Complexo Rike Tubes, projetado pelo estúdio Fuksas, foi concebido como centro de música e arte contemporânea e está praticamente sem uso desde 2012
A paisagem de Tbilisi está perdendo um de seus sinais mais reconhecíveis de modernidade. A demolição do Rike Park Music Theatre and Exhibition Hall, conhecido como Rike Tubes, começou em agosto e deve ser concluída até dezembro. A decisão provocou reação de arquitetos, moradores e grupos ligados à preservação, que tentam interromper a retirada do complexo projetado pelos italianos Massimiliano e Doriana Fuksas.
Formado por duas estruturas de vidro e aço que se projetam sobre o Rike Park, o conjunto destoava deliberadamente da arquitetura histórica de Tbilisi, marcada pelos edifícios do século 19. O projeto surgiu em 2010, durante o governo de Mikheil Saakashvili, como parte de uma política de renovação urbana que apostava em uma arquitetura contemporânea de forte presença visual. As obras começaram no ano seguinte, mas foram interrompidas quando o partido Georgian Dream chegou ao poder, em 2012. Desde então, o complexo permaneceu praticamente vazio.
A autorização para a demolição foi emitida em junho pelo Serviço de Arquitetura da Prefeitura de Tbilisi para a empresa Rike Dom, proprietária do imóvel. O primeiro-ministro Irakli Kobakhidze já havia criticado publicamente o edifício, dizendo que sua “feiura não combina com nossa bela capital”. O prefeito Kakha Kaladze também se manifestou contra a permanência das estruturas, comparando o complexo a um “depósito de lixo” e afirmando que a decisão de removê-lo é definitiva.
Os Fuksas receberam a notícia com “profundo pesar”. Em comunicado divulgado em julho, o estúdio defendeu que o espaço fosse recuperado para a função originalmente planejada, como “uma sala de concertos para música clássica e um importante espaço para arte contemporânea”. Segundo os arquitetos, nem as autoridades públicas nem outros envolvidos no projeto procuraram o escritório, apesar da disposição declarada para colaborar. A crítica ganha força porque outros edifícios construídos durante a era Saakashvili encontraram novos usos em Tbilisi. O antigo Palácio Presidencial, por exemplo, passou a abrigar o Ministério das Relações Exteriores da Geórgia neste ano.
O futuro do terreno pode ajudar a explicar a urgência da demolição. Segundo o grupo regional Open Caucasus Media, o governo autorizou um plano de desenvolvimento que poderá incluir um hotel pertencente à própria Rike Dom. A Maqro Property, controladora da empresa, ainda não havia se pronunciado sobre o projeto. Enquanto as máquinas avançam, parte da população considera levar a contestação aos tribunais. Em artigo publicado no Georgia Today, o jornalista Ivan Nechaev resumiu a disputa de outra maneira, ao chamar as estruturas de “lentes, portais através dos quais Tbilisi imaginou sua entrada no discurso arquitetônico global”. Para os defensores do complexo, a questão deixou de ser apenas o destino de um edifício pouco utilizado e passou a envolver qual imagem da cidade Tbilisi pretende preservar.


