Subtraídos em poucos minutos durante a festa de 15 de agosto, cinco painéis de um dos grandes retábulos do Renascimento siciliano desapareceram, enquanto outros dois foram encontrados cuidadosamente deixados do lado de fora
Na noite de 15 de agosto, Messina estava voltada para o centro da cidade. Enquanto mais de cem mil pessoas acompanhavam a tradicional procissão da Vara, nas proximidades do museu regional, ao norte do centro histórico, quase não havia movimento. Foi nesse intervalo de silêncio que pelo menos dois homens cortaram a cerca do Museo Regionale Interdisciplinare e forçaram uma porta lateral. Poucos minutos depois, levavam consigo cinco painéis do Polittico di San Gregorio, obra de Antonello da Messina, além de uma pequena pintura de duas faces. A ação, registrada pelas câmeras, teria durado apenas dois ou três minutos.
A escolha da data parece ser uma das poucas certezas do caso. O dia 15 de agosto coincide com o Ferragosto, feriado nacional italiano, e com a Vara, uma das manifestações religiosas mais importantes de Messina. Cerca de 150 mil pessoas ocupam o centro, ruas são bloqueadas e centenas de policiais são mobilizados. Nas áreas periféricas, porém, a cidade praticamente esvazia. “Se existe um dia entre os 365 do ano em que um ladrão escolheria fazer um roubo em Messina, seria 15 de agosto, o dia da procissão da Vara”, afirmou um investigador ligado à apuração. O especialista em arte e quadrinista Lelio Bonaccorso, que já colaborou com o museu, descreveu o cenário de forma ainda mais simples: “As áreas nos arredores da cidade ficam quase desertas naquele dia”.
O que aconteceu dentro do museu é mais difícil de explicar. Segundo informações reunidas pela investigação, os criminosos usavam capacetes de motociclista e podem ter contado com outros dois homens do lado de fora. A porta pela qual teriam entrado era uma das poucas sem alarme. O retábulo, entretanto, possuía um sistema próprio de segurança, programado para disparar diante do menor movimento. Fontes policiais afirmam que o alarme tocou e que um funcionário teria desligado o sistema por acreditar tratar-se de um disparo falso. A possibilidade de participação interna chegou a ser examinada, embora fontes da polícia tenham contestado relatos sobre um funcionário sob investigação. Para Christopher Marinello, advogado especializado em recuperação de obras de arte, a hipótese é uma linha natural em crimes desse tipo. “Como os criminosos passaram pelos guardas, alarmes e câmeras? Sempre existe a suposição de ajuda interna, mesmo quando isso acaba sendo descartado.”

A Ressurreição de Lázaro e A Adoração dos Pastores, de Caravaggio.O detalhe mais desconcertante veio depois. Cerca de dez minutos após o roubo, uma mulher encontrou, sobre um muro baixo do lado de fora do museu, duas das cinco partes do retábulo. Não estavam espalhadas pelo chão. Haviam sido apoiadas cuidadosamente. “Por que desmontar uma obra de cinco painéis e depois abandonar dois deles do lado de fora?”, questiona Bonaccorso. A saída de emergência situada diante do local onde as peças foram encontradas também entrou no radar dos investigadores. Dali, o caminho conduz em direção ao Estreito de Messina, abrindo inclusive a possibilidade de uma fuga por embarcação. Roubo encomendado e eventual pedido de resgate também são hipóteses consideradas.
A importância da obra torna qualquer negociação especialmente arriscada. Criado originalmente para o Mosteiro de San Gregorio, o retábulo é o único trabalho de Antonello que permaneceu sempre em sua cidade natal. Sobreviveu ao terremoto de 1908, que devastou Messina e matou cerca de metade da população, e ganhou para muitos moradores um significado que ultrapassa a história da arte. O museu abriga ainda duas pinturas de Caravaggio, mas Messina conhece bem o destino de obras célebres roubadas. A Natividade com São Francisco e São Lourenço, desaparecida de Palermo em 1969, nunca foi recuperada e permanece entre as obras de arte procuradas pelo FBI. No caso de Antonello, a promotoria de Messina não descartou uma eventual conexão com a máfia, embora não haja, até agora, confirmação pública dessa hipótese.

Painel de dupla face representando a Madona com o Menino e Cristo na Pietá, atribuído a Antonello da Messina, no Museu Interdisciplinar Regional de Messina.
Para Marinello, o próprio prestígio do retábulo pode ser seu maior obstáculo no mercado clandestino. “Essas pinturas logo serão consideradas radioativas”, afirmou. Um conjunto tão conhecido, ainda por cima incompleto, dificilmente poderia ser exibido ou vendido de maneira convencional. No museu, por enquanto, o espaço vazio deixado pelo Polittico di San Gregorio permanece coberto por painéis pretos. A investigação tenta reconstruir os poucos minutos em que uma das obras mais importantes da história artística de Messina desapareceu.


