Virginia de Medeiros e a perturbação da alteridade

Artistas Mulheres Contemporâneas no Acervo é um programa do Itáu Cultural

Artistas Mulheres Contemporâneas no Acervo destaca produções de criadoras presentes na coleção de obras de arte do Itaú Cultural. A cada edição da série, uma conversa sobre trabalhos com temáticas e estilos variados, buscando ampliar horizontes. Siga aqui pelo site ou no perfil no Instagram.

Virginia de Medeiros, Maria da Penha, da série Fábula do Olhar, 2013 foto-pintura digital impressa sobre papel de algodão, som 120 x 90 cm Acervo Banco Itaú Imagem: Edouard Fraipont/Itaú Cultural

Mais abaixo, você pode ler o texto escrito no quadro à direita

POR DUANNE RIBEIRO

Como você gostaria de se ver ou ser visto pela sociedade? A resposta a essa pergunta pode ser ao mesmo tempo difícil e intuitiva. Qual aparência – das roupas às expectativas sobre o próprio corpo ­–, qual imagem – desde os símbolos que escolhemos exibir às histórias que contamos de nós –, que identidade queremos? Ainda mais, como pensamos que tudo isso afeta o outro? De quem queremos nos apartar, a quem queremos impressionar?

Fábula do Olhar, criação de Virginia de Medeiros, reúne alguns pontos de chegada possíveis para aquela pergunta primeira – desdobrável nessas que apontamos ou em outras – sobre como nós queremos nos ver e ser vistos. A artista visual apresentou essa questão aos 21 moradores de rua retratados, para explorar assim o seu “campo de subjetividade”, como expressa o site da artista. As réplicas envolvem verdade e desejo, tanto fatos quanto “momentos de fabulação”, que é

quando a diferença entre aquilo que é real e aquilo que é imaginado se torna indiscernível, quando por esse processo o indivíduo se constitui como um sujeito da cena e não como um mero objeto que é observado: criar um mundo, nele crer e se projetar.

Esse é um interesse que atravessa o trabalho de Virginia. Tratando de outra obra, o vídeo Sérgio e Simone, ela afirma: “Me fascina essa capacidade de fabulação e de ficcionalizar a vida quando você tem uma câmera na sua frente”. Tal fascínio implica um modo de fazer, uma postura diante dos entrevistados. Interessada em “adentrar universos pouco visíveis na esfera macrossocial”, ela está suscetível – é o que conta quando comenta Studio Butterfly – a “cair no exotismo, cair no clichê”. Mas a fabulação, “a ideia de estar menos preocupada com o fato, menos preocupada com a verdade, e mais interessada em criar um outro lugar – isso me protege”.

Inscrita nesse quadro criativo, Fábula do Olhar foi produzida em um estúdio fotográfico disposto em dois refeitórios públicos na cidade de Fortaleza, no Ceará. As fotos foram produzidas em um mês e meio, em preto e branco; nesse período, Virginia também colheu os depoimentos a partir daquela pergunta-chave – essas entrevistas aparecem em textos ao lado das imagens. Por fim, a artista convidou o foto-pintor Júlio dos Santos (veja um minidoc do Sesc Belenzinho sobre ele) para colorir os retratos de acordo com as “encomendas” dos moradores de rua.

Maria de Penha, personagem da obra que trazemos para cá, encomendou “uma roupa colorida”. Foi atendida por essa combinação singela, o azul da camisa e do laço, em harmonia com o suave lilás do fundo, em contraste com o vermelho da flor na lapela e do batom. À Virginia, ela disse:

Meu nome é Maria da Penha, tenho 44 anos. Sou do dia doze de maio, sou de 68. A rua não é lugar bom não, mas vicia. O pior da rua é o preconceito que a sociedade tem contra a gente, a gente nunca é bem vinda. É uma aparência que não é boa. O outro lado da rua são os ‘perigos’ que a gente corre, tem que saber se dar com quem vive na rua. Porque se a gente não souber se dar, tem muita confusão e morte.

Toda vida eu gostei de ficar no meu canto, sou assim. Nem sei se alguém tem qualquer coisa pra falar de mim. Hoje eu recebo meu aluguel social, tenho uma casa. Mas não me acostumo, eu acho estranho dentro de casa. Acho que depois do tanto do tempo que passei na rua eu não me acostumo mais em casa. Fico andando, cada dia num lugar. Um dia em casa, um dia na rua, um dia em instituição.

Eu tenho dois filhos que gosto muito, tenho dois netos, e agora vem o terceiro. O meu sonho? O meu sonho é um dia poder ficar firme em casa, sem precisar ir pra rua. A rua não é uma opção, é uma obrigação, sou obrigada a ir pra rua.

Como Maria da Penha quer ser vista, como você vê Maria da Penha? É esse contato com o outro – por quem se interessa de forma “quase obsessiva” – o que proporcionam as obras de Virginia. Por meio de “conhecer, conviver, conquistar a confiança e fazer amigos”, como anota o prêmio Pipa, estando aberta a ser transformada pelos encontros, a artista exalta o valor da alteridade, principalmente no seu poder de nos tirar do lugar: “A alteridade perturba. E ela perturba porque a primeira coisa que ela faz é romper a hierarquia”. A fábula, assim, quebra correntes.

Virginia de Medeiros atua entre arte e tecnologia, com foco em videoinstalações e outros tipos de obra audiovisual. Em 2006, foi contemplada pelo programa Rumos Itaú Cultural com a citada Studio Butterfly, também exposta na 27ª Bienal de São Paulo. Em 2014, fez parte, com Sergio e Simone, da 31ª Bienal (assista a uma fala da artista sobre essa mostra, gravada em uma atividade do Entreolhares, formação em artes visuais do IC). Maria da Penha compôs a exposição Modos de Ver o Brasil: Itaú Cultural 30 Anos, de 2017.

Veja outras fotos de Fábula do Olhar no catálogo da coletiva Cães Sem Plumas [Prólogo], realizada pela Galeria Nara Roesler, em 2013.

 

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