Wheatfield - A Confrontation, 1982. Battery Park Landfill, Downtown Manhattan. Cortesia: Public Art Fund, New York. Foto: John McGrail.

DASARTES 93 /

Agnes Denes

AGNES DENES é mais conhecida por sua obra, Wheatfield – A Confrontation (1982), onde ela planta um campo de trigo no meio de Manhattan. Em sua temporada de abertura, o novo museu The Shed, inaugura uma exposição retrospectiva da artista que a qualifica como “uma das mentes artísticas mais dinâmicas dos últimos 50 anos”. Por Leonardo Ivo.

Em sua temporada de abertura, o The Shed, espaço recém-inaugurado concebido para as artes no centro de Hudson Yards, inaugura uma exposição retrospectiva de Agnes Denes, curada por Emma Enderdy que qualifica a artista como “uma das mentes artísticas mais dinâmicas dos últimos 50 anos”. De fato, Agnes Denes é mais conhecida por sua obra, Wheatfield – A Confrontation (1982), onde ela planta um campo de trigo no meio de Manhattan. A foto da artista, segurando um bastão e atravessando sua obra, é hoje em dia considerada um dos ícones da história da arte contemporânea. Porém, sua obra tem várias facetas, representadas de maneiras diversas e atípicas. A exposição Agnes Denes: Absolutes and Intermediates, apresenta mais de 150 obras, cobrindo cinquenta anos de sua carreira. Utilizando vários meios artísticos, Agnes Denes cria uma obra voltada para o público e ao mesmo tempo para a introspeção; uma obra criada para a humanidade, baseada em sua própria história e orientada para o seu próprio futuro.

Wheatfield – A Confrontation: Battery Park Landfill, Downtown Manhattan – With Statue of Liberty Across the Hudson, 1982.

Agnes Denes tem um apetite desmesurado pela pesquisa, que seja ela matemática, científica, histórica, arqueológica e tantos outros campos que abrigam o saber da humanidade. Nascida em Budapeste, em 1931, ela cresceu na Suécia e continuou sua educação e estudos nos Estados Unidos. O foco da obra de Denes pode ser qualificado como humanitário: são projetos de cidades futuristas ecorresponsáveis, projetos de plantações de árvores para transformar grandes metrópoles em santuários ambientais, textos e cápsulas do tempo, todas condensadas em fórmulas e soluções matemáticas resultando em formas arquitetônicas que lidam com as crises ambientais criadas pelo próprio homem. Agnes Denes tenta representar coisas abstratas como a lógica ou os tantos outros procedimentos de racionalização; como diria Paul Klee: “tornar o invisível, visível”.

Esse aspecto é encontrado em seus Philosophical drawings (1968), em outros termos: a tradução de um pensamento analítico em forma visual. Usando teorias e cálculos de Pascal, Porfírio, Alfred N. Whitehead ou Berthrand Russel, entre outros, a artista estabelece comentários visuais sobre a lógica que tomam a forma de uma pirâmide, símbolo fetiche da artista.

Entre 1973 e 1979, Agnes Denes realizou sua série Map projections que usa projeções isométricas, o método de representar objetos de três dimensões como rascunhos técnicos em duas dimensões, permitindo-lhe modificar o formato do planeta Terra e guardar ao mesmo tempo suas medidas originais e proporções. Dessa maneira, ela transforma a Terra em uma pirâmide, um cubo, um ovo, um limão e até em um cachorro-quente. Para a artista, essas obras servem como uma alegoria, provocando nossas ideias de fato e ficção estabelecidas em nossa realidade. Como preconiza a artista, os Map projections “são realidade esculturada, baseada em elementos conflitantes e interdependentes da arte e da existência, da ilusão e da realidade, da imaginação e do fato, do caos e da ordem”.

World of Thorns. Foto: Dan Bradica. Vista da exposição no The Shed.

