Todas fotos: Cortesia da artista.

DASARTES 102 /

FLAVIA JUNQUEIRA

AS INGÊNUAS BEXIGAS DE ENCHER DA ARTISTA FLAVIA JUNQUEIRA POVOAM O BRASIL DE NORTE A SUL. INSEREM CONOTAÇÕES POLÍTICAS, FILOSÓFICAS, LINGUÍSTICAS E PSICOLÓGICAS. AGORA A ARTISTA ELEVA NOSSO OLHAR PARA ENCONTRARMOS BALÕES FLUTUANTES OU REVOADAS DE FORMAS E CORES NO FAROL SANTANDER, EM SÃO PAULO. AQUI, FLAVIA FALA À DASARTES O PROCESSO DE INSPIRAÇÃO E […]

AS INGÊNUAS BEXIGAS DE ENCHER DA ARTISTA FLAVIA JUNQUEIRA POVOAM O BRASIL DE NORTE A SUL. INSEREM CONOTAÇÕES POLÍTICAS, FILOSÓFICAS, LINGUÍSTICAS E PSICOLÓGICAS. AGORA A ARTISTA ELEVA NOSSO OLHAR PARA ENCONTRARMOS BALÕES FLUTUANTES OU REVOADAS DE FORMAS E CORES NO FAROL SANTANDER, EM SÃO PAULO. AQUI, FLAVIA FALA À DASARTES O PROCESSO DE INSPIRAÇÃO E CRIAÇÃO DE SUAS OBRAS

 

Na Companhia dos Objetos (2008):

“Série que apresentei em minha conclusão de curso na faculdade de Artes da FAAP. Composta por oito imagens em grande formato, sugeria autorretratos meus encenados para a câmera fotográfica. Eu me fotografei junto a todos os objetos que caracterizavam os diferentes espaços da casa dos meus pais, onde na época eu ainda morava, e aparecia acumulada em meio aos montes de objetos. No entanto, meu rosto se encontrava melancólico, indiferente e com um olhar vazio, como se estivesse sozinha.

A junção de objetos reais de um cotidiano da casa, porém empilhados excessivamente de modo incomum, trazia para o trabalho um estranhamento que fugia a foto meramente documental, pois, ainda que fiéis aos objetos per¬tencentes em sua realidade espacial, a imagem se tornava bastante ficcional e mágica.

Esse trabalho é muito importante para mim, pois foi nessa ocasião que usei pela primeira vez o gênero da fotografia encenada como instrumento da pesquisa em artes e percebi que esse tipo de foto construída poderia me permitir criar histórias através da imagem, que é o que faço até hoje.”

 

O caminho que percorri até te encontrar (2011):

“Uma Instalação realizada durante o período em que participei da Residência Artística “Cité international Des Arts”, na cidade de Paris. A instalação era composta por 25 quadros que apresentavam, em cada um deles, uma fotografia polaroide da imagem de um carrossel encontrado em Paris, um mapa da cidade e suas informações.

A instalação representava uma tentativa de criar uma cartografia da cidade de Paris usando como parâmetros de localização e fronteira, elementos que estivessem completamente fora dos critérios convencionais de classificação e orientação. Desse modo, eu consegui gerar um percurso sob um olhar voltado para referências de uma memória pessoal dentro de um mapa e ao mesmo tempo estabelecer novas marcos em um espaço exaustivamente delimitado.

Esse trabalho foi importante, na medida em que o carrossel, como elemento da memória da infância/brinquedo da criança, em Paris, estava presente em meio à realidade do cotidiano diário das pessoas e eu apenas o encontrava imersos ao sistema comum da cidade. Esse foi um processo novo para mim, pois até então eu criava as encenações pela foto encenada, mas não as encontrava e as documentava como fiz nessa ocasião.”

