Virgínia Di Lauro aborda feminino e ancestralidade na galeria Simone Cadinelli

Simone Cadinelli Arte Contemporânea apresenta “Em Suspensão”, ocupação feita pela artista Virgínia Di Lauro em sua vitrine voltada para a Rua Aníbal de Mendonça, em Ipanema. A instalação poderá ser vista até 14 de dezembro de 2020, e integra a exposição “Como habitar o presente? Ato 3 – Antecipar o futuro”, com curadoria de Érika Nascimento. Nascida em 1989 em Barra do Choça, sertão baiano, e há nove anos radicada em Porto Alegre, Virgínia Di Lauro faz um trabalho poético e forte em que aborda o universo feminino e sua ancestralidade. Em sua intervenção na vitrine da galeria, a artista usa elementos como colagens, em que pinta com tinta acrílica sobre superfícies diversas: fotografias de seu próprio corpo, páginas de um livro e voal, tecido fino e translúcido. A costura em lã vermelha também está presente no trabalho.

São cinco os trabalhos que compõem a instalação. Na parede em frente à vitrine estará “Desmembrar o texto, descascar, repovoá-lo” (2020), um painel de 1,64m, com 20 quadros formados cada um por seis páginas do livro “A vida de D. Pedro I" (1972), de Otávio Tarquínio de Sousa, que a artista recolheu do chão em uma esquina do Centro da cidade de Porto Alegre. Suspensos do teto, ligados por um fio de lã vermelha, estão delicados corações feitos em argila, na obra “Corações estranhos em suspensão (do teto)”, de 2018. Em “De coração suspenso” (2020), a artista faz interferências fotográficas sobre fotografias em que se vislumbra seu próprio corpo, e ainda uma outra camada de intervenções, onde faz uma costura em fio de lã vermelha, e aplica tinta acrílica sobre papel kraft.

A curadora Érika Nascimento ressalta que na instalação de Virgínia Di Lauro “observa- se a dualidade entre uma expectativa de delicadeza associada ao gênero feminino em uma sociedade patriarcal e a visceralidade e potência deste corpo”. A costura, um aspecto presente na obra de Virgínia, faz alusão às mulheres da família da artista, e à transmissão de saberes através do tempo, em sucessivas gerações. Dois outros trabalhos presentes na ocupação da vitrine são feitos em voal, tecido leve e translúcido, em que a artista faz pinturas e colagens. Em “Descortinar os olhos através dos nervos” (2020), o tecido serve de suporte para folhas do livro citado acima e fotografias, e a pintura em tinta acrílica e a costura em lã vermelha atravessam o trabalho. “Através dos nervos” (2020), em voal medindo 252cm x 82cm e com pintura em acrílica vermelha, é presa no alto da parede lateral, caindo suavemente sobre o chão, onde se estende por mais um metro.

Foto: Fernando Souza

O ELEFANTE

Para falar de seu trabalho “Em Suspensão”, Virgínia Di Lauro cita versos do poema “O elefante”, de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) – publicado na antologia “A rosa do povo”, que reúne poemas escritos entre 1943 e 1945: “(…) num mundo enfastiado que já não crê nos bichos e duvida das coisas (…) / (…) mas que os homens ignoram, pois só ousam mostrar-se sob a paz das cortinas à pálpebra cerrada. (…)”.
A artista explica que sua instalação “é a tentativa de não esquecer, para poder criar espaço de transmutar, ressignificar, a partir do que se tem nesse agora, do que também já foi”. “Por isso”, acrescenta, “trouxe aqui essas páginas de uma parte de nossa história um tanto quebrada como o que tento fazer no texto, quebrar, deixar que
caia. Tateio novamente ‘O elefante de Drummond’ e leio‘alusões a um mundo mais poético’, enquanto se desmonta, se destrói, também se constrói a partir dos destroços, das ruínas”. Virgínia Di Lauro diz que este trabalho “é a tentativa de uma costura, instável, frágil, como a criação de um corpo outro, tentativas possíveis, como no
poema de Drummond”.

