Exposição no Palácio Boa Vista reúne 16 obras da artista e percorre cinco décadas de uma produção decisiva para o Modernismo brasileiro
Tarsila do Amaral faria 140 anos em 1º de setembro. A data recoloca em primeiro plano uma artista cuja trajetória se confunde com momentos fundamentais da arte brasileira do século 20 e com a própria paisagem cultural paulista. Entre fazendas do interior, temporadas na capital e a circulação pelas vanguardas europeias, Tarsila construiu uma pintura capaz de aproximar referências internacionais de personagens, cores, paisagens e imaginários brasileiros.
Em Campos do Jordão, o Palácio Boa Vista marca a efeméride com a exposição Tarsila do Amaral e a Volta ao Clássico, aberta gratuitamente ao público até 30 de setembro. Com curadoria de Renata Rocco e Raquel Ruiz, a mostra reúne 16 obras pertencentes ao Acervo Artístico-Cultural dos Palácios do Governo e apresenta diferentes momentos de uma produção que se estende por cinco décadas. Entre os trabalhos estão Operários (1933) e Religião Brasileira (1927), obras que ajudam a acompanhar a passagem da artista por diferentes interesses e linguagens.
O eixo da exposição parte de uma crônica publicada por Tarsila em 1939, também intitulada Volta ao Clássico. A partir dela, a mostra investiga a relação da artista com a tradição em meio à experiência moderna, reunindo trabalhos associados a fases marcadas pelo cubismo, pelo surrealismo e pela dimensão social que ganhou força em sua pintura nos anos 1930. O percurso evidencia que sua obra nunca se resumiu a uma única fórmula visual. Tarsila transitou entre diferentes referências sem abandonar a busca por uma linguagem própria.
São Paulo ocupa lugar particular nessa história. A infância de Tarsila foi dividida entre grandes propriedades rurais do interior paulista, primeiro na Fazenda São Bernardo, em Capivari, hoje Rafard, e depois na Fazenda Santa Teresa do Alto, em Mont Serrat. As paisagens, histórias e relações sociais desse ambiente permaneceriam como referências importantes em sua obra. Mais tarde, essas memórias seriam reelaboradas a partir das experiências que a artista acumulou no Brasil e na Europa, em contato com as vanguardas que transformavam a arte naquele período.
A dimensão brasileira de sua pintura ganhou uma de suas imagens mais conhecidas em Abaporu. Pintado em 1928, o trabalho foi dado por Tarsila a Oswald de Andrade e tornou-se o ponto de partida para o Manifesto Antropófago, publicado pelo escritor no ano seguinte. A ideia de absorver e transformar referências externas para produzir algo próprio tornou-se um dos principais eixos do Modernismo brasileiro e ajudou a projetar Tarsila como uma de suas figuras centrais.
A exposição no Palácio Boa Vista pode ser visitada até 30 de setembro, com entrada gratuita e atendimento por ordem de chegada.

