DASARTES 102 /

A MALHAÇÃO DE BRITTO

No passado mês de agosto, uma polêmica mobilizou as chamadas redes sociais no limbo de silício. Um episódio que trouxe à tona novamente um incômodo e onipresente personagem no imaginário coletivo da dita elite cultural (pessoas como eu e você, que se interessam por uma revista de arte, encaram um “filme alternativo” com alguma regularidade […]

No passado mês de agosto, uma polêmica mobilizou as chamadas redes sociais no limbo de silício. Um episódio que trouxe à tona novamente um incômodo e onipresente personagem no imaginário coletivo da dita elite cultural (pessoas como eu e você, que se interessam por uma revista de arte, encaram um “filme alternativo” com alguma regularidade ou gosta de comer aquele caldo de mocotó “chique-de-raiz”): Romero Britto. Apesar de irrelevante, o fato em questão chama atenção exatamente por explicitar alguns aspectos recorrentes quando o nome deste indivíduo (artista? artesão em escala industrial? voraz empreendedor de sucesso? rei do mau-gosto? adulador de autoridades? um pouco de cada, talvez) está envolvido. É este aspecto que me interessa, mais que os fatos que fomentaram a polêmica em si. A querela da vez envolvendo o nome dele repercutiu a partir de uma ação mais ou menos performática que viralizou, ainda que tardiamente – o vídeo que a difundiu é de 2017. A ação era protagonizada por uma moçoila que, indignada por suposto maus-tratos de Romero aos funcionários de seu restaurante em Miami, foi à galeria dele (onde Britto comercializa diretamente seus produtos, de canecas e chaveiros a retratos e murais de encomenda) e, em frente ao próprio e a uma audiência considerável, destruiu uma peça de autoria dele. Ali, em bom espanhol – presumindo, como usual, que é a língua falada por um brasileiro – e carregando uma grande e colorida maçã em porcelana de Britto que ganhara de presente do marido (avaliada em U$ 4.800, como alguns gostam de lembrar), identificou-se como gerente do dito estabelecimento e fez um rápido discurso contextualizador da ação que se seguiria, quando atirou a peça do artista ao chão, que se despedaçou. O gesto de protesto dizia respeito à conduta que o artista-empreendedor teria adotado quando da ida dele ao dito restaurante, teria reservado uma mesa para 20 pessoas para um breakfast e só pedido um café com leite. Além disso, teria pedido desconto sobre a conta de U$ 8, queixado-se da música ambiente e destratado (ou mesmo humilhado) alguns funcionários, ameaçando não voltar lá. A moça então bradou que perdeu o respeito que já tivera por ele, que ele mostrasse mais dignidade e não voltasse a pisar no estabelecimento; então vira as costas e vai-se embora. O texto está no condicional porque ainda não houve provas efetivas da alegada demonstração do esnobismo e comportamento ofensivo além das palavras da moça revoltada e alguns depoimentos esparsos de funcionários confirmando. Por outro lado, Britto, que já foi instado a se manifestar a respeito, apesar de repudiar o auê e se dizer injustiçado, não contestou essa versão – sobre o episódio que teria detonado a celeuma –, o que é significativo. Em depoimento a um programa de tevê, apenas se apresenta sendo atacado injustamente, mas não toca no ponto mais candente, que é o que se passou no restaurante.

Seja como for, o que interessa aqui é comentar as nuances da movimentação que o dito episódio despertou. A despeito de ter ocorrido há três anos, incitou aguerridas reações extemporâneas, tanto por parte de habituais e novos detratores desse eterno brasileiro-for-export como de seus defensores. A onda mais dominante (e previsível) atacava o artista e celebrava quase histericamente a ação da dona do restaurante, por vezes saudando-a como “heroína”; entusiasmo que não deixa de ser curioso e revela um aspecto de destaque, traduzido pela adesão massiva e a virulência do ataque à figura de Britto. Um ataque, contudo, no mais das vezes amparado na qualidade questionável de seu trabalho, sempre classificado genericamente como brega, cafona, simplório, esquemático, “meramente decorativo” e qualificativos afins, que justificariam essa espécie de pulsão celebratória catártica em grande escala dentre os “mais esclarecidos”, ao ver no vídeo vazado a peça despedaçada em frente ao próprio autor, desmoralizado pela já viralizada ação da mulher. Ok, a produção do sujeito de fato preenche todos esses requisitos sem dificuldades. Mas meu ponto é: o que diabos o trabalho de Britto teria a ver com a coisa toda?

