Hombre andando II, 1960 (4/6) . © Alberto Giacometti Estate / VEGAP, Madrid, 2019.

DASARTES 102 /

ALBERTO GIACOMETTI

ALBERTO GIACOMETTI TRILHOU UM CAMINHO SINGULAR DENTRO DO MODERNISMO EUROPEU, BUSCANDO INCESSANTEMENTE UMA NOVA LINGUAGEM PARA A ESCULTURA COMO “DUPLA REALIDADE”. A NOVA EXPOSIÇÃO GIACOMETTI – FACE TO FACE MOSTRA A EVOLUÇÃO DA OBRA DO ESCULTOR DO PÓS-CUBISMO AO SURREALISMO E AO REALISMO DO PÓS-GUERRA   “Como fazer um homem de pedra sem petrificá-lo?”[1]   […]

ALBERTO GIACOMETTI TRILHOU UM CAMINHO SINGULAR DENTRO DO MODERNISMO EUROPEU, BUSCANDO INCESSANTEMENTE UMA NOVA LINGUAGEM PARA A ESCULTURA COMO “DUPLA REALIDADE”. A NOVA EXPOSIÇÃO GIACOMETTI – FACE TO FACE MOSTRA A EVOLUÇÃO DA OBRA DO ESCULTOR DO PÓS-CUBISMO AO SURREALISMO E AO REALISMO DO PÓS-GUERRA

 

“Como fazer um homem de pedra sem petrificá-lo?”[1]

 

Esculpir é trazer à vida, e, ao contrário do que se possa imaginar, não há nada mais cheio dela do que as esquálidas esculturas de Alberto Giacometti. A experiência de estar diante do trabalho dele é inesquecível e curiosamente perturbadora. É sentir solidão em conjunto. É habitar um mundo fantástico de gente frágil, mas potente em toda a sua corrosão. É sentir-se ao mesmo tempo próximo e distante do outro, tentar alcançar o inalcançável. As figuras do suíço são ásperas, finas, corroídas. Longilíneas ou minúsculas. Parecem querer ir a algum lugar, movidas a uma energia que tenciona, no espaço, os corpos desprovidos de massa e vigor físico (vide Homem Caminhando, 1961). Um breve descuido no olhar pode causar a impressão de que, em pouquíssimos segundos, tudo mudou na forma de enxergá-las. Em resumo, é algo diferente de tudo que você já viu.

Tête de Diego, enfant, ca 1914–15. © Estate of Alberto Giacometti / Bildupphovsrätt 2020.

Nenhum admirador ou crítico jamais pretenderá a audácia de esgotar um sentido para a obra dele. Aliás, certamente, o próprio Giacometti não ficaria animado com essa possibilidade. Nesse ponto, inclusive, nomes que dispensam apresentações, como os franceses Jean Genet e o filósofo Jean-Paul Sartre, já dedicaram impecáveis (e emocionantes!) relatos sobre o trabalho dele, sem qualquer pretensão de esgotá-lo. Ainda assim, muito do que se sabe hoje sobre o artista é fruto das cuidadosas observações dos amigos. Então, se você acredita ser possível traduzir em palavras a experiência Giacometti, eles já o fizeram, o que deixa o nosso caminho mais transparente, mas não menos árduo.

Femme cuillère, 1927. © Estate of Alberto Giacometti / Bildupphovsrätt 2020.

Filho de pintor impressionista, Alberto Giacometti foi também um grande pintor e desenhista, mas as esculturas nunca foram preteridas pelos pincéis. Entre uma pincelada e outra, lá estava ele novamente moldando seus personagens extraordinários com as mãos, atraído como que por um campo de força magnética. Nasceu na Suíça e estudou em Paris, na Académie de la Grande Chaumière, onde frequentou as aulas de Émile-Antoine Bourdelle, discípulo e assistente de Rodin. Nessa cidade trabalhou por toda a vida, cercado de poucos amigos e familiares em seu modesto estúdio no Montparnasse. Isolado não do mundo exterior, como somos tentados a imaginar – quando o assunto é arte, é sempre bom desconfiar do mito do gênio solitário –, mas na busca do sentido para o trabalho dele. E nem sempre foi assim. Ele, que caiu nas graças de André Breton e Dalí, teve o início da sua jornada artística parisiense compartilhado junto à vanguarda surrealista, em pleno ambiente de efervescência das revoluções estéticas do século 20. Chegou a expor com o grupo (algumas de suas primeiras obras primas são dessa época, inclusive; vide Bola Suspensa, 1931), mas não demorou a ser expulso por excesso de realismo. E é bem verdade que as investigações de Giacometti, que o levaram à construção da identidade dele, acabariam seguindo um novo rumo, único e distinto.

