Uma pintura de Kehinde Wiley, artista que ganhou projeção internacional ao assinar o retrato oficial de Barack Obama, entrou no alvo da ofensiva cultural do governo Donald Trump. A obra Young Artists After Siamesas 1960, instalada na Embaixada dos Estados Unidos em Santo Domingo, foi retirada na semana passada e pode ser colocada à venda pelo Departamento de Estado, caso o governo conclua que isso é legalmente possível.
A tela reúne quatro modelos dominicanos diante de um fundo floral e foi encomendada pelo próprio governo americano em 2013. O episódio começou com a obra coberta por uma lona estampada com a bandeira dos Estados Unidos. Depois, veio a retirada definitiva. Erin Scavino, diretora do programa Art in Embassies, classificou a pintura em um podcast como “muito woke” e “esteticamente aterrorizante”. A embaixadora americana na República Dominicana, Leah Campos, comemorou a remoção nas redes sociais ao som de We’re Not Gonna Take It, do Twisted Sister, e associou a obra a “ideologias globalistas e woke”.
O Departamento de Estado, ao justificar a decisão, não apresentou uma crítica específica à composição. Em vez disso, mencionou declarações feitas por Wiley em 2023 a respeito de sua pintura Judith and Holofernes, além de acusações de agressão sexual que o artista nega. “O trabalho de um indivíduo com palavras e representações tão violentas e racistas não tem lugar no Departamento de Estado America First”, afirmou uma porta-voz. A possibilidade de venda ainda está sendo analisada. Uma obra menor de Wiley alcançou quase US$ 845 mil em um leilão da Phillips em 2024.
Para Virginia Shore, que encomendou a pintura durante sua passagem pelo Art in Embassies, a leitura política feita agora não corresponde à origem do projeto. Shore dirigiu a área de aquisições e foi curadora-chefe do programa entre 2000 e 2017. Ela descreveu a obra como apartidária e lembrou que não há precedente para a venda de trabalhos das coleções diplomáticas. “Chamar isso de woke é difícil de entender para mim”, disse. Segundo ela, o programa foi criado justamente para construir confiança e empatia entre países, uma política que recebeu apoio e financiamento ainda durante a administração de George W. Bush.
Wiley recebeu, em 2015, uma premiação do próprio Departamento de Estado por sua contribuição à diplomacia cultural. Seu método costuma partir de pinturas históricas, substituindo seus personagens por modelos negros contemporâneos e criando novas relações entre tradição pictórica e identidade. Para a obra de Santo Domingo, o artista passou dois anos pesquisando trabalhos dos dominicanos Celeste Woss y Gil e Gilberto Hernández Ortega e trabalhou com estudantes de arte do país na construção da cena.
A retirada se insere em uma disputa mais ampla pela direção estética do aparato diplomático americano. Criado durante a administração Kennedy, em 1963, o Art in Embassies ganhou novas atribuições após a legislação de segurança das embaixadas de 1999, quando os postos diplomáticos passaram a desenvolver coleções permanentes. Desde o início do atual governo, o programa também foi usado para ações de forte marca política. Scavino afirmou ter provocado a saída de um embaixador em Bucareste por causa de uma suposta “arte de bebê satânico”, embora a saída tenha sido registrada como aposentadoria planejada. Em julho, organizou em Washington uma exposição com quase 70 versões da bandeira americana sob o título “Make Art Great Again”. Em Santo Domingo, Campos resumiu sua posição dizendo que a arte exibida pela embaixada deve refletir “a beleza, a força e o compromisso com a liberdade dos Estados Unidos e de seu povo”. O destino da obra de Wiley agora depende de uma decisão administrativa e jurídica.

