Departure, 1952

DASARTES 100 (Edição Especial 12 anos) /

AGNES PELTON

AGNES PELTON FOI UMA SIMBOLISTA VISIONÁRIA, QUE DESCREVIA A REALIDADE ESPIRITUAL QUE ELA VIVIA EM MOMENTOS DE QUIETUDE MEDITATIVA. A MOSTRA DESERT TRANSCENDENTALIST, NO WHITNEY MUSEUM DE NOVA YORK, OFERECE UMA IMPORTANTE OPORTUNIDADE PARA EXPERIMENTAR O TRABALHO DESTA ARTISTA, ANTES POUCO CONHECIDA, E CONTEMPLAR SEUS ESFORÇOS PARA ABRIR “JANELAS DE ILUMINAÇÃO” AO MUNDO ESPIRITUAL

The Primal Wing, 1933.

Agnes Pelton (1881-1961) se esforçou para retratar um reino espiritual além das aparências materiais. Sua descoberta artística veio em meados da década de 1920, em uma série de pinturas abstratas que retratam temas incorpóreos, como ar, luz, água e som. Nas décadas que se seguiram, quando começou a mergulhar no estudo das filosofias esotéricas e ocultas, seu imaginário evoluiu. Ela combinou o poder emotivo de formas abstratas etéreas, como véus delicados e cintilantes, com cores e símbolos místicos para representar a união com a “Realidade Divina” que ela experimentava em sonhos e meditação. Certa vez, ela descreveu seu processo de aplicar meticulosamente camadas finas de pigmento para criar tons luminosos como “pintar com a asa de uma mariposa e com música em vez de tinta”.

Agnes recebeu pouco incentivo da crítica para suas pinturas abstratas durante a vida, talvez por estar longe dos centros da arte durante a maior parte de sua carreira, primeiro no relativamente isolado East End de Long Island e depois no deserto do sul da Califórnia. Para ganhar uma renda modesta, pintava retratos e paisagens realistas que vendia para amigos e turistas. Seu maior apoio veio de artistas do breve Grupo de Pintura Transcendental do Novo México (ativo entre 1938 e 1941), que compartilhava sua crença de que a arte abstrata poderia ser um veículo para transportar os espectadores para reinos iluminados.

ANOS 1920

Agnes descreveu o mural Decoração de quarto em roxo e cinza, de 1917, como expressão de “crepúsculo em ecstasy e a beleza poética da noite.” Foi o culminar de suas “pinturas imaginativas”, um grupo de obras que retratou figuras femininas em comunhão com a natureza em paisagens oníricas. Agnes alcançou algum sucesso em Nova York na década de 1910 com elas, mostrando duas na feira Armory Show, em 1913, e em uma coletiva seminal na prestigiosa Galeria Knoedler, em 1917.

Room Decoration in Purple and Gray, 1917.
The Wolfsonian—Florida International University, Miami Beach.

A artista se mudou para Water Mill, Nova York, em 1921, logo após a morte da mãe, com quem viveu a maior parte da vida. Em 1926, as linhas de forma livre no fundo da composição se tornariam os elementos centrais de suas pinturas abstratas.

Temas aquáticos aparecem com frequência na obra de Agnes. Ela descreveu As Fontes (1926), que apresenta cascatas de água e uma névoa opalescente, como “uma emanação de pensamento puro”. O título original da pintura, As Fontes – Amor, sugere as energias benevolentes que animam e protegem a vida. Não tendo forma própria, mas assumindo a forma de seu recipiente, a água era o símbolo arquetípico de abnegação e aquiescência. Para a artista, a capacidade de a água mudar de forma significava transformação, crescimento psíquico e união espiritual.

The Fountains, 1926.

O tema de Ser (1926), a primeira pintura totalmente abstrata da pintora, é o ar, cujas correntes se aglutinam em faixas circulares de cor. Como muitos artistas de sua geração, Agnes viu uma conexão entre a cor e a experiência da música. A música desempenhou um papel significativo no início da vida da artista. Sua mãe dirigia a Pelton School of Music, no Brooklyn, e Agnes estudou piano durante a adolescência. Ela escreveu em seu diário que o dinamismo de Ser resultou da “interação de diferentes vibrações de cores – cores que chamam a atenção sucessivamente como sequência de sons na música”.

Being, 1926.

Estrelas se tornaram um motivo-chave em sua na obra no final dos anos 1920, concomitantemente com sua intensa investigação da prática espiritual conhecida como Agni Yoga, fundada em 1920 pelo teosofista russo Nicholas Roerich e Helena Roerich. No Agni Yoga, as estrelas são guias para o reino distante da iluminação espiritual, símbolos do conhecimento divino. Agnes escreveu sobre as estrelas como “mensageiros” da “luz transcendental, respondendo através da escuridão aos picos crescentes de aspiração”.

ANOS 1930

Em Mudança de mar (1931) é retratado o movimento da água, que a artista considerou uma metáfora para a transformação espiritual e a renúncia ao ego. Como muitos artistas de sua geração, ela foi profundamente influenciada por Wassily Kandinsky e seu livro de 1911, Concerning the Spiritual in Art. Suas teorias afirmavam que a própria crença na espiritualidade era inerente à arte, bem como a necessidade de dispensar o realismo em favor da pintura daquilo que o artista russo chamou de “vibrações da alma”. Como Kandinsky, Agnes acreditava que a arte comunica as energias universais do mundo visível e invisível por meio da cor, que funciona como “voz” ou uma “vibração” que preenche a consciência do espectador.

Sea Change, 1931.

Em seu diário, ela descreveu o azul nesta pintura como uma “cor emotiva de corpo astral e onda astral” e o azul claro como um “azul místico. . . astral e espiritual.”