Do outro lado, havia os que se posicionavam em favor do “ex-brasileiro”, com argumentos na linha de que se tratava de uma malhação oportunista e desmedida a sujeito que pertenceria ao segmento das “minorias”: pobre de origem, brasileiro e nordestino que, a despeito das adversidades (alguns chegam a lhe atribuir também a condição de negro, o que não me parece o caso) logrou atingir sucesso nos EUA unicamente por seus esforços e méritos. E que “se fosse o George Clooney, não teria havido auê nenhum”. Seu êxito como fruto do próprio esforço é inegável e ponto pacífico, não há do que discordar desse quesito. Mas o que exatamente há nesse perfil “guerreiro” que o isente de levar aquela reprimenda, caso ela proceda (e é o que tudo indica)?

O fato é que, a meu ver, nem uns nem outros miram na questão que efetivamente estaria em jogo, basicamente restrita à dimensão, digamos, moral, por trás da coisa. Não me parece caber aqui, de maneira alguma, qualquer juízo de valor que leve em conta os predicados da produção de Britto. Não faz qualquer sentido argumentar pró ou contra o, digamos, artista mantendo essa premissa. Chega a ser quase surreal. Vibrou-se com o constrangimento público a que Britto foi submetido porque não gosta de suas peças, entende-se, mas…novamente, não faz sentido. Como também não faz sentido defendê-lo baseado em sua condição de origem quando a situação não comporta esse tipo de discurso. Afinal, trata-se, em síntese, de um caso de suposto comportamento inadequado do cliente-artista (esnobismo e humilhação de funcionários) em um restaurante, que, por sua vez, teria gerado uma retaliação por parte da proprietária do estabelecimento. O registro em vídeo de seu protesto performático, a viralização da ação e o fato de o cliente inconveniente ser a celebridade em questão, fizeram o resto. E ponto. Como a própria protagonista – Madeleine Sánchez – afirma em alguns vídeos, foi uma situação que a indignou naquele momento, frente à qual sentiu que devia se posicionar, e já ficou no passado (novamente, o episódio ocorreu em 2017). Ela ainda se disse surpresa com a retomada do caso a partir da circulação do vídeo, que jura não saber como ou quem decidiu trazer à tona agora.

Seja como for, o grau da malhação de Britto se deu em geral fora de lugar. Se ele agiu da forma de que lhe acusam, é razoável que leve um esculacho. Se não foi assim e há exagero ou exploração leviana em cima do suposto ocorrido, que ele ajudasse a esclarecer e evitar “cancelamentos”. Mas o mais impressionante é ver como tem gente que, mal contendo a saliva e não raro com pouca informação sobre o caso, investe sobre o sujeito no piloto automático, referindo sua sempre atacada produção (e eventuais idiossincrasias comportamentais) em vez de se cobrar uma atitude compatível com a narrativa que gerou a querela. Como classificar esse tipo de reação? “Ressentimento cultural”?

E, supondo que fosse pertinente entrar nessa questão, eu insistiria em lembrar que o problema não é a dita “qualidade” ou não da obra de Britto: afinal, ele atua em um nicho restrito, que não se confunde com o da “grande arte”, ou da “arte contemporânea oficial” em que seus detratores (“nós”) em geral se balizam. Sua produção não circula, nem aspira a circular (até onde se sabe), nesse circuito. Tem outra vocação, outras demandas. São universos em princípio incompatíveis. O problema seria se Britto aspirasse a tal inserção. Aí talvez fizesse sentido haver debates sobre o trabalho dele. Até lá, problema maior para mim são casos como o da Joana Vasconcelos, artista portuguesa de maior visibilidade e nome de destaque na cena da arte contemporânea internacional, tendo exposto em duas Bienais de Veneza e, não obstante, tem apresentado em sua fatura e seu modus operandi (uma verdadeira máquina de merchandising em escala industrial e comissionamentos chapa-branca) características cada vez mais próximas de perfis como o de Britto. E ela não estaria só. Mas isso é assunto para outra coluna. Que, aliás, já escrevi aqui há uns anos.

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