Foto: Fernando Souza

VITRINE

Usada durante os períodos mais severos da pandemia como recurso da galeria Simone Cadinelli Arte Contemporânea para levar arte às pessoas que passavam pela rua Aníbal de Mendonça, em Ipanema, a vitrine está sendo agora utilizada para experimentações dos artistas, desde a abertura da exposição “Como habitar o presente?Ato 3 – Antecipar o futuro”, em 13 de outubro passado, quando a galeria passou a abrir para o público, seguindo todos os protocolos de combate ao Covid. Durante o período da exposição, a vitrine será ativada por três artistas, cada um com a duração de um mês. O primeiro artista a ocupar o espaço foi Pedro Carneiro, e após Virgínia Di Lauro será a vez de Franklin Cassaro.

 

EXPOSIÇÃO

A exposição “Como habitar o presente? Ato 3 – Antecipar o futuro” fica em cartaz até 16 de janeiro de 2021, com obras de 21 artistas em diferentes suportes e linguagens, como fotografia, vídeo, instalação, pintura e objetos: Agrade Camíz (Rio), Agrippina R. Manhattan (São Gonçalo, Estado do Rio), Caroline Valansi (Rio), Claudio Tobinaga (Rio),Denilson Baniwa (Mariuá, Amazonas), Efe Godoy (Sete Lagoas, Minas), Fernanda Sattamini (Rio), Fernando Brum (Rio), Franklin Cassaro (Rio), Gilson Plano (Goiânia), Isabela Sá Roriz (Rio), Jimson Vilela (Rio, vive em São Paulo), Leandra Espírito Santo (Rio, vive em São Paulo), Márcia Falcão (Cabo Frio, Estado do Rio), Pedro Carneiro (Rio), Rafael Adorján (Rio), Simone Cupello (Niterói, Rio de Janeiro), Stella Margarita (Treinta y Três Uruguai, radicada no Rio), Virgínia Di Lauro (Barra do Choça, Bahia, vive e trabalha em Porto Alegre), Vitoria
Cribb(Rio) e Yhuri Cruz (Rio).

O público poderá ver ainda pessoalmente os 29 vídeos dos 27 artistas que fizeram parte do Ato 1 e do Ato 2, exibidos de julho a setembro na vitrine da galeria, ainda fechada ao público na época, e em seu site. Assim, o Ato 3 engloba os trêsmomentos, somando, ao todo, 62 obras, de 45 artistas. A exposição também ganhou um tour virtual 3D, para que os amantes da arte possam ver os trabalhos remotamente, como se estivessem visitando o local. Basta
acessar o site https://www.simonecadinelli.com/.

Foto: Fernando Souza

SOBRE A ARTISTA

Nascida em Barra da Choça, Bahia, em 1989, vive e trabalha em Porto Alegre, desde 2011. Atualmente cursa o bacharel em Artes Visuais, pela UFRGS, tendo transitado pelo curso de Design de Moda e História da Arte. A partir do corpo, incluindo o próprio, a poesia, a memória, os sonhos, processos internos, desenvolve suas produções nos mais diversos suportes como vídeos, fotografias, objetos, seu corpo, GIFs e pinturas. Em 2018 realizou a exposição individual “Tramas no Vazio”, no Instituto Estadual de Artes Visuais, em Porto Alegre. Em 2019, participou da exposição coletiva “Artistas Mulheres Tensões e Reminiscências”, na Pinacoteca Rubem Berta, Porto Alegre, com curadoria das Mulheres no Acervo. Em 2020 participou da residência artística “Caminhos para uma Imagem”, no Rio de Janeiro, com o artista Frederico Arêde, e frequentou o curso Creativity Master Class com Charles Watson na Escola de Artes Visuais do Parque Lage. Dois trabalhos da artista integram a coleção do Museu de Arte do Rio (MAR).

Foto: Fernando Souza

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