a criação de painéis decorativos, ou seja, cartazes sem texto projetados para decoração de interiores, uma nova forma de arte acessível ao público em geral. Nos anos que se seguiram, suas criações circularam pela Europa e o “estilo Mucha” tornou-se sinônimo da então emergente Art Nouveau.

MUCHA, O COSMOPOLITA

“Minha arte, se é que posso chamar assim, cristalizou. Ela estava em voga. Ela se espalhou em fábricas e oficinas sob o nome de “estilo Mucha”. – Alphonse Mucha

O Zodíaco, 1896.

Em 1900, Mucha era o ilustrador mais procurado e copiado de Paris e um mestre do cartaz reconhecido em toda Europa. Dada sua posição de destaque no cenário artístico internacional, foi chamado a participar em vários projetos relacionados à Feira Mundial de Paris de 1900, o “maior evento do século”. Em particular, decorou a bandeira da Bósnia e Herzegovina, uma região eslava anexada à Áustria-Hungria desde 1878. Para o Império Austro-Húngaro que a comandava, esta bandeira representava uma verdadeira aposta política.

Após a Exposição, Mucha foi nomeado membro da Ordem de Francisco José I pelos serviços prestados ao Império. Este episódio, no entanto, o colocou em uma situação paradoxal e desconfortável em relação às suas próprias convicções, já que ele se viu trabalhando para o Império, um opressor dos eslavos. Essa experiência inspirou-o na ideia de um épico que retrataria as alegrias e tristezas de todos os povos eslavos, destacando os laços que os unem e sua luta comum contra a opressão.

De 1904 a 1909, Mucha viajou para os Estados Unidos cinco vezes, na esperança de levantar os fundos necessários para este projeto, que se tornaria A epopeia eslava. Ele alcançou seu objetivo em 1909, quando o industrial de Chicago Charles Richard Crane concordou em financiá-lo.

MUCHA, O MÍSTICO

“A arte é a expressão de sentimentos […] interiores de uma necessidade espiritual” – Alphonse Mucha

Estudo para o Epopeia Eslava (ciclo 6): Coroação do czar sérvio Stepan Dusan como imperador romano do Oriente, c. 1923.24.

No final do outono de 1894, Mucha conheceu August Strindberg, autor sueco, amigo de Gauguin e recém-chegado à colônia boêmia de Madame Charlotte. Místico, Strindberg está profundamente interessado em ocultismo e teosofia. Logo, Mucha passa a ter discussões filosóficas regulares com ele, e essa amizade incutiu nele a ideia de que “forças misteriosas” guiam a vida de cada um. Em seu trabalho, as figuras enigmáticas que aparecem por trás da tema principal fluiam da crença em “poderes invisíveis” que ele desenvolveria mais tarde.

Em 25 de janeiro de 1898, Mucha entrou para uma loja maçônica do Grande Oriente da França, a mais antiga e importante obediência maçônica da Europa continental, que defendia “o aperfeiçoamento da humanidade” e a “consciência da liberdade”. Mucha via a Maçonaria como uma extensão do seu espiritualismo. Sua jornada espiritual o levou a praticar três virtudes – Beleza, Verdade e Amor – os “pilares” da condição humana. Ele achava que, ao difundir essa mensagem através de sua arte, contribuia para o progresso da humanidade. Mucha continuou a prática da maçonaria durante toda a sua vida. Após a criação da Tchecoslováquia em 1918, ele desempenhou um papel importante na restauração da Maçonaria Tcheca, proibida sob os Habsburgos desde 1794. Em 1923, ele se tornou o segundo Soberano Grande Comandante da Maçonaria Checa e criou muitos projetos para lojas maçônicas, incluindo joias, cartas e copos cerimoniais.

MUCHA, O PATRIOTA

“A missão da arte é expressar os valores estéticos de cada nação de acordo com a beleza de sua alma. A missão do artista é ensinar as pessoas a amar essa beleza”. – Alphonse Mucha

Estudo para o 6º Festival Sokol, 1911.

Em 1910, Mucha retornou à sua terra natal para cumprir sua ambição de longa data: colocar sua arte a serviço de seu país e de seus compatriotas, em especial pela criação da Epopeia Eslava.

Tendo assegurado o patrocínio de Charles Richard Crane, ele perseguiu esse objetivo com energia e determinação. Em 1911, depois de completar a decoração do Salão do Prefeito de Praga, ele se mudou para o Castelo de Zbiroh, na Boêmia Ocidental, para se concentrar em seu projeto.

A Epopeia Eslava, cuja ideia se originou em Paris, almejava um apelo único e brilhante, concebida para inspirar todos os eslavos e guiar seu futuro, inspirando-os a aprender com sua história. Para isso, Mucha escolheu vinte grandes episódios que marcaram este povo do ponto de vista político e religioso, filosófico e cultural. Dez cenas são tiradas da história tcheca e dez do passado de outras nações eslavas. Para este ambicioso projeto, Mucha realizou uma enorme quantidade de trabalho preparatório, consultando especialistas da história eslava e viajando para pesquisar, desenhar, fotografar e estudar costumes e tradições locais da Croácia, Sérvia, Bulgária, Montenegro, Polônia, Rússia e Grécia.

ARTISTA E FILÓSOFO

“O objetivo do meu trabalho nunca foi destruir, mas construir, conectar, porque todos devemos esperar que os homens se aproximem, e será mais fácil para eles se entenderem melhor”. – Alphonse Mucha

Medéia, 1898.

Mucha estava convencido de que a arte, por seu poder de inspiração, poderia ajudar os eslavos e outras nações a se unirem na direção do progresso da humanidade. Para ele, a arte, ao usar suas ideias filosóficas, poderia unir as pessoas e manter a paz. No entanto, a paz na Europa seria de curta duração. O Tratado de Versalhes não resolveu satisfatoriamente as questões territoriais entre as nações eslavas recém-independentes. Em 1933, Adolf Hitler tornou-se chanceler da Alemanha. Em 1938, dez anos após a doação da A Epopeia Eslava para a cidade de Praga, a Tchecoslováquia perdeu importantes regiões fronteiriças para a Alemanha, Polônia e Hungria. Em 15 de março de 1939, as tropas alemãs entraram em Praga. A terra natal de Mucha perdeu a sua independência, apenas vinte anos após tê-la obtido. Relatado nos registros da Gestapo como “perigoso pintor patriótico” e maçom, Mucha foi uma das primeiras pessoas a ser presa pela Gestapo. Desencorajado e sofrendo de pneumonia, ele morreu em Praga em 14 de julho de 1939, 10 dias antes de completar 79 anos.

O lado filósofo de Mucha é representado em trabalhos em que expressa suas preocupações humanitárias e reage às ameaças de uma guerra iminente em um mundo em rápida mutação. Seu projeto final, iniciado em 1936 – um tríptico representando a “Era da Razão, a Era da Sabedoria e a Era do Amor”-, é um monumento dedicado a toda a humanidade.

 

Salon des Cent Mucha

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