Janelas Abertas é um mosaico polifônico e atemporal de ideias sobre cultura, sociedade e o impacto das mudanças no planeta nos modos de existência, na arte, no escrever e no performar. O livro, da editora Cobogó, reúne grandes nomes das artes e da cultura contemporâneas em conversas que têm a criação, a política e a vida como pontos de partida.
Organizado por Eleonora Fabião e Adriana Schneider, professoras da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a obra é um desdobramento de uma série de encontros semanais que reuniu, virtualmente, uma audiência em torno de duplas de intelectuais e artistas, abrindo as janelas encerradas pelo isolamento provocado pela pandemia que teve início em 2020. São diálogos entre 42 convidados e convidadas, professoras e professores, artistas, pesquisadores e pesquisadoras, curadoras e curadores, mestras e mestres de saberes tradicionais e estudantes, muitos deles com interlocuções intelectuais e artísticas de muitos anos.
No primeiro encontro, a poeta, ensaísta, acadêmica e dramaturga Leda Maria Martins e o dramaturgo, diretor e ator Marcio Abreu debatem o lugar da poesia hoje. Em seguida, o poeta, músico e artista plástico Cabelo e a artista extemporânea e pesquisadora Gabriela Gusmão conversam sobre arte e a presença política do corpo, enquanto o professor, ensaísta e curador André Lepecki e o diretor, ensaísta e professor José Fernando Azevedo refletem sobre questões como aceleração, branquitude e neoliberalismo. Já a artista Carla Guagliardi e a curadora, pesquisadora, herdeira griot e xamânica Keyna Eleison compartilham suas trajetórias e interesses comuns – música, arte, pedagogia, pensamento.
Já a psicanalista e ensaísta Tania Rivera e o filósofo e professor Vladimir Safatle relacionam ética, estética, política e psicanálise para discutir as estruturas de violência secular que alicerçam o Brasil, enquanto a cantora e artivista Danielle Almeida e o crítico, curador e filósofo Max Jorge Hinderer Cruz compartilham suas histórias de vida e seus modos de luta antirracista e antissexista. Em outro encontro, Francisco Mallmann e Miro Spinelli, atuantes nas imbricações entre escrita, performance e artes visuais, elaboram, em meio à conversa, um texto a quatro mãos, realizando o que chamam de “programa dentro do programa” – uma ação de escrita conjunta. Outros dois diálogos juntam o pedagogo e escritor Luiz Rufino e o professor, escritor e tradutor Thiago Florencio, estudiosos do colonialismo e da colonialidade, que discutem maneiras de a sociedade se livrar do que chamam de “carrego colonial”, e a dramaturga, diretora e atriz Grace Passô e o poeta, artista, ensaísta e editor Ricardo Aleixo trazem a força e a magia das palavras ao centro da conversa.
E as janelas seguem abertas em outros encontros: a coreógrafa, diretora de cinema e professora Carmen Luz e a professora, dramaturga e pesquisadora Silvia Soter abordam a história da dança e a luta diária para que mais pessoas possam dançar; o guitarrista, cantor, produtor e compositor Arto Lindsay e a professora, dançarina, romancista e ukulelista Barbara Browning embaralham realidade e ficção, texto e música; o artista, curador e tradutor Amilcar Packer e o artista e músico Negro Leo analisam a conjuntura política atual em um cenário onde “imaginação política é quase um sinônimo de arte”; a liderança da comunidade Guarani do Jaraguá Jaciara Augusto Martim e a antropóloga e professora Valéria Macedo levantam questões como progresso, alteridade, igualdade e a relação humana com a natureza; o ator, diretor e produtor Enrique Diaz e a atriz, escritora e produtora Mariana Lima se debruçam sobre processos de criação; e o professor, curador e crítico de arte Luiz Camillo Osorio e o professor, dramaturgo e crítico teatral Patrick Pessoa abordam o diálogo como prática filosófica. Uma roda de conversa entre os 12 integrantes do Núcleo Experimental de Performance (NEP), da UFRJ, e um diálogo entre as duas organizadoras sobre o projeto e seus efeitos encerram a série.
Seguindo um programa performativo, as conversas aconteciam às quartas-feiras, sempre às 17 horas – “no meio do meio da semana, na hora do lusco-fusco, enquanto o sol se põe e as luzes das telas acendem as casas”. Embora transmitidos pelo YouTube, os encontros não ficavam disponíveis na plataforma: eles mesmos, como as performances, tinham um caráter de efêmero, como um acontecimento que só pode ser pensado a partir da relação e no encontro – com suas especificidades e materialidades. Agora transcritos, esses diálogos transcendem o período em que se realizaram e apontam para o futuro. Assim como aconteceu durante quase quatro meses de transmissões ao vivo, Janelas Abertas, o livro, instiga, encanta, acolhe e provoca.