Nessa primeira fase de seu trabalho, Denes lida com o conhecimento global da humanidade. Porém, ela é mais conhecida por suas obras ecológicas. O trabalho ambiental mais famoso da artista é Wheatfield – a confrontation (Nova York, 1982). Convidada um ano antes pelo Public Art Fund para criar uma escultura, Denes preferiu plantar um campo de trigo. A uma quadra de Wall Street, de frente à Estátua da Liberdade, o campo de trigo se eleva e se encontra no meio do trânsito de uma cidade agitada. “Um largo campo de grãos dourados sobre uma terra pensada para os ricos, em um setor imobiliário caro.” Quatro ou cinco milhões de dólares na época, lembra-se a artista; um espaço agora ocupado pelo Battery Park City. Essa obra vai além da arte para se confrontar com questões globais internacionais. O campo de trigo representa comida, energia, comércio: world trade e economia. Ele é uma intrusão no meio da cidade, e confronta de cara a civilização. O campo conseguiu ser mantido por quatro meses. A obra pode ser vista como uma tentativa de aliviar o estresse causado pela crise ambiental.

World of Thorns (detalhe). Foto: Dan Bradica. Vista da exposição no The Shed.

Outra obra da artista, Tree mountain – a living time capsule – 11,000 trees, 11,000 people, 400 Years (1992-96), coloca-se como uma nova tentativa de unir o intelecto humano à natureza. Esta obra site-specific, em Ylöjärvi na Finlândia, tem 270 metros de largura e 28 metros de altura e uma forma elíptica baseada no número de ouro, tão preconizado por Da Vinci. Encomendada pelo o Ministério do Meio Ambiente finlandês e pelas Nações Unidas durante a Eco-92, que aconteceu no Rio de Janeiro, foi a primeira vez que um artista foi solicitado para restaurar um dano ambiental com uma obra planejada para as gerações futuras. Onze mil pessoas do mundo inteiro se juntaram para plantar 11 mil árvores, cada uma delas leva o nome da pessoa que a plantou. O propósito é que as árvores sejam legadas aos herdeiros dos plantadores, para serem mantidas e cuidadas através dos séculos. Ao longo do tempo, Tree mountain mostra como os anos influenciam e modificam uma obra de arte. Ela se torna um instrumento que mede a evolução da arte, deixa de ser um tótem de uma era decadente da história da humanidade para se tornar um monumento digno de uma grande civilização, não para alimentar seu ego, mas para beneficiar as futuras gerações com um legado cheio de sentido: Tree mountain é uma cápsula do tempo em grande escala.

Egg Pyramid – The Ovoidium – Future City Self- Contained, Self-Supporting City Dwelling, 1984/2014.

Várias obras de Denes têm cápsulas do tempo. Feitas de metal e para serem abertas daqui a mil ou cinquenta mil anos, elas agem como um testemunho. Na Documenta 14, em Kassel, Denes criou uma pirâmide “natural” com a obra Living pyramid (2017), onde visitantes puderam plantar legumes, frutas e várias outras plantas para serem cultivadas. Assim como para Tree Mountain ou Wheatfield, Denes quer criar um monumento a natureza, dando vida ao microcosmo.

Model for Probability Pyramid-Study for Crystal Pyramid, 2019. Foto: Stan Narten.

Dentro dessas cápsulas, encontram-se as reações das pessoas sobre a obra obtidas graças a um questionário feito pela artista, cujas respostas provêm de testemunhos sobre as diferentes crises ambientais que encontramos em nossa época. Denes explica a necessidade dessas cápsulas como um momentum: “para que o futuro possa nos avaliar pelas nossas respostas a questões importantes […]. Gostaríamos de nos comunicar com o futuro para nos desfazer de nossa mortalidade, destas vidas curtas que temos”. Essa questão preocupa a artista desde sempre.