Os sonhos e visões que Agnes retratou em suas pinturas geralmente assumiam a forma narrativa. Em Ahmi no Egito (1931), um cisne branco – um símbolo tradicional para o corpo feminino – navega em um rio da vida vermelho-sangue, do caos escuro das preocupações terrenas à transcendência e iluminação final, representada pela estrela à distância.

Ahmi in Egypt, 1931.
Whitney Museum of American Art, New York.

Montanhas, para Agnes, simbolizavam o crescimento pessoal. Em Monte de chama (1932), ela ressalta seu poder transformador, retratando-as como hospedeiros de chamas ascendentes, que eram centrais para Agni Yoga, uma disciplina espiritual baseada no fogo como uma metáfora para a poderosa força interior desmaterializada que pode guiar cada indivíduo para uma consciência superior. Inspirada por seu estudo da disciplina, Agnes incluiu imagens de fogo em várias de suas obras para significar o “fogo criativo do Universo” dentro de si mesma e nos outros. Como ela notou em seu diário, “No mundo do fogo, percebi a beleza no abstrato como uma força viva”.

Agnes criou Tempestade de Areia (1932) vários dias depois de se mudar de Long Island para Cathedral City, Califórnia, uma pequena comunidade perto de Palm Springs, onde ela testemunhou uma tempestade de areia cuja falta de forma a fascinou. Ela descreveu a imagem central da pintura como um “pálido, céu azul claro” rodeado por nuvens “vistas através da areia”. O arco-íris abaixo dessa imagem simboliza a benevolência essencial que ela viu no universo. Para o resto da vida, Agnes derivou inspiração da vasta extensão do deserto.

Sand Storm, 1932.

Mãe do Silêncio (1933), retrata a força feminina divina do universo, ou Mãe do Mundo, como é conhecida na Teosofia. Agnes retrata a figura como um “Anjo Poderoso” em um trono de jade, circundado por um brilho etéreo. Para ela, a imagem era uma presença viva à qual ela poderia recorrer em busca de orientação.

Mother of Silence, 1933

Em Even Song (1934), um brilho interno ilumina uma urna de cerâmica, usada em muitas religiões para conter as cinzas dos mortos. A artista originalmente chamou a obra de Realização, sugerindo que essa luz simboliza a unidade com o fogo divino na vida após a morte. Como muitas das pinturas de Agnes, Even Song funciona como um ícone cristão ortodoxo, oferecendo aos espectadores um vislumbre do reino divino que aguarda aqueles que buscam a iluminação enquanto estão na terra. Evensong é o nome comum para o serviço religioso cristão anglicano realizado no final da tarde ou início da noite que envolve canto e música. A referência de Agnes em seu título reforça a conexão da pintura com a oração e a vida após a morte.

Even Song, 1934

Na pintura, Ressurgimento (1938), inicialmente intitulada Flight, a forma triangular projetando-se da paisagem congelada e apontando para uma estrela brilhante sinaliza um movimento espiritual de problemas mundanos em direção a um plano superior de consciência. A imagem reflete o entendimento de Agnes de que as lutas na terra devem ser transcendidas para atingir a iluminação divina.

Resurgence, 1938

ANOS 1940

Agnes pintou Futuro (1941) como “uma espécie de Progresso do Peregrino’”, um guia para os espectadores desde o caos do mundo terreno até o reino da iluminação. Para alcançar a “montanha da aspiração” a distância, era preciso viajar “através da escuridão e da opressão, através de um deserto pedregoso. . . Através de um arco simbólico é vista uma montanha de visão, acima da qual se abrem gradualmente, janelas de iluminação.”

Future, 1941

Flutuando no espaço liminar entre a terra e o céu, os quatro retângulos brilhantes na imagem representam quartos iluminados oferecendo consolo e conforto. Para entrar neles, primeiro era necessário passar por “pilares não pesados, mas sólidos, de formas parecidas com pedras”.

Despertar (Memória do Pai) – 1943 – é uma homenagem ao pai, que morreu de overdose de morfina quando a artista tinha dez anos. A pintura simboliza seu renascimento iluminado, a forma retangular escura de seu corpo na parte inferior da tela convocada para despertar para uma nova vida por uma “flor de trombeta dourada… emitindo luz e som.”

Awakening (Memory of Father), 1943

No meio da imagem, entre as estrelas luminosas e a distante “montanha da liberação”, uma forma horizontal se eleva, simbolizando as “tragédias passadas” de seu pai. Como Agnes escreveu em seu diário, “As estrelas aparecem, e a figura enterrada abaixo da montanha roxa responde à luz de um novo dia”.

No centro de várias das últimas obras de Agnes – Intervalo (1950), Partidas (1952) e Centro de luz (1960-1961) – está a forma do círculo, uma forma sem começo e sem fim. Tem sido frequentemente usado por artistas para sugerir infinito e harmonia autocontida. Não é de surpreender, dada a crença de Agnes de que a arte deve transmitir “a interpretação das possibilidades superiores de visão”, que ela incorporasse círculos em suas composições, como em Intervalo, onde um deles aparece como uma luz calma no centro de uma tempestade.

Departure, 1952

Agnes morreu em 1961, aos 79 anos. Em 2013, foi fundada a Agnes Pelton Society para promover a vida e o legado da artista.

Gilbert Vicario é vice-Diretor de Assuntos
Curatoriais e Curador-chefe da Família
Selig no Museu de Arte de Phoenix.

AGNES PELTON: DESERT TRANSCENDENTALIST •
WHITNEY MUSEUM • NOVA YORK • 13/3 A 01/11/2020

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