O que era para ser uma homenagem luminosa ao icônico Wrapped Reichstag de Christo e Jeanne-Claude transformou-se em motivo de controvérsia em Berlim. Desde o início de junho, uma projeção digital tenta recriar na fachada oeste do edifício do parlamento alemão os famosos tecidos ondulantes que, em 1995, envolveram o Reichstag em mais de 100 mil metros quadrados de polipropileno aluminizado. A intervenção atual, programada até 20 de junho, usa tecnologia de ponta para simular o efeito visual, mas tem sido amplamente criticada por sua estética superficial e por um simbolismo considerado raso diante do peso histórico do local.
A jornalista Elke Buhr, em artigo contundente publicado pela revista Monopol, classificou a iniciativa como uma “afronta estética” e um exercício de nostalgia mal planejado. “Christo não merece isso”, escreveu, lembrando que a força do projeto original estava justamente na materialidade e no esforço coletivo envolvido na instalação — com dezenas de alpinistas, quilômetros de cordas e uma forte carga política. A crítica também questiona a escolha de um simples mapeamento de luz, projetado sobre um prédio hoje funcional e sede de um parlamento democrático, em tempos de crescente desconfiança institucional na Alemanha. “Simular uma ocultação do Reichstag, neste momento político, beira a imprudência simbólica”, comentou.

O artista Ibrahim Mahama, reinterpretou o legado de Christo ao envolver a Kunsthalle Bern com sacos de juta. Foto cortesia de Cedric Mussano.
Além da execução técnica pobre, que resultou em uma ilusão de “paredes amassadas e sem textura”, segundo a historiadora Carlotta Menegazzo, o contexto urbano tampouco favorece a experiência: obras no entorno e a instalação de barreiras de segurança ao redor do edifício prejudicam a interação com o público. A título de contraste, Buhr citou a recente intervenção do artista ganês Ibrahim Mahama, que reinterpretou o legado de Christo ao envolver a Kunsthalle Bern com sacos de juta usados no comércio de cacau, criando um diálogo crítico com as heranças coloniais. Para os berlinenses saudosos da presença física das obras de Christo, a alternativa é visitar a Neue Nationalgalerie, onde um Volkswagen Fusca embalado, também de autoria de Christo, encontra-se atualmente em exibição.