Mas, afinal, como poderíamos qualificar o movimento no qual se encaixa Denes: performer? Não no sentido de hoje; ela consegue fugir de tais categorizações. Ela detesta o confinamento, ou qualquer restrição. Sobre o Landart, ela diz: “foi feito por artistas que precisavam de um espaço maior que o ateliê. Eles não tinham questões ou preocupações ambientas, sobre as quais eles não se interessam. A não ser, talvez, Robert Smithson.” Mas ela estava, de fato, envolvida nesse movimento pelo qual ela se interessou desde os anos 1960. Denes conta que se a obra dela foi um pouco marginalizada, comparada às dos outros artistas, é porque ela passava tempo demais pesquisando, sozinha, sem promover sua arte de maneira extensiva; “ou porque não podiam entendê-la, eu suponho.”

Model for Teardrop-Monument to Being Earthbound, 2019. Foto: Kelly Barrie.
Commissioned by The Shed; courtesy the artist and Leslie Tonkonow Artworks + Projects.

Como sugere Hans Ulbricht Obrist em uma entrevista com a artista em 2018, Denes e Da Vinci compartilham um método de trabalho similar. Porém, Denes sabe onde se posicionar: “Eu acho que é pelo nosso interesse comum pela ciência, e pela diversidade de seu trabalho, e a diversidade do meu. Isso volta ao fato que eu desejava reavaliar o conhecimento. Ele quis inventar a ciência.”

“Reavaliar o conhecimento” representando-o, tal é a filosofia de Agnes Denes. Sua arte se torna “filosofia visual”, principalmente quando ela usa o formato da pirâmide. Para a artista, a pirâmide é símbolo de temas ecológicos, sociais e culturais. Sua Pyramid series lida com questões e conceitos ambientais e filosóficos: desenhadas pela artista antes da era dos computadores, as pirâmides dessa série tomam forma graças a vários humanos (representados em pequeno formato) como em March of Genesis (1994). Eles se dispõem de tal forma para de criar uma pirâmide perfeita, levantando questões da gênese do homem na linha do tempo. De onde viemos, para onde iremos?

Para a artista, a pirâmide é símbolo de temas ecológicos, sociais e culturais.

A Pyramid series também propõe soluções para nossa espécie quando nosso planeta poluído ficará sem recursos naturais. Flying fish pyramid – a floating water habitat (1984), Egg pyramid (1984-2014) ou Half-bird – a flexible sace station (1984) são propostas para uma habitação constrita e autossuficiente, que se adapta ao clima e à natureza. Graças à ajuda e ao patrocínio do The Shed, Denes pôde realizar uma maquete de umas dessas estruturas: Teardropmonument to beign Earthbound (1984), o projeto de uma estrutura monumental que flutua sobre uma base circular, como um monumento futurístico, brilhando do seu interior. Agnes Denes também pôde realizar outra obra, que até então permanecia no papel e em sua mente. Model for Probability Pyramid – Study of Crystal Pyramid (2019) é outra proposta para uma arquitetura futurista feita com cem mil blocos de vidro impressos em 3D. Também iluminada, ela concorre com os monumentos egípcios e serve como representação de nossa história e ciência.

Foto: Leonardo Ivo.
Vista da exposição no The Shed.

Finalmente, Denes nos alerta sobre situação e a do nosso planeta. Os recursos naturais do mundo estão em perigo. A última obra da exposição, Pyramids of Conscience (2005), fala direto com o visitante; são quatro pirâmides com diferentes líquidos em seu interior: uma com água pura, outra com água contaminada, uma com óleo, e uma última completamente espelhada. O que estamos fazendo contra as contaminações de água? O que podemos fazer contra a exploração da fauna e da flora e desenvolver hábitos limpos que preservarão nosso planeta?

Com preocupações tão atuais, a obra de Agnes Denes é vista como prenunciadora. À frente de seu tempo, a obra arquitetônica e científica de Denes poderá provavelmente aliviar a futura condição da raça humana.

 

 

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