La bola suspendida, 1931. © Estate of Alberto Giacometti / Bildupphovsrätt 2020.

Giacometti tinha fixação por cabeças, rostos, e, especialmente, olhos, de onde buscava captar a essência do homem. Até mesmo nos desenhos, que, de certa forma apresentam maior nível de robustez do que as tão aclamadas esculturas, é na cabeça que ele concentrava a energia das pinceladas. Na verdade, atraído pelos mais sofisticados debates existenciais e filosóficos, o que pretendeu Giacometti foi olhar a figura humana como se a estivesse vendo pela primeira vez. Um primeiro encontro com o mundo ao seu redor. E é assim que, obstinado, passou a se ocupar da diferença entre o que via e o que conseguia mostrar, levando-o à perseguição incansável de um projeto sem fim: a tentativa de representar com realismo a essência do ser.

Le Nez, 1947–1949. Collection Fondation Giacometti, Paris ©
Estate of Alberto Giacometti / Bildupphovsrätt 2020.

Giacometti gostava de produzir com modelos vivos, normalmente pessoas próximas, do convívio dele, dentre eles o irmão Diego, a esposa Annette e Caroline, amante de toda a vida. Trabalhava com afinco e, para ele, nunca foi um problema desfazer e recomeçar, quantas vezes fosse preciso. O custo era uma boa dose de estresse e impaciência, claro. Não é preciso mencionar que foi assim, mergulhado em uma espécie de eterna insatisfação e inquietação existencial, que destruiu muitas de suas obras. E, certamente, irritou os modelos dele também! O erro é uma constante na sua trajetória. Não era um artista de resultados. E por isso não é de surpreender que esse complexo processo de construção e desconstrução resultaria em uma linguagem estética inovadora e icônica para o modernismo europeu, como de fato ocorreu. As noções de espaço e distância também inovam a história da escultura. Em 2018, tive a oportunidade de visitar uma enorme retrospectiva da sua carreira no Museu Guggenheim e medir a força da presença desses conceitos. O que Giacometti nos impõe é um limite de aproximação. Está aí a razão pela qual algumas de suas esculturas repousam em bases ou dentro de gaiolas (vide Quatro mulheres sobre base, 1950, e O nariz, 1947-1949). Há um espaço vazio que as rodeia e, ao mesmo tempo, nos separa. Como ele esculpiu o ser a distância, é preciso se afastar para vê-lo nitidamente e por inteiro. Um passo a mais e toda a magia pode ir por água abaixo.

Mujer de Venecia VI, 1956. © Alberto Giacometti Estate / VEGAP, Madrid, 2019.

Ao contrário de um escultor clássico, que, para materializar uma ideia, trabalha blocos de pedra até encontrar a silhueta da figura desejada, Giacometti as fazia surgir no espaço, a partir de um fio-esqueleto de arame, em volta do qual manuseava o material, aproveitando-se da sua maleabilidade. O resultado é alguém que parece morto, mas que se sabe e sente vivo. Há quem questione: um retrato da humanidade da época, talvez? De fato, é difícil não associar a deformidade da figura humana, na obra de Giacometti, do contexto do mundo pós-Segunda Guerra, completamente enrijecido pelo nazismo. Afinal, a tristeza e a solidão que dissolveram e escancararam o horror da nossa condição estavam logo ali, dentro e fora do ateliê.

El carro, 1950.
© Estate of Alberto Giacometti
/ Bildupphovsrätt 2020.

Com o apoio da Fundação Giacometti, o Moderna Museet sedia a exposição Face to Face, que abriga uma excepcional retrospectiva do trabalho do artista, a primeira da Suécia. Um passeio repleto de múltiplas referências e experimentações, desde a arte tribal, o cubismo e o surrealismo, que tiveram um papel significativo em sua obra, até a festejada investigação pessoal acerca da verdadeira face da existência, de que aqui tanto falamos, estampada em suas obras do pós-guerra, e que lhe rendeu alguns dos mais famosos trabalhos, arquétipos de seu estilo.

Tête sur tige, 1947.

[1] SARTRE, Jean-Paul. A busca do absoluto, p. 18.

GIACOMETTI • FACE TO FACE •
MODERNA MUSEET • ESTOCOLMO
• 10/10/20 A 17/01/21

Iasmine Souza Encarnação
Novais é Procuradora do
Município de São Paulo,
entusiasta da história da arte e
autora do perfil @minutodearte.

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