Sofonisba Anguissola, La reina Ana de Austria, c. 1573.

DASARTES 92 /

Sofonisba Anguissola e Lavinia Fontana

Museu do Prado apresenta SOFONISBA ANGUISSOLA E LAVINIA FONTANA – História de duas pintoras, uma exposição que reúne pela primeira vez as obras fundamentais de duas das mulheres mais notáveis na história da arte na segunda metade do século 16 e que ficaram escondidas ao longo do tempo.

DAMAS E PINTORAS

Sofonisba Anguissola, Autorretrato ante el caballete, h. 1556-57.

Sofonisba Anguissola (Cremona, 1535 – Palermo, 1625) e Lavinia Fontana (Bolonha, 1552 – Roma, 1614) foram duas pioneiras da pintura que alcançaram reconhecimento e notoriedade entre seus contemporâneos. Ambas sabiam como quebrar os estereótipos sociais atribuídos às mulheres em relação à prática artística, nos quais havia um ceticismo profundamente enraizado sobre suas habilidades.

Sofonisba pertencia a uma grande família de origem nobre, cujo pai, Amilcare Anguissola, promoveu e colheu a formação artística de suas filhas como parte da educação humanística considerada adequada para as mulheres jovens.

Sofonisba Anguissola, Retrato de familia, h. 1558.

Sofonisba praticou, acima de tudo, o retrato e alcançou uma fama que, graças às suas origens aristocráticas e à sua auréola de mulher virtuosa, levou à sua chegada à corte espanhola, onde era dama da rainha Elizabeth de Valois; uma posição que ofuscou seu papel como pintora, mas que a fez referência para outros artistas.

A biografia inicial de Lavinia Fontana se conecta ao perfil da maioria das artistas femininas. Ela era filha de Prospero Fontana, um pintor de prestígio em Bolonha, com quem treinou e colaborou. As condições econômicas e sociais favoráveis ​​da cidade explicam o papel destacado da mulher em sua vida cultural, religiosa, social e artística. Lavinia foi a primeira mulher a abrir sua própria oficina e desenvolveu uma atividade notável que se estenderia a Florença e Roma, onde se mudou na fase final de sua vida.

 

A CRIAÇÃO DO MITO “SOFONISBA ANGUISSOLA”

Lavinia Fontana, Autorretrato en el estudio, 1579

Entre 11 e 13 anos, Sofonisba Anguissola iniciou sua educação artística seguindo as recomendações formativas das classes aristocráticas. Ela recebeu quatro aulas de música, dança, literatura, desenho e pintura; Destacou-se como cartunista e, principalmente, como retratista, praticando repetidamente com o próprio rosto e o de sua família.

Seu treinamento completo é demonstrado em seus numerosos autorretratos (até então, nenhuma mulher havia produzido tantos), nos quais refletia os ideais femininos do momento: discrição, pudor, modéstia ou prudência. Ela fez pequenas obras de busto ou meia figura que serviram para espalhar sua imagem e suas várias virtudes.

Lavinia Fontana, Autorretrato tocando la espineta, 1577

Graças ao destacamento diplomático de seu pai, esses autorretratos se tornaram cartas de apresentação e raras peças de colecionador que forjaram sua fama inicial como pintora. Assim, surgiu um mito feminino que outras mulheres queriam imitar; a mais relevante, Lavinia Fontana, que em seu autorretrato de 1577 recuperou o modelo de Sofonisba para sublinhar o mesmo status de mulher culta e artista.

 

RETRATANDO AUCTORITAS: OS AMBIENTES HUMANÍSTICOS DE CREMONA E BOLONHA

Lavinia Fontana, Costanza Alidosi, c. 1595

Antes de chegar à Espanha, Sofonisba Anguissola fez alguns retratos de personagens ilustres de sua época que atestam sua fama e seus dotes para um gênero em que a importância das escolas venezianas e lombardas é apreciada. Com exceção do retrato de Massimiliano Stampa, um garoto cuja imagem formaliza seu novo status como marquês de Soncino e mostra a influência de Giovanni Battista Moroni (h. 1525-1578) na pintora, Sofonisba optou pelos retratos sentados.