 

Estudo para Inversão (2013):

“Engloba a instalação de um carrossel em tamanho real (com diâmetros de 12 metros) dentro de um amplo galpão. Nesta instalação, eu faço uma intervenção no motor e altero o movimento de forma que os 24 cavalos que compõem a totalidade do brinquedo passam a andar para trás. A amplitude do carrossel dentro do espaço interno do cubo branco, o alto ruído de seu motor e seu movimento modificado provocam a inversão da ideia que entendemos como diversão.

O carrossel traz um desejo de reativar memórias da infância. Entretanto, girado ao contrário, desperta a memória de uma representação ou, ainda, recorda-nos de vivências que nunca existiram. Com essa ação, tentei materializar no espaço questões sabre a ficcionalização do imaginário infantil e sobre os rituais do lazer.

Mexer com a utopia da construção de cenários que são feitos para garantir a demanda da felicidade das crianças e ressaltar uma melancolia nesse objeto que sempre foi idealizado, trouxe-me uma experiência muito importante; no sentido de trabalhar com essa energia do brinquedo girando para trás, que me gerou muitos impactos emocionais na época e trabalhar com a escala monumental pela primeira vez em um trabalho de artes.“

 

Theatro Amazonas (2019) e Bienal de São Paulo (2019)

“Representam a primeira série de trabalhos em que os balões passam a ser o protagonista da imagem. Essa é uma catalogação de Teatros históricos, que ainda está aberta em processo, e começou há dois anos. O critério nesse caso é encontrar os Teatros mais relevantes do nosso país, cuja época em que foi construído, na maioria datados do século 19, na qual a arquitetura e a conservação apresentavam verdadeiras fábulas visuais e conceituais sobre um período determinado da história do país. Independentemente dos Teatros, grande parte dos espaços escolhidos (museus, edifícios, salões, igrejas, monumentos) tem características marcadas por serem, na maioria das vezes, símbolos culturais, históricos, tombados ou de grande relevância para uma cultura específica.

A relação que busco estabelecer vem principalmente em duas mãos; em um primeiro momento, desejo me apropriar desses espaços em que a memória do passado e a magia da teatralidade estão fortemente presentes e reafirmá-los como potência, pois muitos desses locais estão abandonados ou a grande maioria das pessoas nem sabe que eles existem. Por outro lado, ao inserir objetos como balões ou elementos lúdicos da infância, reitero uma desconstrução e crio um deslocamento do que se espera comumente encontrar ali, abrindo a criação de novas camadas de realidades, mais próximas da fabulação, sonho e fantasia. É uma maneira de olhar para nosso passado e ao mesmo tempo reinventá-lo.”

 

REVOADA, exposição no Farol Santander (2020)

“Exposição que atualmente está em cartaz no farol Santander, assume o balão como o elemento principado da mostra. Ela é composta por dois espaços, o hall de entrada do Banco, onde interajo diretamente com um lustre de Cristal art déco de 13 m, em que apresento uma instalação com balões de vidro cristal, o que se tornou algo muito importante para mim, pois é a primeira que realizei uma intervenção dessa escala e com materiais tão delicados. Sempre tive vontade de trabalhar com cristal.

O espaço do 24º andar, chamado de sala de espelhos, consiste na criação de um local em que o público pode interagir com a obra, entrando em um espaço totalmente cenográfico, divertido e infantil e, ao mesmo tempo, caótico, invertido e excessivo. Ambos os trabalhos colocam o público diretamente dentro do espaço.

Os espaços foram criados a partir de conversas com o curador Paulo Herkenhoff, que me ajudou a fazer uma verdadeira análise histórica sobre o balão. Foi a primeira vez que tive a oportunidade de trabalhar com o Paulo, ainda estamos trabalhos juntos para a próxima exposição que será no Farol Santander de Porto Alegre, e isso é o que torna mais especial esse projeto.”

FLAVIA JUNQUEIRA: REVOADA •
FAROL SANTANDER • SÃO
PAULO • 1/5 A 19/7/2020

 

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