Essa tipologia foi usada por Lavinia Fontana vinte anos depois para retratar artistas, advogados, médicos, humanistas ou clérigos. Sentados em uma mesa, surpresos com sua atividade intelectual – reforçada com um gesto retórico de suas mãos e a vivacidade de seus olhos –, os retratados pelas duas pintoras refletem uma condição fundamental da época: suas auctoritas, prestígio moral e cívico que seus conhecimentos e dedicação lhes reportavam.

 

SOFONISBA ANGUISSOLA NO TRIBUNAL DE FELIPE II

Lavinia Fontana, Judith y Holofernes, h. 1595

Nos anos que passou na corte espanhola, Sofonisba trabalhou como professora de desenho e pintura para Isabel de Valois, além de retratar quase todos os membros da família real. Nenhum dos retratos feitos na Espanha é assinado. Sua posição oficial no tribunal não era a de uma pintora e, de fato, suas pinturas eram recompensadas com ricos tecidos ou joias. Nas cópias atualmente reconhecidas por sua mão, nota-se sua adaptação aos modos de retrato da corte espanhol.

Além das características físicas, o caráter dinástico e as virtudes da família deviam ser mostrados: distância, quietude e severidade.

 

LAVINIA FONTANA: RETRATISTA DE BOLONHA

Os retratos eram a principal ocupação de Lavinia Fontana em Bolonha e, mais tarde, em Roma, gênero em que ela se destacava pela variedade de tipologias utilizadas.

Ela era, sem dúvida, a pintora favorita das damas, cujas reivindicações de mundanismo e luxo sofisticado estavam bem refletidas em seus retratos. Lavinia exibiu todas as suas habilidades para visualizar a opulência das roupas, os vários tecidos, as inúmeras joias ou a elaboração sofisticada das rendas, além dos inevitáveis ​​cães de colo.

Também representou os filhos das famílias mais notáveis ​​da cidade em composições religiosas para capelas particulares, retratadas com o pai ou a mãe ou como parte do grupo familiar.

O retrato de família, da Pinacoteca de Brera, é um excelente exemplo da evolução da Lavínia no final do século, pois oferece um “retrato de história” de um grupo familiar capturado com certo ar da vida cotidiana. Uma ideia que continua em Dama com quatro jovens, em que a pintora mostra uma cena doméstica, provavelmente ligada ao casamento da protagonista.

 

LAVINIA FONTANA E A PINTURA MITOLÓGICA

Lavinia Fontana, Marte y Venus, 1600-1610

Lavinia Fontana foi a primeira artista que fez composições mitológicas, nas quais, além de desenvolver sua capacidade de invenção, teve que entrar na representação do nu, uma terra banida das mulheres.

A sofisticada sociedade bolonhesa conseguiu conciliar o acompanhamento dos postulados religiosos contra reformistas e apreciar as representações mitológicas, com o nu, principalmente feminino, como protagonista. Um gosto de colecionador que se estendia a Roma, onde figuras ligadas ao papado encomendavam a Lavinia esse tipo de trabalho. Não há muitos, mas eles formam um conjunto eloquente que manifesta a capacidade sugestiva da artista de seguir as estratégias eróticas estimulantes das escolas de Praga e Fontainebleau.

A disposição dos nus, na qual incorpora detalhes que vão além da história mitológica a ser usada, ou a presença de joias, véus e transparências, que reforçam e estimulam a sensualidade das anatomias, dão uma boa conta da poderosa capacidade de invenção – a grande pedra de toque da arte da época – de Lavinia.

 

MEMÓRIA

Lavinia Fontana, Noli me tangere, 1581

Uma prova da notável fama de Sofonisba foi a visita que ela recebeu alguns meses antes de morrer do jovem Antonio van Dyck, em Palermo. Uma página do diário de viagem desse pintor e seu retrato da dama anciã lembram o emotivo encontro entre os dois artistas.

Lavinia também inspirou textos e objetos elogiosos. Uma das mais eloquentes é uma medalha cunhada em Roma, em 1611, com sua efígie em relação direta à prática da pintura de um lado e à alegoria da Pintura do outro.

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